11 de maio de 2017 13:41

Meu filho,

Eu me lembro do quanto desejei tê-lo em meus braços. Fazia listas e mais listas com dezenas de nomes, tentando escolher aquele com que um dia lhe batizaria. Imaginava seu rostinho e suas mãos pequeninas. Imaginava a textura da sua delicada pele. Acredita que eu conseguia sentir o seu cheirinho? Era tão doce, meu filho! Foi praticamente uma vida inteira desejando-o e quatro longos e torturantes anos de tentativas desejando senti-lo, finalmente, dentro de mim.

Sentia-me vazia, com uma parte que jamais se completava. Faltava você, meu filho. E a cada tentativa frustrada eu me sentia mais vazia, incompleta e menos mulher. Olhava para aquele que um dia seria seu pai e, com um silêncio quase que desesperador, por meio de lágrimas, pedia socorro. Eu me culpava por não sermos uma família. Eu me culpava por não trazê-lo à vida.

Um dia meu relacionamento acabou. Após algum tempo em depressão profunda, desnorteada, sem expectativas decidi dar uma chance à minha vida. Voltei a enxergar cor e esperança. Voltei a ver graça em pequenas coisas, poesia em tudo, até mesmo na recém-solteirice. Pude pela primeira vez em muitos anos estar sozinha, me enxergar de fora, como um ser único e completo.

Pude perceber que eu jamais amei passionalmente aquele que poderia ser o seu pai. O meu companheiro de anos foi um parceiro, um amigo, alguém que amei fraternalmente, mas de longe o homem da minha vida. Estava claro para todos que eu não o admirava, que não sentia orgulho do homem que ele era. Eu queria com um filho diminuir nossas distâncias, suprir o amor que de fato não sentíamos um pelo outro.

Após o término desta relação, descobri que eu não tinha nenhum problema para conceber você, meu filho. Fiz todos os exames, eu estava clinicamente perfeita para recebe-lo em meu ventre. Será, então, que aquele parceiro que, por machismo, não desejava fazer exames, era o responsável por nossa infertilidade? Tantos anos me sentindo culpada… Porque homens nunca são os inférteis? Porque a responsabilidade pela gravidez recaí sempre e unicamente sobre as mulheres?

Naquela altura, já não me importava mais, meu filho. Ao me sentir feliz, equilibrada, completa, percebi que você já vivia em mim. Não de forma física, mas me guiando para amparar pessoas, proteger e guiar a minha família, encorajar amigos… Não é isso o que uma mãe faz, transformar vidas?

O sonho de concebê-lo adormeceu. Via que mulheres desejam filhos para se sentirem completas. Mas eu já me sentia completa. E não é injusto conceber um ser, já responsabilizando-o em suprir o seu vazio existencial?

Mulheres tem filhos para cuidarem delas quando envelhecerem. Porém, quantos jovens de fato se preocupam com seus pais na velhice? E não é egoísta demais conceber um cuidador, alguém que terá a obrigação de lhe amparar na velhice, muitas vezes desistindo de seus sonhos e planos para isso? Mulheres tem filhos para não se sentirem sozinhas. Mas quem tem amor próprio jamais se sentirá sozinha, pois sempre será a sua maior companhia. Mulheres tem filhos para conhecer o verdadeiro amor. Mas amor verdadeiro não é aquele que sentimos apenas pelos que tem nosso DNA. É fácil amar quem sai da gente, quem tem as feições parecidas com a nossa, não é? Quero ver amar o diferente, aquele que não saiu de seu ventre e não se parece com você.

Hoje, meu filho, sinto que se finalmente o tivesse em meus braços, seria unicamente por egoísmo meu. Aprendi, com a dor em não te ter, o que é de fato o amor. E assim sigo, sem você e por você. A cada mãe que tocar com meu trabalho ou o filho de alguém que eu indiretamente ajudar, estarei cumprindo o meu papel de crescer e me multiplicar. Eu cresci. Por você.