11 de janeiro de 2012 09:33 comportamento

Doce e maldito sussurro no ouvido

Por Eduardo Soares

Até quanto você pode pagar? Débito ou crédito? Vai parcelar em quantas vezes? Pagamento em dinheiro ou cartão? Quanto custa com desconto? Se eu levar duas terei brinde?

Dia desses estava almoçando num shopping quando parei para ouvir um bate papo em tom de lamento entre duas senhoras: atualmente a criança mal sai do berçário e meses depois está lanchando aqui! Agi assim e hoje minha filha mais velha repete o ato com meu neto. Esse ambiente (dizia a senhora enquanto circulava a mão fechada com o dedo indicador apontado para cima) vicia. No fundo, acho que deixei minhas duas filhas mal acostumadas desde cedo, até porque alternava passeios nos parques com as idas frequentes aos shoppings. Com o tempo, criei duas consumidoras compulsivas. 

Parei de comer para analisar o desabafo daquela senhora. No fundo, a teoria fazia sentido. Sou um exemplo dessa questão de “ficar mal acostumado desde cedo”, afinal se tenho o cinema como um dos passatempos favoritos agradeço a minha coroa que encarava horas nas filas para assistir comigo a todos os filmes dos Trapalhões na década de 80. Fora as comédias com Eddie Murphy , Bud Spencer e Terence Hill ou as películas de ação que até hoje ela curte (e eu sempre ia no embalo).

De volta ao tema, encher a barriga ou o guarda roupas. Você escolhe. Quantas vezes comemos algo sem a menor fome? Fazemos isso simplesmente porque a torta é bonita (afinal, come-se com os olhos também). Impossível resistir ao pecado da gula? E aquela calça jeans (cuja etiqueta famosa a faz custar os olhos, retina, pupila e íris da cara) “pendurada” à sua frente, entre um manequim obviamente bem vestido (com a tal calça, claro) e outro não menos “fashion” que faz sua imaginação criar cenas maravilhosas e declarações do tipo: essa calça ficaria muito bem em mim! Ainda mais naquela festa que vai rolar no fim de semana! Cinco minutos depois você sai da loja com bolsas e a consciência devidamente pesadas.

Seu celular tem oito meses de uso. Os amigos desfilam com modelos tipo androide, symbian, siberiano, ciborgue, scambaulóide da vida. Sem motivo aparente (ou justificável) você começa a enjoar da cara do aparelho (comprado no Natal passado). Ah, deixa quieto, isso é bobeira – seu pensamento prefere aparecer para mostrar que a coerência seria mais forte que a inveja. No dia seguinte ao abrir sua caixa de mensagens, surgem aqueles e-mails com promoções “irrecusáveis” de compras coletivas cujo anúncio abusa na tentação: celular que tira foto em 3D, toca música extraterrestre, filma no formato raio X, frita ovo, faz suco, sugere posição do novo kama sutra, tem GPS (e ainda faz ligações) e tecnologia 8G por apenas R$ 1.299,99 ou em 10 suaves parcelas de 145,00! Danem-se os juros, promoção assim é imperdível! Click. Confirma. E é assim com a camisa, relógio, pulseira, bermuda, vestido…chega o dia 15 e a fatura do cartão de crédito vem rasgando sua carne para depois colocar sal na ferida: 800, 900 ,1.000 reais só com peripécias não planejadas como a compra do celular faz-tudo. Se você for solteira, a facada dói menos…

Juro, nunca entendi a fixação feminina por bolsas e sapatos. Parecem objetos de veneração hipnótica, do tipo “quanto mais se compra, mais poder a mulher possui”. É como se uma nova bolsa modelasse um novo chacra, sei lá. O despertar para realidade (quando) acontece vem de forma alarmante: você se dá conta que a quantidade de bolsas entocadas no armário é tamanha que o espaço restante não cabe uma calcinha sequer. Aí vem outro momento crítico: é preciso separar as peças que serão eliminadas. Nessas horas, tem gente que chora e tudo, como se estivesse dando adeus a um parente. Quantas vezes você usou aquela linda camisa comprada no impulso? Cá pra nós, sua grife favorita oferece (além do preço salgado) produtos de qualidade ou você compra apenas por causa da aparência? Por falar nisso, lembrei daquele velho e ultrapassado slogan do refrigerante. Imagem não é nada, sede é tudo. Atualmente, para saciar sua sede de consumo, imagem é tudo.

Foi-se o tempo em que as marcas tratavam as crianças apenas como pequenos e inocentes seres amáveis. Hoje, qualquer produto destinado ao público infantil enxerga neles pequenos-grandes consumidores com potencial indócil. Para os adolescentes e adultos, os comerciais/outdoors/banners/anúncios são tentadores, audaciosos, passam a imagem (ou tentam convencer o espectador/leitor) do poder absoluto a qualquer custo: você pode comprar, você ficará na moda, você será bem visto, você será o diferencial na festa ou no trabalho, você será o centro das atenções por onde passar, você nasceu pra ser destaque, você não tem limites, você nasceu para impressionar. Numa boa, não serviria para ser vendedor. No primeiro indicio de descontrole, eu abordaria o consumidor com alguns questionamentos: o que bolso lhe permite ter? Até quando você pode pagar pelo consumo D-E-S-N-E-C-E-S-S-Á-R-I-O? Quanto vale seu impulso? Qual é o preço do seu controle? Qual é a importância da compra pra você? E quando a compra acontece em excesso, o ato mostra o que você é ou quem gostaria de ser (e não pode)?

Deve existir uma voz que ecoa na cabeça do consumidor compulsivo com várias frases de incentivo: não olhe para a carteira; gaste só um pouquinho do dinheirinho guardado na conta corrente (amanhã o pedido se repete); ignore as faturas atuais (e não quitadas); os juros são baixos; compre aquela casa maravilhosa; o carro tem três anos de uso, troque-o (vem o doce e maldito sussurro no ouvido: você vai se apertar, mas tem jeito pra tudo); compre a TV de 152 polegadas; ou aquele aparelho de som gigantesco; coma com os olhos, depois você começa a dieta (amanhã o pedido se repete); compre o celular do momento (aquele que você não precisará acessar 80% das funções), entupa o guarda roupas, vai que alguém compre aquelas peças (vem o doce e maldito sussurro no ouvido: você vai se apertar, mas tem jeito pra tudo)…

Ainda bem que arrependimento não mata.

Ainda.

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