12 de novembro de 2010 09:06

Por Eduardo Soares

O repertório de submissão com doses de constrangimento era tão absurdo que as cenas beiravam o cômico. Zulmira era mandona e Sérgio fazia o tipo sujeito capacho. Poucos foram aqueles que tiveram a oportunidade de ver (ou melhor, ouvir) o cara abrir a boca para falar algo que não fosse “tá bom!,Sim, bem”.

– Sérgio, bateu vontade de comer algo. Vá comprar caviar búlgaro e vinho grego! Agora!

– Amor, são duas da manhã! A essa hora não tem nad…

– SÉRGIOOOO! VOU TER QUE FALAR DUAS VEZES???

– Tá bom! Sim, bem…

Outra situação:

– Querido, nosso cachorro rasgou a roupinha dele. Toma o dinheiro e compre outra idêntica.

– Amor, a roupa foi comprada numa pet shop lá em Miami! Agora não tem como…

– SÉRGIOOOO! VOCÊ QUER QUE O BICHO PEGUE RESFRIADO, SEU DESALMADO??

– Tá bom! Sim, bem…

E foi nesse cenário de puro romance que Zulmira decidiu ter uma filha. Uma só, para ser tão paparicada como ela fora na infância. Alguns empregados maliciosos da casa diziam que neste período era comum ouvir berreiros nas madrugadas. Mais ou menos nessa linha: SÉRGIOOOO, MENINA!! QUERO MENINA!! SE CONCENTRA!! CAPRICHA!! FOCO!! MANTENHA O FOCOOO!!

Dou um doce para quem adivinhar qual foi a resposta…

Ou o pedido foi incisivo ou a sorte teve pena do Sérgio pois o casal foi presenteado com uma linda menina: Valkíria. Com K mesmo que era, de acordo com a cabeça da mãe, para o nome soar de forma pomposa. Como se tivesse diferença sonora entre o K e QU. Bom, posso dizer “kero keijo” e qualquer zumbi dominante do idioma português vai entender o recado.

Valkíria cresceu num ambiente super protetor. Parecia habitar dentro daquelas enormes bolhas plásticas. Mesmo com toda mania de riqueza da sua mãe, ironicamente sua única amiguinha de todos os dias era a filha da cozinheira. Curioso, enquanto a menina humilde ficava deslumbrada com aquele mundo glamoroso, Valkíria nutria carinho pelos brinquedos improvisados da amiga pobre.

Desde cedo,era nítido o desconforto de Valkíria com a superficialidade das coleguinhas ricas da escola. Era tudo muito blasé, na hora do intervalo ninguém podia correr muito para evitar chegar suado em casa. As meninas colecionavam vários tipos de Barbies, cada uma mais linda (e cara) do que a outra. Esse jeito humanitário foi herança justamente do pai (aquele sujeito quase dissilábico). Da mãe ela herdou o prazer das viagens, embora não tivesse obsessão de conhecer lugares refinados, como era o caso de Zulmira. Em tempo: nessa altura, a já formada Valkíria trabalhava como correspondente no Brasil de dois renomados jornais estrangeiros. Recentemente ela quis fazer uma viagem de qualquer jeito. Animada, a mãe incentivou a filha. Pedidos descompromissados (de lembrancinhas da Europa) aconteciam quase todos os dias que antecederam o passeio.  E lá foi ela curtir um mês de descanso, justamente no período de férias de ambos os trabalhos.  De volta para casa, Valkíria trouxe inúmeros presentes…de países africanos. Zulmira quase infartou. Ao desembrulhar uma preciosidade, ela chegou a perguntar se não seria bom deixar o presente de quarentena para evitar o contágio com doenças típicas do continente africano.

Como foi dito no começo do texto, Zulmira queria que sua filha fosse sua cópia, incluindo aí todas suas qualidades e a penca de defeitos. Vale a pena ressaltar que era notório a ausência de amor entre ela e Sérgio. Nunca houve tal sentimento entre os dois. E talvez por isso Zulmira impôs a filha que ela tivesse um homem rico. Vários filhos de casais bem sucedidos foram apresentados a Valkíria, que sempre via em cada um dos pretendentes riqueza e ao mesmo tempo vazio.

De tanto insistir, Zulmira acabou conseguindo o que tanto queria. Contra a vontade (queria provar que a mãe nutria conceitos ultrapassados) Valkíria casou-se com o filho de um desembargador. Desde então, Zulmira faz da filha sua copia perfeita, isto é, era uma pessoa que vivia apenas de aparências e assim dava seqüência a sua trajetória de infelicidade (ou inexistência) no amor.

Valkíria tinha tudo. Veio de berço de ouro, estudou nas melhores escolas da cidade, nunca passou por dificuldades, viajava para onde e quando quisesse, freqüentava a alta sociedade desde cedo. Escolhera um casamento fadado ao fracasso com o intuito de provar a mãe que felicidade não possui conta bancária nas Ilhas Cayman. Sua amiguinha de infância (a filha da cozinheira) prosperou na vida e transformou-se numa professora exemplar. Casou, construiu uma família e vivia de forma simples, mas tinha toda felicidade do mundo dentro da casa.

Valkíria tinha tudo mas continuava dentro da bolha de plástico e assim ficava impedida de viver como qualquer um de nós. Seu querer, apesar de parecer estranho, era simples. Ela queria respirar, soltar as amarras, desbravar horizontes apenas conhecidos através de sonhos.

Outro dia ouvi dizer que rico é carente. Acho que essa definição cai como uma luva nessa historia de quem tem tudo e ao mesmo tempo não possui nada.

Ela não pedia muito. Queria apenas sair da bolha.

Mesmo com vários carimbos nos passaportes, Valkíria queria conhecer o mundo.

  • Finalmente descobri quem é Valkíria….
    É aquela que mora dentro de cada um e que muitas vezes não consegue sair, presa a um estereótipo e “hábito” de ver alguém vivendo a vida somente de uma maneira…não se permitindo conhecer as coisas das maneiras mais simples…
    E a Valkíria do texto, terá um final feliz? Um terceiro capítulo?
    Beijos Edu…parabéns por mais esse!!

  • Larissa

    Olá pessoal, tudo bom? Adoro o blog, sempre visito!
    Gostaria de sugerir um post!
    Estou grávida de 9 meses completos, meu bebêzinho nasce semana que vem! Durante minha gestação usei e abusei de batas, vestidos, e roupas lindas! Modéstia parte, fui (ainda estou) uma barriguda chique!
    Mas, agora o q. me preocupa é o depois! Roupas bonitas e elegantes, que disfarcem a barriguinha pós parto e ainda sejam práticas para amamentação!
    Vcs teriam alguma dica? Eu ia agradecer muitoooo!
    Bom fim de semana!
    Beijocas!

  • joselaine

    ACHEI LINDO!!! ESTOU COM ALGUNS QUILOS A MAIS, MAS SINCERAMENTE NÃO GOSTARIA DE PERDER TANTO PESO A PONTO DE PARECER UMA TÁBUA DE PASSAR ROUPA. O QUE ACHO BONITO NAS MULHERES; SÃO AS CURVAS ESTÃO AÍ MUITAS MODELOS E ÍCONES DE BELEZA E SUCESSO QUE NÃO ME DEIXAM MENTIR. AS MULHERES BRASILEIRAS SÃO AS MAIS BONITAS DO MUNDO!