11 de maio de 2016 02:06

Por Renata Poskus Vaz

No último Dia das Mães, entre figuras de coraçõezinhos e mensagens de carinho circulando pela internet, vi surgir uma guerra entre mães de seres humanos dizendo que não existe essa história de mãe de cachorro. “O que existe é dona de cachorro e não mãe de cachorro”, disse uma internauta.

Já muitas outras mulheres que se intitulam mães de cachorro defendem que seus amores por seus animais pode ser igual ou até maior o amor de outras mulheres por seus filhos, deixando putas da vida  muito nervosas as mães de humanos.

Minha primeira indagação foi: que mundo é esse em que mulheres tentam desqualificar outras mulheres por conta da forma como decidem predestinar seu amor? Se elas querem amar e chamar de filho o cachorro, o periquito, um abacateiro, o filho adotivo ou biológico, isso é uma questão individual. 

A equação da maternidade está no amor, não somente nas obrigações. O que vi na internet não era um discussão sobre quem ama mais ou menos, mas sobre quem tem mais obrigações. Veja bem, não digo responsabilidade, pois esta é uma faculdade daqueles que levam a sério suas obrigações e essas podem variar.

Gente vive mais (se o andar da carruagem fluir naturalmente). Gente demora mais para aprender sozinho a comer, andar, falar. Demora 2 anos para aprender a fazer cocô no penico. Depois, você passa mais uns 6, 7 anos limpando a bunda dele. Você, mãe de gente, tem que ensinar tudo isso a ele e mais um milhão de coisas sobre a vida.

Filho de mãe de bicho aprende a usar o jornalzinho em 3 meses. Aprende a comer sozinho rapidinho, embora eternamente ela tenha que abastecer sua tigelinha. Exige um passeio matinal, outro noturno. Cafuné sempre. E não, não adianta ensiná-lo que fogo queima, que pular de grandes alturas pode lesionar suas patinhas ou que ele não pode chegar perto da janela. Ele nunca vai aprender!

Mães de gente perdem oportunidade de emprego porque tem bebês em casa. Mães de gente perdem pontos no Tinder quando tem filhos em casa. Isso não acontece com uma mãe de bicho. Na internet uma menina disse: “Quando é que você deixou de comer para alimentar seu bicho?”e mais “você não pode deixar um pote de ração e um de água para seu filho enquanto vai para a balada”. 

Mas o que ela não sabe é que mãe de bicho de verdade, que enxerga o seu animal não como uma propriedade, mas como um ser vivo, não deixa o seu filho sozinho em casa. Mãe de bicho leva seu filho para hotelzinho quando tem grana e quando não tem simplesmente não sai de casa. Mãe de bicho deixa sim de comer para alimentar o filho. Veja moradoras de rua como exemplo, descuidadas com a própria aparência, desamparadas, mas fortes o bastante para manter seus filhos bichos felizes e saudáveis.

Algumas mães de gente são questionadas de forma inconveniente, a todo momento, sobre o pai dos seus filhos: “Ele não tem pai?”, “Você é mãe solteira, coitada?”. Mãe de bicho é ridicularizada e rebaixada por outras mulheres por tratar seu animal como um filho: “Ela pensa que pode ser mãe de bicho, isso não é maternidade!”.

A mãe de bicho tem sempre a certeza que seu filho a amará incondicionalmente. Tem 90% de chance de acertar o temperamento de seu filho se ela se basear pelas raças e pedigrees (ou falta dele). Tem mãe de gente que escolhe o sexo do bebê no laboratório de fertilização.

Mãe de gente, por melhor que tenha sido como mãe, por mais que tenha se esforçado e sacrificado por esse filho, jamais terá a certeza que seu filho terá uma boa índole. Ela só pode dar o seu melhor e torcer para ele crescer um ser humano de bem.

Mãe de bicho não tem a mesa quantidade de obrigações de mães de gente, fato. Ainda assim são mães.

Eu, Renata, tentei engravidar por 4 anos sem sucesso. Fui chamada de “seca”, de “desserviço para a sociedade”, ouvi da boca de algumas mães de gente que “Deus só abençoa com a maternidade gente de bem”. Eu, Renata, sou a mãe do Francisco, aquele que já é adolescente, mas que não fica mais de 4 horas sozinho em casa. Francisco me trouxe de volta a felicidade. Eu morreria por ele. Se isso não é amor, o que é então?

Amar o meu filho Francisco, não desmerece o apreço que tenho por mães de gente, suas vivências e suas histórias. Parabéns, por serem essas mães maravilhosas! Eu as invejo. Um dia (espero que demore!) terei que enterrar meu filho, se Deus quiser vocês não passarão por isso. Eu nunca escutarei do meu filho que ele me ama, embora veja isso em seus olhos todos os dias.