6 de dezembro de 2011 19:35 comportamento

Cada um no seu lugar

Por Eduardo Soares

Toda semana era a mesma ladainha. Era ele chegar em casa, dar os primeiros passos rumo ao sofá para fazer dele a melhor cama improvisada do mundo e começar a contar carneiros pulando cerca a cada inicio de sonho para ser acordado pelos berros da Marilda! Dia desses, o sujeito cismou de “bebemorar” o aumento salarial com os amigos e veio do bar completamente chapado. Na cabeça dele, ainda havia a possibilidade real da patroa recebê-lo cheia de amor pra dar. “Estou suado? Nada! Estou irresistível! Tenho cheiro de flores do campo”, dizia ele a cada cafungada nos sovacos desprovidos do tal aroma campestre. Bem, para defender nosso amigo, podemos argumentar que a cerveja (essa sim ditava o cheiro dele, misturada com o suor) vem do malte que vem do campo… Antes da sequencia só um parêntese: tem cara com mania doida de “chegar junto” da digníssima todo suado, catinguento, com perfume que nem gambá usa. Enquanto isso, ela está cheirosinha, arrumadinha, bonita, toda “se querendo” pro aspirante de Bom Ar vencido. Não tem amor que resista a essa poluição respiratória domiciliar, convenhamos.

Na semana passada não foi diferente. O sujeito chegou pra lá de Marrakesh (ou seria de Bagdá?) e foi desabando no sofá. Marilda deu tradicional berro semanal para depois concluir:

– Minha unhaaaaa! Quebrei a unhaaaa!

– Para de frescura, Marilda! Deixa seu marido fazer uma massagem, vem…

– Tá maluco? Qual foi a aula de ciências que você faltou? Desde quando massagem cura unha quebrada?

– Deixa disso…olha só, dá um sorriso! Eita, aquela plástica fez bem a você, viu? Tá com o rosto todo esticadinho, parecendo burro de charrete! Vem, tô pegando fogo hoje..

Mais dois berros eram suficientes para apagar o incêndio sexual do marido que, resignado, procurava dormir para encarar o trampo no dia seguinte. Certo dia, porém, ele chegou sóbrio em casa e encontrou a mulher fazendo as unhas. Olhou, olhou, olhou, e achou tudo aquilo uma palhaçada sem tamanho.

– Escuta, esse negocio de arrancar cutícula é lento assim mesmo? Você é muito fresca! Faça um favor: arranque as minhas! Com força! Vou mostrar o quão Maria Mole você é!

Era a deixa que Marilda queria ouvir. Com um sorriso maquiavélico no canto da boca, em silêncio ela trancou a porta, acariciou o rosto e deu um beijo lento no marido (que começou a ficar desconfiado). Cuidadosamente escolheu aquele “bifão” mais graúdo, aquele que dava para alimentar Inocêncio, o rottweiler da casa.

– Tem certeza, benhê?

– Arranca logo iss…..

Pimba! Parecia que Marilda estava arrancando a famosa espada de Excalibur da pedra, tamanha força que fez para extrair a cutícula do marido que segurou a dor em silêncio. Na verdade seu olhar esbugalhado queria transmitir uma calmaria que não pertencia aquele corpo naquele momento. Não satisfeita, Marilda foi além:

– Ah, amor! Lembrei que você me chama de fresca quando uso cera para ficar com a pele lisinha! Que tal eu depilar seu peito másculo de Tony Ramos?

– Sim – respondeu o marido. Ou melhor, a afirmação mais parecia o som de um miado pois o sujeito continuava sem ar e se segurando para não gritar de dor.

Marilda surgiu com um pote de cera que mais parecia aqueles potes de sorvetes de 2 litros, uma espátula e dois pedaços estranhos de plástico. O sorriso maquiavélico continuava e o marido sentiu que estava diante de uma tremenda roubada. Peito desnudo, a cera lambia aquela região como o fogo que varre uma floresta. Quente, quase pelando. O sujeito era a cara da concentração, dor e incômodo. Suava frio, tremia discretamente, não piscava, mantinha os punhos serrados e enchia a boca de ar para disfarçar o misto de medo e incômodo. Marilda fixava os plásticos no peito do marido de forma que todos, absolutamente todos os pêlos participavam daquela festa da tortura anunciada.

– Preparado, meu lindão?

E deu tempo de dizer “não”? Ele nem chegou a pensar nisso. Só sentiu o momento do ziiiip! Ah, o trajeto cozinha-banheiro nunca foi realizado em tão pouco tempo. Era lance para recorde mundial. A cada centésimo de segundo, uma sucessão de palavrões foram desferidos sabe-se lá pra quem. Eram tantos que foram ditos em diversos idiomas. Ao chegar no banheiro, ele foi verificar se ainda havia pele no peito, pois parecia que seu coração estava ao ar livre. O sujeito sambava no banheiro, não sabia o que fazer nem pra onde ir com tamanha dor e queimação. Era preciso apagar aquela cusparada de dragão que fazia morada fixa naquela parte do corpo. Como vocês sabem, na hora do desespero urubu se transforma em falcão e a primeira coisa que ele deduziu que poderia apagar o fogo foi jogada, ou melhor, esparramada no peito de algo desaconselhável para tal emergência. Ah…deu pena.

Creme para barbear não combina com queimação. Sem perceber o tamanho da burrada, ele praticamente jogou álcool no fogo. Vocês devem estar com a sensação da dor do sujeito, não? Multipliquem a tal sensação por dez! Não havia distinção entre aquele peito pelado e queimado com um pedaço de bisteca bem passado ou uma vasta região de tomates secos. A toalha molhada serviu para atenuar a sucessão de estragos causados pelo casal.

Horas depois, já na cama, a mulher (sacana que só) ainda queria satisfazer o desejo do marido. Sexo naquelas condições??? Só se fosse dos programas exibidos na TV pelo canal Animal Planet!

Ao acordar no dia seguinte, Marilda ainda prometeu que iria fazer “uma demorada chapinha caprichada” e em seguida uma depilação na virilha do marido. Ela nunca foi de dormir tarde, no máximo estava nocauteada antes das onze. Ironicamente, o marido chegou em casa beirando a meia-noite durante duas semanas seguidas. E o pote de cera sumiu, assim como o aparelho de chapinha.

Quem é o sexo frágil mesmo?

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