2 de abril de 2012 13:45 comportamento

Minha pequena Isa

Por Eduardo Soares

Assim que acordei, olhei para o lado e…para minha felicidade ela estava lá. Por alguns segundos não contive o leve sorriso ao ver aquele rostinho lindo com pele macia naturalmente morena – um tanto bronzeada–, as generosas (para não dizer grandes) bochechas vermelhas, a boca pequena semiaberta em forma de biquinho, o narizinho desenhado a mão, as sobrancelhas grossas (herança paterna) e o cabelo castanho claro harmoniosamente desalinhado. Parecia sintonia. Enquanto eu olhava, ela acordou e deu um sorriso tão leve quanto o meu, para depois murmurar um “bom dia” enquanto espreguiçava para depois esfregar os olhos.

Quantas lembranças adoráveis. Certa vez, sei lá quanto tempo faz, num aniversário meu fui acordado de sopetão. Ela apareceu (toda de branco), ficou de pé sobre minha barriga que mais parecia um puff e com um embrulho amarelo-transparente nas mãos disse:

– Parabéns! Acordaaaaaa, pai! Hoje o dia é seu!!

Ia abrir o pesado presente (era uma cesta de café da manhã) mas não tive tempo. Ela pulava, pulava, pulava e eu coitado, demonstrava uma felicidade silenciosa porque a cada pulo dela na minha barriga, o ar ia embora dos meus pulmões.  Assim que consegui respirar, peguei-a braços e aí dei inicio a uma sessão deliciosa de cócegas. Ríamos juntos: ela, devido a manifestação de carinho e eu ria daquele maravilhoso presente – não o do embrulho amarelo – matinal.

Chuva. Nossa, como adorávamos correr para debaixo do aguaceiro celestial. Isso também foi herança minha. Certa vez, caiu um pé d’água daqueles e eu, como sempre faço, arrumo algum pretexto para ficar todo encharcado na varanda. Enquanto a chuva envolvia meu corpo como um lençol divino, fechei os olhos, ergui a cabeça (isso sempre acontece e provavelmente vou continuar fazendo isso até o fim da vida) e fiquei simplesmente parado. Segundos depois um “atchim” rompeu o som da chuva. Era ela, literalmente meu reflexo em forma de pingo de gente, sentindo os pingos na mesma posição que a minha. Só um detalhe: de vez em quando ela abria um olho para ver minha reação. Ao notar que eu a via, ela rapidamente tratava de fechar novamente os olhos. Ah, aquele dia rendeu (além dos alguns copos de limonada, apenas por precaução) uma tarde de pipoca com direito a trocentos desenhos animados: desde Up – Altas Aventuras (que eu adoro por influência dela) até Pernalonga, Corrida Maluca e Bibo Pai e Bob Filho (todos esses velhacos ela adora, por influência minha).

Em dias de jogos, era ritual. A cada gol do nosso time, corríamos juntos para a varanda e gritávamos “NENSEEEEEEEEEEEEEEE”, para delírio e alegria dos vizinhos. Ela ainda completava com um “UHUUUUUULL” mas nesse ponto eu não a acompanhava pois nunca fui fã dos gritinhos tipo yahoooo, yesss, ah moleque e uh tererê da vida.

Era inaceitável ficar triste perto dela assim como era inaceitável vê-la triste. Mesmo quando ela foi vice-campeã do torneio infantil de natação do clube. Nunca a vi chorar tanto. Deixei-a sentir aquela tristeza intensa mas depois a encorajei dizendo que era poderia e iria ganhar em outras oportunidades. Semanas depois, ela deu um pulo no meio peito e chorou de alegria por causa da primeira medalha de ouro conquistada naqueles inacreditáveis seis anos de vida.

Hoje, assim que acordei, olhei para o lado e…para minha infelicidade ela não estava lá. Bateu um vazio absurdo, inexplicável. Era agoniante saber que eu não a teria por um segundo sequer. Lembrei da última frase da crônica “Rita” de Rubem Braga e faço dela o resumo da minha história: minha filha em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca teve.

Tudo foi apenas sonho. Um dia, quem sabe, eu venha abraçar minha pequena Isa como você fará com seu(ua) filho(a) depois de ler essas mal traçadas linhas.

Faça por você.

Faça por ele(a).

Faça pelas lembranças adoráveis. E eternas.

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