22 de novembro de 2011 08:18

Por Eduardo Soares

1992. O diálogo abaixo aconteceu na quadra de uma escola pública suburbana, durante o intervalo matinal.

– O que você vai ser quando acabar o segundo grau?

– Humm..não sei. Ainda estamos na oitava série! Mas, acho que serei médica. E você?

– Ih, que bobeira! Com esse negócio da Eco 92 (*), certamente vou ser empresário do meio ambiente! Tu vai rir quando me ver na TV, durante o jornal das oito!

Durante todo o segundo grau, ambos sempre foram os nerds da sala, apostas certas dos professores de que seriam grandes profissionais em qualquer área que escolhessem entrar. De fato, Cristina tinha enorme facilidade em aprender o funcionamento das moléculas, membrana, citoplasma, núcleo, glóbulos, estrutura do DNA, enfim, toda engenharia do corpo humano. Por outro lado, César lidava com números de maneira assustadora. Sua nota mais baixa foi um 7,5 durante todo segundo grau. Nas demais matérias, os dois também tinham desempenhos acima da media porém ela nas ciências e ele na matemática eram praticamente imbatíveis.

Como acontece com todos nós, o tempo passou rápido e sem perceber em 1997 a dupla prodígio estava na faculdade.

– Cinco anos atrás estávamos aqui na quadra brincando sobre futuro, lembra? Eu achava que seria medica! Ainda achava! Nunca me vi fazendo outra coisa! Mas, sei lá, agora que estamos entrando na faculdade fico nervosa…é um novo passo, o mais importante que vai construir nossa carreira!

– Relaxa, Cris! Cara, sempre fomos os melhores da turma! Você acha que agora iremos desaprender só por causa de nervosismo? Sem medo! Somos bons! Vamos “bebemorar”, minha linda!

Ambos estavam no calor hormonal dos 18 anos. Sem admitir, Cristina começou a sentir uma atração um tanto infanto-juvenil por César. Este por sua vez sentiu que ela tinha uma queda e resolveu curtir a situação. De vez em quando ficavam às escondidas nos intervalos da universidade. Ele, aproveitava despropositadamente os encontros enquanto ela alimentava um sentimento não declarado de carinho cada vez maior pelo “namorado/amigo”. Passou o tempo e Cristina, sempre dedicada, conseguiu realizar seu grande sonho de ser médica. Mas aquele momento era um misto de alegria e tristeza pois, enquanto ela impunha o diploma nas mãos, Cézar se perdeu no meio do caminho. De aposta certa ele transformou-se em triste promessa desperdiçada. Sua presença na faculdade era cada vez rara ao passo que a curtição tomava conta da sua vida. Por sorte, passou entre os dez melhores do pais no único concurso que prestou e com isso seu salário custeava a vida inconsequente que levava.

Com 25 anos de idade cada um, os amigos estavam com as vidas relativamente bem encaminhadas. Certa vez, ambos se esbarraram numa festa da alta sociedade. O encontro aconteceu anos depois de uma ausência “social” inexplicável da parte dele. Cristina continuava sonhando com aquele menino/adolescente alegre, inteligente e dedicado. Vê-lo anos depois, fez brotar naquele coração doce uma mistura de alegria e preocupação.

– Cézar! Não acredito!! Por onde tem andado? O que tem feito da vida, seu maluco? Me dá um abraço!

– Cris! Minha linda!! Como vai você, doutora??

O reencontro foi caloroso. Em certo momento ambos pareciam estar 12 anos atrás, na mesma escola, com a mesma vida humilde e o mesmo carinho juvenil. Depois de algum tempo de prosa, um beijo aconteceu. Ali, Cristina se entregou de corpo e alma enquanto Cézar não parecia estar muito animado. Perguntado sobre o motivo do visível desconforto, ele foi taxativo:

– Ehhh….Cris…quantos anos sem te ver, né? Então, por isso mesmo…você estava uma gata na época da faculdade! Eu sentia o maior tesão, papo sério! Mas, pô…agora tu deu uma engordada! Sei lá, ficou desleixada! Numa boa, tu deu uma queda considerável! Acho que a medicina deu um estrago no teu corpo! Bem, tu sabe…a festa é fina! Fica longe de mim, não vou precisar de você, me faz esse favor! Não queime meu filme! Foi mal, não quero passar vergonha com você do meu lado…se cuida, valeu?

Ao sair, ele entregou um cartão a ela onde dizia: CÉZAR MACHADO. PROMOTER. BOATE BELIZE.

Naquele instante ela associou as informações e lembrou que dias antes daquele encontro uma boate havia sido inaugurada. No mesmo dia, aconteceu uma briga que estampou boa parte dos jornais devido a uma pancadaria generalizada envolvendo um grupo de gordos que pretendia passar a noite naquele lugar mas que foram alvos de comentários preconceituosos com os donos do estabelecimento. Leia-se “donos do estabelecimento” por Cézar Machado e um amigo conceituado na high society carioca.

Cristina ficou petrificada por alguns minutos. Aquelas palavras entravam na sua cabeça como pedras enormes jogadas sem piedade. Dor. Raiva. O choro foi inevitável. E assim foi durante os dias seguintes, a cada lembrança latejante na sua cabeça.  O encanto de uma vida toda foi desfeito em fração de segundos sempre que a união de palavras infelizes ecoava a ponto de deixá-la com insônia:

“Eu sentia o maior tesão”

“Tu deu uma queda considerável”

“Você estava uma gata na época da faculdade”

“Não quero passar vergonha com você do meu lado”

Num salto do tempo, vamos para 2010. Cristina, então já renomada psiquiatra, chegou em casa depois de dar uma palestra sobre o novo perfil dos drogados pertencentes às classes A e B. Seu status era tamanho que o prefeito havia feito um convite para que ela ocupasse uma vaga na secretaria de saúde do Rio de Janeiro. Enquanto a proposta balançava seu coração, ela ligou a TV para relaxar um pouco. Zapeando os canais, descobriu que um playboy trintão fora assassinado devido a dívidas e seu amigo foi preso num estado deplorável. Tao deplorável que foi preciso passar um minuto para que Cristina associasse aquela imagem com a de Cézar. Na verdade ela soube que era dele devido ao nome daquele drogado, cujo corpo atlético cedera vez para um homem de 1,80 com inacreditáveis 52 quilos, dono de poucos dentes e portador de inúmeras feridas espalhadas na pele ressecada e imunda.

Cézar foi parar numa clinica de reabilitação para dependentes químicos. Naquela altura, qualquer tipo de ajuda seria bem vinda, pois sua vida acabou anos atrás e o que restara não era o suficiente para classificar aquele estado quase vegetativo como sub-humano. No primeiro dia, ele foi direcionado para a ala de apoio psiquiátrico. Humilde, pediu licença e entrou na sala. Viu que a doutora estava em pé, de costas, fazendo algumas anotações. Cézar sentiu atração por ela, dona de um corpo que vestia G ou GG, bem diferente das meninas esquálidas que ele pegava nas noites regadas a drogas.

– Cézar Machado, sente-se por favor.

A voz não era estranha. Calado estava, calado ficou e simplesmente atendeu ao pedido da doutora. Parecia um cachorro amedrontado, faminto, trêmulo. Ela continuava de costas quando soltou os seguintes comentários:

– “Tu vai rir quando me ver na TV, durante o jornal das oito”, lembra? Não, eu não ri. “Acho que a medicina deu um estrago no teu corpo”, lembra? Hoje, vejo que você suas escolhas deram vários estragos no seu corpo.  E contrariando sua frase…

Nesse instante ela ficou de frente para Cézar, sem fitá-lo cara-a-cara, deixou um cartão na mesa (onde estava escrito DOUTORA CRISTINA MUNHOZ. PSIQUIATRA) e seguiu em direção à porta, antes de concluir a frase.

-…sim, você vai precisar de mim.

Cézar ficou petrificado por alguns minutos. Aquelas palavras entravam na sua cabeça como pedras enormes jogadas sem piedade. Merecidamente.

E você, vai continuar achando que o mundo acabou só porque (graças a Deus) ouviu um “não quero passar vergonha com você do meu lado” daquele que aparenta(va) ser a bolacha premiada do pacote de biscoitos finos?

(*) Para quem tem menos de 20 anos, a ECO 92 aconteceu no Rio de Janeiro e serviu para buscar meios de conciliar o desenvolvimento sócio-econômico com a conservação e proteção dos ecossistemas da Terra (em outras palavras, iniciou-se ali o conceito do- hoje – propagado desenvolvimento sustentável).