27 de outubro de 2015 20:11

Por Renata Poskus Vaz

Não me lembro exatamente do meu primeiro assédio. Foram tantos e tantos e tantos desde a mais tenra idade, que se tornaram um incomodo presente, rotineiro e detestável em minha vida. Eles surgiam como pequenos elogios, que foram evoluindo para cantadas e ameaças mais grotescas.

Elogio ou assédio?

Na infância, quando algum homem passava por mim e me assediava, eu respondia à minha maneira infantil: fazendo uma bela careta para ele. Bem ou mal, funcionava. Baixavam a cabeça e iam embora. Talvez restasse um pouco de orgulho naqueles caras e eles percebessem que estavam assediando uma criança e que aquilo era errado.

Em alguns desses assédios, minha mãe e minha avó me observavam à distância. Era repreendida pelas duas. Segundo elas, era feio fazer caretas e eu deveria agradecer os elogios.

Isso me lembrou de quando eu era ainda menor, devia ter uns 6 anos. Enquanto minha mãe usava um telefone público, eu olhava as mercadorias de um camelô. Ele, então, perguntou se eu sabia que eu era linda. Respondi que sim. Então, ele falou de forma ríspida que eu era convencida. Minha mãe, que observava, disse que eu deveria agradecer o elogio e nunca dizer que sei que sou linda. Ou seja, além de ser condicionada a receber elogios baratos de estranhos, eu também tinha que aprender a ser falsa modesta.

Acontece que aceitar esses elogios de estranhos me incomodava. Até porque os olhos daqueles caras diziam muito mais do que um simples: você é linda! Era amedrontador. Não me parecia um elogio, mas um constrangimento, uma ameaça. Eu nunca sabia se pararia só no elogio ou se eu corria algum risco. Afinal, cresci ouvindo historias de estupros nos bairros em que morei e eles quase sempre começavam com papo furado ou elogios de estranhos para garotas como eu.

Dando piti para sobreviver

Aos 12 anos, eu já tinha quase a altura que tenho hoje. Tinha seios, quadril largo, mas ainda assim era uma menina. Tinha cara e jeito de menina. Mas foi nessa época que os elogios passaram a ser seguidos de grunhidos, gemidos, suspiros, ofensas e assédios pesados. Embora tivesse sido doutrinada a aceitar tudo quieta, meu espírito sempre foi inquieto e rebelde. Eu não aceitava. Gritava, xingava. E xingava bem alto, para que todos percebessem e o assediador não tivesse chance de retaliar.

Chego até a imaginar que engordar foi uma forma de tentar diminuir esse assédio, uma forma de autossabotagem. Escrevi um texto sobre isso aqui no Blog Mulherão, quem quiser reler, é só clicar aqui.

O pinto de fora e a surra dada pelo meu pai

Certa vez, fui telefonar para amigos (quando só rico tinha telefone em casa) na frente de uma padaria, há algumas quadras de casa. Eu tinha uns 13 anos. Demorei, minha mãe foi me procurar. Enquanto subíamos a rua de casa, um homem me chamou: psiu, psiu, loirinha! Quando olhei para o outro lado da rua, ele estava com o pênis para fora. Eu nunca tinha visto um pinto ao vivo. Fiquei chocada. Não podíamos correr, porque minha mãe estava mancando, com dores na coluna. Andamos lentamente e ele nos seguiu até em casa. Minha mãe me colocou para dentro de casa e ficou escondida no quintal com um facão enorme.

Logo após, meu pai chegou. Minha mãe explicou o que aconteceu e meu pai pediu para o cara aguardar que ele iria chamar a policia. Óbvio que o cara não ia esperar, deu uma cotovelada no meu pai… Pronto, só vi meu pai surrando o cara, que desceu apanhando a ladeira de casa.

Foi uma lição para eu aprender a não ficar quieta. Ao nos intimidarmos, mostramos medo e insegurança e isso alimenta o agressor. Se eu tivesse gritado, com certeza alguém da padaria ou nossos vizinhos ouviriam e nos socorreriam. Se meu pai não tivesse chegado naquele momento, o que seria de nós?

Posso não ser um bom exemplo

Outra situação parecida aconteceu comigo já adulta, quando era perseguida por um estranho na rua, que jogava o carro pra cima de mim e minhas amigas. Enquanto elas fugiam, eu o enfrentei e com a ajuda do meu irmão o seguimos e conseguimos chamar a polícia que o perseguiu.

O cara tomou um esculhambo fenomenal do delegado que disse com todas as letras: se o pai dela ou irmão te espancarem, será legitima defesa. Lacrou, delegado! ♥ Mas, agora, cá entre nós, é triste saber que nem sempre meu pai ou irmão estarão por perto.

Eu sempre vou brigar, lutar, xingar e nunca ceder. Posso não ser um bom exemplo, posso um dia morrer agindo assim, mas como sobreviveria se fosse um dia estuprada?

Não encosta em mim!

Nunca um homem se aproximou de mim na rua porque eu simplesmente atravessava para o outro lado e se ele viesse para o mesmo lado que eu, eu gritava e o xingava.  Dava cotoveladas em qualquer homem que ousasse chegar perto de mim no transporte público. Na dúvida eu batia. Na dúvida ofendia. Tarado e bandido tem medo de louca. Acho que fui uma privilegiada neste sentido e fico triste em saber que amigas já foram abusadas fisicamente, além de psicologicamente.

E assim que ajo até hoje. Dando piti para sobreviver. ♥

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Muitas mulheres na última semana estão relatando em suas redes sociais assédios sofridos na infância, seguidas das hashtags #meuprimeiroassedio e #primeiroassedio. Tudo isso após uma garotinha de 12 anos, participante do Master Chef Junior exibido pela Band, ter sido ofendida, assediada e ameaçada por pedófilos que, infelizmente, acham normal tratar uma criança como uma mercadoria barata, sem sentimentos, para sua satisfação sexual.  Não podemos nunca achar esse tipo de assédio normal.