4 de fevereiro de 2016 21:23

modelo plus size de lingerie

Ashley Graham

Por Renata Poskus Vaz

Trabalhos há anos no meio da moda plus size. Sou editora do Blog Mulherão, consultora de moda, produzo books para minhas leitoras e para modelos plus size, organizo o Fashion Weekend Plus Size, mas foram pouquíssimas vezes que abordei alguma gordinha na rua, para dizer o quanto ela é bonita e que talvez devesse pensar em seguir a carreira como modelo.

Eu poderia sair por aí distribuindo cartões, imagina quantos books eu não venderia? Mas algo sempre me impede, posso listar inúmeros motivos:

  • As pessoas andam muito arredias – ninguém mais fala com ninguém na rua. Sempre estamos com pressa, com os olhos e dedinhos no watsapp, sem saco para falar com ninguém, muito menos com estranhos, na vida real. Como também sou tolerância zero, prefiro evitar puxar assunto com gente que não se mostra aberta a isso.
  • Mulheres não sabem ouvir elogios de outras mulheres – ao longo da história fomos tão acostumadas a duelar entre nós, que não sabemos receber elogios de outras mulheres. Quando uma mulher recebe elogio de outra na rua, logo pensa: “ela deve estar me zuando”, “ela é falsa”, ou “ela é sapatão e está me passando uma cantada na cara dura”. Tipo, eu até poderia ser sapatão e uma caça-talentos plus size, do mesmo jeito. kkk
  • As mulheres se ofendem quando são chamadas de plus size- quando começo a explicar o que é moda plus size, e percebem que também se refere a moda para gordas, muitas mulheres ficam ofendidas. Uma vez, por exemplo, perguntei a uma garçonete, em um evento de moda, se ela já havia pensado em ser modelo plus size. E ela me respondeu que quando era gorda e usava manequim 46, que queria sim, mas que agora que usava 42, não pensava. Detalhe: ela era maior que eu, devia usar um manequim 48, mas mentia descaradamente para si mesma e para mim, que sei quantos centímetros tem um quadril só de bater o olho. Pra que discutir se aquela ilusão do corpo magro a fazia feliz? Virei as costas e fui embora.
  • Tenho preguiça de conquistar a confiança alheia – acho que me esforcei por tantos anos para provar que sou uma profissional séria, competente e confiável, que prefiro, hoje, ficar nesta posição passiva, esperando que gordinhas cheguem até mim após pesquisarem sobre o mercado na internet, Ou, no máximo as abordando em eventos dos quais participo e em que muitos já me conhecem. Não preciso passar meu pedigree, o diálogo é mais rápido e há identificação imediata.

Aí, hoje, eu estava no mercado e vi um mulherão lindo, que devia usar um manequim 48. Eu não parava de olhar para ela… E eu estava lá de chinelo havaianas, cabelo sujo, cara de doida, comprando coisas essenciais para a vida, como coca-cola e chandelle, e fiquei em dúvida se a abordaria ou não. Liguei meu CSI e, de longe, prestei atenção à conversa que ela estava tendo ao telefone. Acho que falava com o marido ou namorado. Estava feliz, bem-resolvida e decidi abordá-la. Ela ficou feliz e honrada quando eu disse que ela tinha perfil para ser modelo plus size. E eu fiquei feliz com a felicidade dela.

Ufa, viu? Pra que tanto drama, né?

Percebi, que mesmo quando se fala de negócios no segmento plus size, sempre rola um sentimento de injeções de autoestima e empoderamento. Eu queria ver sorrisos como aquele mais vezes. Claro que não posso sair por aí convidando qualquer mulher para ser modelo plus size pois nem todas teriam oportunidades. Mas gostaria que, um dia, eu tivesse coragem de elogiá-las. Toda mulher tem ser charme. Imagina a gente por aí, na rua, no ônibus, no mercado, falando para outras mulheres que elas são lindas? Que são especiais? Coisa de louco né? Tem as que vão me chamar de tarada, outras que vão me mandar à merda, mas quantas não se empoderariam? Quantas não gostariam de saber como são observadas por outra mulher?

Enquanto esse dia não chega, aguardo a gordinha do mercado me procurar certa de que a ajudarei a ser uma grande modelo. ♥