28 de janeiro de 2014 22:01

renata 1

Por Renata Poskus Vaz

Outro dia, uma leitora me disse que em sua terapia descobriu que engordou como uma forma de se punir por ser muito bonita. Ela afirmou com todas as letras que a forma que encontrou para diminuir o assédio sexual que sofria na adolescência foi engordar.  Parece algo absurdo e até um tanto quanto prepotente, mas será que isso não é realmente possível? Engordar como uma forma de se auto-sabotar?

Hoje sabemos que podemos ser bonitas, sensuais e bem-resolvidas mesmo gordas. Mas como era o conceito que fazíamos do sobrepeso antes, na adolescência?

Não foi a primeira vez que escutei ou li esse tipo de comentário. Uma querida amiga, por exemplo, dona de lindos olhos azuis, inteligentíssima, sentia-se cobrada por seus pais. Ela era, aos olhos deles (mesmo que disfarçassem e não assumissem isso publicamente) melhor em diversos aspectos que a irmã. E quanto mais bonita ela ficava, mais cobranças acerca da sua beleza ela recebia. Ao engordar essas cobranças pararam. Ela deixou de ser considerada “acima da média”, virou a “inteligente da família”, enquanto a irmã era a “mais bonita”, aos olhos dos que as cercavam.

Nasci um bebê com peso normal e sempre fui muito ativa. Fazia volei, natação, ballet… Brincava de corre-corre, pique-esconde… Nas férias vivia no mar e andava todos os dias quilômetros e mais quilômetros de faixa de areia. Era uma criança magra.

Aos 12 anos, de uma hora para a outra, enormes seios surgiram no meu corpinho esguio. Surgiram também a cinturinha fina e o quadril largo. Porém, continuava magra. Aos 14 anos pesava 52 Kg e já tinha 1,72m.

Com esse corpo novo surgiram novas cobranças: “sente de perna fechada, mocinha não pode ser assim”. “Não estufe essa barriga!”… Para completar, tenho uma tia poucos anos mais velha do que eu. Ela é mais uma espécie de irmã mais velha do que tia, a Laiza, que sempre foi muito magra e linda. Óbvio que me comparavam com ela. E isso, para uma criança, dói.

Na escola, ouvia piadas e histórias de que eu tinha não sei quantos namorados, mas a verdade é que eu demorei pacas para dar meu primeiro beijo na boca, era tímida e encalhada e mesmo assim diziam que eu “transava com sei lá quem”. Isso para mim era humilhante. Eu tinha o sonho de casar virgem, pura e mais um monte de lenga-lengas românticos e me sentia desrespeitada. Acontece que eu era uma menina com corpo de mulher e isso talvez tenha dado margens à imaginação daqueles garotos idiotas e das meninas invejosas.

Na rua, ouvia cantadas de homens mais velhos, com idade para serem meus avós. Foi aí que aprimorei minha capacidade de ser grosseira e respondia sempre com agressividade a esses tarados.

Ser magra e bonita, realmente era um inconveniente! Além do mais, porque eu era, modéstia à parte, muito inteligente. E, por incrível que pareça, até mesmo por parte dos professores havia a ideia de que alunas bonitas são burras. Foram diversas as vezes em que tive que comprovar que minhas redações eram realmente minhas e que eu merecia as notas altas que recebia.

Com o tempo, deixei de me dedicar na escola. Tirar notas médias e baixas e engordar era uma boa forma de não ser notada, de ser como todas as outras garotas.

Hoje encaro meu corpo de outra forma e sei que esse engorda/emagrece/engorda também foram responsáveis pela Renata que hoje sou. Entretanto, o vício da auto-sabotagem, não só a do corpo, também refletiu em outros aspectos de minha vida. E é disso que eu preciso cuidar, hoje.

  • Vivemos num mundo cheio de cobranças e temos que nos ajustar e não deixar brechas, realmente é complicado. Super entendo seu relato pois quando era adolescente era taxada e me achava feia portanto, tinha que ser boa em outras coisas. Consegui me destacar nos esportes, nas matérias mas ser bela? Nunca…Hoje, adulta, assumidamente gorda, sinto-me gatíssima (ironia do destino) e, para quem me conhece mais profundamente, ouço dizerem que na adolescência eu tinha que ter explorado mais minha beleza escondida. Engraçada a vida…rs

  • O texto é interessante, mas não se encaixa no meu caso. Sou gorda é porque COMER É BOM DEMAIS..rsr

  • jamilly

    poxa lendo isso parece que foi eu quem escrevi… mais eu ainda nao tinha me dado conta de que foi assim que aconteceu!e ainda hj penso assim,adoro ser gordinha pq posso sair com meus amigos homens sem que eles queiram transar comigo…. nao pq nao sou desejada mais pq eles preferem as magrinhas pra “curtir” me sinto tao melhor… como se so quem realmente importa me ve e nao todos a minha volta me “querendo” poxa eu acho que sou mais feliz assim gordinha, de verdade!

  • Flavita

    Me arrepiei pq não estou sozinha. Com 14/15 anos, lembro q chorava pq era a gostosona do grupo mas tb a mais moleque e os caras insistiam q eu já era experiente e minha experiência se resumia a beijos na boca. Passei de 57kg para 76kg rapidamente. Foi minha primeira mudança brusca de peso. Na época minha mãe, como psicóloga, mãe e amiga, me repreendia pq via o q acontecia, me cobrava q eu não podia me sabotar, mas não adiantou mt. Até hj, msm consciente d q me saboto, vivo na sanfona pq, obviamente, isso tb é reflexo d mt coisa na minha vida d q às vezes não dou conta. Há quase 3 anos, faço análise – agora por vontade própria, por sentir necessidade – e isso tem me ajudado, mas a luta é diária. E todos os dias digo pra mim msm q eu não vou mais me colocar pra baixo, q é difícil mas não é impossível!

  • Eu vivi muito isso de ficar muito irritada pq parecia que nada do eu tinha por dentro importava! Eu era muito comunicativa e não podia falar com um homem sem que tivesse o maior comentário de que ele ficou comigo,como isso me irritava! Não soube lidar com isso e queria saber se iriam se interessar por mim se eu não fosse magra!
    Eu acabei engordando tbm,não só por isso,mas foi um dos motivos e hj não sei se gostaria de ficar tão magra novamente,pq eu gostava de mim mais cheinha,então se só perder uns quilinhos já fico satisfeita,pq hj sei lidar com o que antes não sabia e sei me dar mais valor,pena que isso só se aprende com os anos,teria me poupado de tantos problemas!
    É horrível vc ser o comentário, que sai com todos,sendo que ta mesmo é encalhada! Ainda mais em cidade pequena!
    Eu realmente sofri muito e tive muitos problemas por isso,o que foi uma das causas de uma depressão e consequentemente eu parei de me cuidar,nem batom passava mais,andava mal arrumada,um horror! Como as pessoas maldosas conseguem destruir a vida de alguém e pra se levantar não é nada fácil! Eu so tive namorado depois dos 30 anos e a sorte que o conheci na internet,era de longe,aí pude mostrar o que era de verdade,pena que ele não me conheceu como eu era antes,esse sim merecia! É um homem maravilhoso e tenta me dar força pra superar e voltar a me cuidar mais!

  • Rê , realmente com muita gente é assim que funciona .
    Ser julgado ou até mesmo o centro das atenções não é legal , fui gordinha durante toda a minha infância e isto me incomodou por muito tempo .
    Depois de um tempo desencanei dos pré julgamentos , e me concentrando quanto ao que eu quero aos poucos estou conquistando o meu corpo ideal .

    Adorei o post ♥ Beijos
    http://www.maketula.wordpress.com

  • Maria Cecilia

    É, pois é. Exatamente.
    E o negócio é sempre “um dia após o outro”… E parar de olhar tanto para trás e para os lados, aí a gente segue mais em frente sem sentir tanto as nossas próprias feridas.
    Lindamente escrito.

    Beijos!

  • Paula Regina

    Renata, parabéns por dividir suas experiências, seus relatos para que outras pessoas sintam-se tocadas e não mais sozinhas. Bacana isso, viu?!
    Cronica nota 10 =0)

    beijo grande.

  • patricia

    Sempre fui gorda. Desde criança já ouvia as piadinhas e tudo mais. Quando tinha meus 25 anos tomei remédios para emagrecer e fiquei linda demais. Resultado: não soube lidar com o assédio e além de engordar de novo fiquei em depressão. Por isso sei exatamente como é se boicotar. Hoje não consigo emagrecer de jeito nenhum. Perco dez quilos e automaticamente paro a dieta e volto a engordar.

  • Glenda

    Adorei o post Renatinha… Nessa semana li uma reportagem falando sobre quebrar tabus, é de uma revista de fev/13 e falava das questões de gordos e, inclusive, do preconceito de 10% dos entrevistados (pessoal de RH) que acreditam que os gordos são mal-sucedidos porque são indisciplinados, e por esse motivo, não contratam gordos. Vou conseguir essa reportagem e te mando.

    Eu sofri com essa questão, e meu sub consciente me sabotou durante minha adolescência e início de idade adulta. Tenho um amigo de longa data, que hoje é meu concunhado, que sempre me disse que eu tenho uma combinação perigosa: sou bonita e inteligente. E sem falsa modéstia, sou mesmo bonita e inteligente, mesmo tendo o dobro do peso de outrora.

    Para minha terapeuta ficou bem claro que a gordura é minha capa, minha proteção, onde me escondo e me protejo de todas as questões que me afetavam.

    Hoje, para que eu não me sabote mais, preciso me esforçar, me focar muito na minha meta e me amar, mais do que aos outros. Só assim eu poderei amar. Se eu me amar plenamente.

  • Sempre verdadeira e explicita… jogando álcool em feridas abertas e eu te agradeço por isso.
    A minha auto-sabotagem tem um misto de motivos, e tenho certeza que tem alguma coisa trancada em algum canto escondido da minha memória que quando toco em determinados assuntos dá um “tilte” e bloqueio.
    e vou na sua cola… “Entretanto, o vício da auto-sabotagem, não só a do corpo, também refletiu em outros aspectos de minha vida. E é disso que eu preciso cuidar,”

    Preciso MESMO cuidar disso enquanto é tempo!

  • Lucia

    Texto maravilhoso e tocante para mim. Faz muito tempo que eu percebi que essa minha auto sabotagem é uma defesa para me proteger do mundo. Chegou uma hora que eu cansei, foi no início da vida adulta, 22, 23 anos, por ser bonita e inteligente o assédio e as tentativas de abuso eram insuportáveis, já estava casada e mesmo assim muitos homens tentava me assediar. Engordei e veio a paz, mas eu queria ser bonita para mim e com 27 anos emagreci de novo e voltaram os assédios, e a minha opção depois de uns anos foi engordar novamente. Estou assim faz muitos anos, tranquila mas sem nunca ter me aceitado gorda, o que é um martírio. Admiro muito todas que conseguem se sentir tão bem assim, leio sempre o mulherão, mas eu sinto muita falta de mim quando estava magra, mas sem coragem de emagrecer.

  • PRISCILLA SERAFIM

    Nunca tinha pensado assim, mas concordo em tudo que você escreveu. O seu texto foi como me olhar no espelho e me enxergar por dentro.

  • Valter Sanches

    Incrivel como muitas pessoas usaram a forma “ser gorda” como uma espécie de armadura, de roupa de super-herói invisível. É bem verdade que quando crianças nós não temos ainda mecanismos de defesa, como saber responder a altura, evitar as pessoas invejosas, etc…Para os homens é natural que um gordinho seja chamado de “bolo fofo”. É uma linguagem de criança. Uma ofensa sem saber. Apenas repetem o que os outros dizem. Já com as mulheres eu não fazia a mínima idéia de quantas que usaram esse artifício para se esconder, se defender e até mesmo não serem notadas. Ainda bem que todas vocês cresceram, são fofinhas e adoradas por nós homens.

  • Cris

    Renata o meu comentário nada tem haver com a sua postagem, que foi divina como sempre.
    Conversei com uma amiga que fez o mesmo procedimento da atriz Fabiana Carla e hoje está super arrependida e sofrendo com uma decisão tomada no impulso após saber da atriz…..e fiquei pensando………… como está a atriz, emagreceu o que pretendia, como esta sua rotina, na época da cirurgia foi a maior badalação, mas e agora depois de um tempo será que ela repetiria o procedimento. Minha amiga diz que foi a mídia que a levou fazer a cirurgia, com tantas notícias sobre a perda de peso da Fabiana, e agora ficamos curiosas em saber como ela está.

  • Querida Renata: sou muito mais velha que você ( tenho sesenta anos) más me sinto muito identificada con as suas experiencias de adolescente. Me sentía tão agredida pelas barbaridades que os homens adultos me diziam na rua, que até hoje cuando paso perto de un grupo de homens na rua, me contraio. Hoje estou obesa por razões muito diferentes, más cuando comecei a engordra na minha juventude acho que quería me esconder mesmo dentro de uma capa de gordura. Acompanho seu blog faz bastante tempo e acho o blog genial. Muito Obrigada

  • Michele.

    Isso aconteceu comigo! Levei alguns anos para perceber a razão de ter engordado tanto. Justo eu que sempre fui muito magra. Engordei após os 32 anos, depois de ter sofrido assédio no local de trabalho. Foi um processo inconsciente e no qual ainda estou trabalhando. Agradeço pelo texto.

  • regina bernardo

    olá.
    Bom saber que não estou sozinha.
    HOJE eu já me aceito.
    Mas engordei para me auto-sabotar, por ter sofrido ABUSO SEXUAL, por parte de um parente, quando virei mocinha. Foi simplesmente horrivel. Tive de me esconder através da agressividade, da grosseria, do excesso de peso, para poder ser uma pessoa levada a sério, e não APENAS UM PEDAÇO DE CARNE.
    Há um ano, faço análise e consigo conviver melhor com meu peso elevado, 90kg em 1,65 de altura. Estou trabalhando nisso, faço atividade fisica, saio, tenho amigos, passeio etc.
    Agradeço pelo texto.

  • erika

    Parabéns até chorei com a sua matéria. Vivi exatamente a mesma situação e ainda vivo. Sempre fui odiada na escola por ser muito bonita. As meninas não queriam andar comigo por me chamarem de metida, falavam que só porque eu era bonita tinha o rei na barriga. Elas viviam inventando boatos de que eu tinha ficado com um ou outro menino. Os meninos, que acreditavam nos boatos, só se aproximavam para ver se eu era fácil mesmo. Quando viam que eu era só uma adolescente tímida se afastavam. Cheguei a mudar de escola duas vezes, mas logo o mesmo acontecia. Ficou pior no colegial onde fizeram uma votação para escolher a menina mais bonita da escola e eu ganhei. Chorava o tempo todo e ainda tinha que ouvir que eu estava fazendo graça, que não tinha motivos para chorar, que era frescura. Eu não tinha uma amigo, não saia com ninguém porque considerava a minha beleza um fardo. Aos 20 anos, quando entrei na faculdade ainda era uma pessoa tímida, sem amigos, que passava as noites e fins de semana na casa dos avós porque não tinha nem um amigo por perto. Aos 24 anos (detalhe ainda virgem) comecei a engordar e por incrivel que pareça aos 25 conheci meu marido. Passei de 65 para 145 quilos em cinco anos. Hoje tenho amigos, saio, converso porque as pessoas me veem de forma diferente e eu me vejo de forma diferente. Sei que estou muuuito acima do peso e preciso lidar com meus traumas mas vez por outra quando ainda alguém me fala que sou bonita me sinto mal. Sei que me sabotei mas não aguentava mais tana pressão e tanta solidão. Comecei a fazer analise e quando conseguir superar quero achar um meio termo. Não quero e nem vou voltar a ser magra mas quero poder me sentir bonita sem culpa.

  • Luísa

    Entre os meus 15 e 27, minha idade atual, eu engordei 60kg!
    Odiava ter que sair sozinha na rua e ouvir comentários dos homens, olhares que me davam nojo. Foi uma forma de me proteger. Quando tinha 14/15 tive um professor de matemática que me olhava de uma forma que me incomodava muito, não podia olhar pra ele, pra frente, pro quadro negro, nem prestar atenção nas explicações; obviamente repeti de ano e tive que mudar de escola. Fui tbm vestido roupas cada vez mais incomuns para parecer estranha e não atraente, ao mesmo tempo que pensava que se alguém gostasse de mim deveria ser por minha qualidades como pessoa. Um dia me apaixonei por um cara que tinha uma ex super gorda e de alguma maneira tbm fui engordando mais para ter uma semelhança com a ex que ele tinha gostado tanto. Hoje percebo que o fato de eu ter ficado bem mais gorda não influenciou no fato dele ter ficado comigo até hoje. Penso que seria bom eu emagrecer por o motivo básico de saúde, não me sinto mal por estar gorda; mas minha família me faz sentir mal, estão sempre cobrando, fazendo pressão. Minha irmã vai se casar daqui dois meses, como vou ser madrinha e estar no altar ela quer muito que eu emagreça uns 20 kg para o casamento para ela não passar vergonha.

  • Ana Raquel Silva Barbosa

    Me revolta ver pessoas passando perna a outras. É incrivel como há tanta maldade no mundo. As pessoas para se valorizarem têm que rebaixar os outros. Eu também era muito ingénua quando era nova. Não que eu fosse bonita ou por aí além mas tinha um corpo bonito. E nem sabia que tinha. Sô com o passar dos anos quando o perdi é que tive noção. Meus primos estavam sempre me rebaixando e meus colegas também. Criticavam constantemente meu corpo. Agora sei o porquê. Minha mãe nunca se preocupou muito comigo. Lembro que tive acne quando era mais nova e minha mae nunca me comprava cremes para o acne passar. Tipo ia ao medico ele me receitava um produto e quando acabava minha mae comprava o creme um mes depois, nao sei o porque que ela fazia isso, e o acne voltava. O mesmo com as estrias. Tive na adolescencia e pedia varias vezes para ela me comprar mas ela nao comprava. Logo estou cheia de estrias e dinheiro nao era impedimento. O mesmo com as roupas. Creio que ela projectou o facto de ter ficado sem seu corpo na gravidez em mim como uma forma de se vingar. Me sabotando e rebaixando.