5 de setembro de 2017 01:44

No sábado, foi ao ar no programa COMO SERÁ?, da Rede Globo, o meu depoimento gravado para a Malhação, alguns meses atrás, contando sobre a minha vida, minha carreira e minha superação. Revi o vídeo. Em um trecho dele, ao contar que criei o Fashion Weekend Plus Size, ouço risos da platéia e prontamente respondo: “tá rindo do quê? tô rica!”.

Os risos vieram de um dos diretores da Globo. Sei que respondi à altura, com irreverência, todos me aplaudiram, talvez eu tenha enterrado minhas chances de um dia ser uma Global…hahaha… Mas é algo que não passou, ficou engasgado na minha garganta. O diretor riu porque pra quem é magro parece piada de mal gosto um desfile só com gordas. Mas essa piada, o tal do evento engraçadinho com gordinhas que todos acham bonitinhas, fofinhas, quase que infantis, nào é nada disso. É um evento sério, é minha vida, é meu trabalho, movimenta um setor em pleno crescimento, aquece a economia, gera negócios, custa milhares de reais e definitivamente não é uma brincadeira.

Trabalho tanto quanto qualquer magro. Mas sou subestimada todos os dias por quem não é do nosso meio plus size de uma forma que beira ao desrespeito.

No campo amoroso não é diferente. Estou solteira e quando conheço um homem em um aplicativo desses de paquera, ao dizer o que faço, logo escuto um: ah, tá, mas qual é o seu trabalho? Ou seja, encaram o que faço como um hobby, um passatempo. Mas a verdade nua e crua é que sou dona e/ou sócia de 5 negócios. São 5 empresas que geram empregos diretos e indiretos. Mesmo assim, tudo parece uma brincadeira. Só uma brincadeira.

Vejo outros profissionais do nosso setor passando pelo mesmo problema. Quando uma grife plus size cresce e pode realizar uma bela de uma produção fotográfica, com verba descente para uma mega produção, não quer contratar os fotógrafos, produtores e maquiadores especializados em plus size. Nos enxergam como um subnível da moda. Quando estão na merda, contratam os especializados em plus size, que sabem tirar leite de pedra, fazer uma produção bombástica com pouca grana. Quando têm verba, contratam profissionais badalados do mercado magro. Uma besteira, um desrespeito, quando deveria ser justamente o contrário. Nos enxergam como amadores, indignos e não como profissionais.

Apresentei 2 anos um quadro de moda na TV. Eu era consultora de moda plus size do programa. Além de mim havia outra consultora de moda, para as magrinhas. Aí me pergunto o porquê de uma consultora de moda magra poder falar para as gordas, mas nunca confiarem em uma consultora gorda para falar de moda para magras?

Quando cobro pelo meu trabalho vejo pura indignação. Como assim essa gordinha quer que eu pague para ela me divulgar? É como se eu, por ser gorda, devesse erguer as mãos para o céu e agradecer todas as inutilidades que querem me dar em troca do meu trabalho.

Fico um pouco triste. Às vezes desestimulada. Mas vou levando. O importante é aprender a dizer não e saber me valorizar e não me calar.

Recentemente comecei a colaborar com o Portal da Playboy, como colunista de sexo, e isso me deu um ânimo. Estou lá, falando de sexo, ensinando um monte de marmanjo a fazer o vuco-vuco do jeito que a gente gosta. Mas lá meu peso pouco importa. Indaguei à editora se eu deveria escrever na minha apresentação que sou gorda e ela disse que achava dispensável: “não peço para as magras dizerem que são magras, acho desnecessário você falar que é gorda”. Achei o máximo. Foi como um sopro de felicidade, meu peso pouco importava. E não importa mesmo. Nunca um leitor veio me ofender ou fazer qualquer menção ao meu peso. Uma esperança.