17 de abril de 2012 08:34

Por Eduardo Soares

“Veja bem, amor/ Onde está você?/ Somos no papel, mas não no viver/ Viajar sem mim, me deixar assim/ Tive que arranjar alguém pra passar os dias ruins. (Veja Bem, Meu Bem – Maria Rita)
“Você não tem culpa se eu estou sofrendo/Se fantasiei de verde esta história/Você tem namorado posso até estar errado/Mas tenho que ganhar você”. (Me Apaixonei Pela Pessoa Errada – ExaltaSamba)

 “Eu hoje tô tão dividido/ Sem saber o que fazer/ Uma tá sempre comigo/ E a outra eu sempre quis ter/ Será que isso é meu castigo/ Não sei se ligo ou não ligo/ Namorar com duas é um perigo/ Tem que tomar cuidado com o que vai dizer”. (Duas Paixões Netinho de Paula)

““Te perdôo/ Por contares minhas horas/ Nas minhas demoras por aí/ Te perdôo/ Te perdôo porque choras/ Quando eu choro de rir/ Te perdôo/ Por te trair”. (Mil Perdões – Chico Buarque)

 Se existe um tema polêmico, tenso, denso, evitável para alguns e relativamente natural para outros, é a traição. Bater no peito para berrar “eu nunca trai na vida” faz do orador um sujeito digno de inúmeras condecorações verbais. Mas quando a proclamação é dita da boca pra fora (geralmente no ato de conquistar alguém), ocorre então uma tentativa de amenizar/ocultar as manchas de um passado que nem sempre é tão passado assim. Assim como você, conheço várias pessoas partidárias da “pulada de cerca na surdina”. Para essa galera, a traição tem como objetivo a preservação do relacionamento frio. Bom, nesse caso acredito que pessoa erra a mão duplamente: 1-por não ter coragem de pular do Titanic (relacionamento afundando) no momento do choque com o iceberg; 2-por não respeitar o(a) companheiro(a) ao permitir a entrada de uma terceira pessoa numa vida que seria em tese (sentimental e moralmente falando) a dois.

Tem gente que trai como quem troca de roupa e vive bem, sem nenhum dilema moral ou dor na consciência. Pesquisas recentes mostram o crescimento da infidelidade feminina e por consequência nivelamento com a masculina. Partindo do principio dos diferentes focos que fazem homens e mulheres traírem por razões distintas, quais são os nossos (rapaziada) focos? Veja, homem trai devido ao instinto, pele, cheiro, contato/atração visual, incessante busca pela conquista e principalmente pela questionável autoafirmação de poder. Nossos argumentos chegam a ser imbecis: a bunda da secretária é gostosa, os peitos da estagiária são deliciosos, as coxas da faxineira são espetaculares, o rebolado da chefe acaba comigo, a vizinha (casada, safada, tarada) está me dando mole e se eu não pegá-la vou ficar sem moral na rua…

O tal “ficar sem moral na rua” dói. Afinal, homem faz questão de contar que está “pegando” a boazuda do bairro. No fundo, até se ela for tão atraente quanto uma sardinha-empanada-a-uma-semana-na-estufa-da-rodoviária serve. Traçou a mulher? Beleza, isso faz com que ele ganhe 10 pontos perante a galera. E se a moçoila for casada, a pontuação triplica, como se a conquista fosse um atestado de virilidade perante os amigos. Geralmente a mulher trai em silêncio, até porque em boa parte dos casos, surge um incessante dilema moral em sua cabeça recheada de questionamentos como “a culpa é minha?”, “porque ele não me procura mais?”, “onde foi que errei?”. Claro, nesse exemplo desconsideramos as mulheres de caráter duvidoso. Essas sim, não têm nada a perder e saem por aí, visando a mesma autoafirmação questionável de poder dos homens. Com o perdão da sinceridade, assim como tem homem galinha, o que não falta são mulheres (na falta de palavra mais amena e no pior sentido do termo) safadas.

Como disse acima, a mulherada pula a cerca em boa parte dos casos devido as crescentes fissuras sentimentais que não têm previsão de fechamento. Isso gera carência, tristeza sem fim, questionamentos culposos e fragilidade emocional. A mesma fissura dolorida daquele coração desprotegido cede espaço para que um sujeito aproveite a brecha para entrar (às vezes até) despretensiosamente naquela vida fadada ao fracasso. Com o tempo a mulher ganha vigor quase adolescente e assim o visitante torna-se presença cada vez mais agradável e necessária. Trocam sorrisos, confidências, declarações, ideias, pensamentos, intimidades. Trocam até os sentimentos: sai o medo explicito, entra o desejo guardado (e acumulado). Transformam-se em amantes. Transam. Entre beijos, mordidas, arranhões, (re)descobertas, suspiros, gemidos e um prazer relativamente incômodo, o liquidificador moral está ligado em rotação máxima na cabeça dela. “E quando eu chegar em casa, como vou ter coragem de olhar pra ele?”, pensa a mulher, conciliando o pensamento entre aquele momento delicioso com a pasmaceira instalada no relacionamento “oficial”. De um lado, ardência gostosa, calor proibido. De outro, clima glacial registrado em cartório. E um coração duplamente climatizado.

Alguns preferem o comodismo e fazem os amantes ganharem status de estoque reserva, conciliando assim o relacionamento “oficial” com a “sobremesa” aparentemente saborosa (que cedo ou tarde acaba como alimento indigesto, até porque nunca vi amante celebrar aniversário de romance, ou como costumo dizer, bodas de espelho no teto). Outros fazem da traição um subterfúgio para encarar um recomeço. “Melhor assim, dispensei o antigo, fiz a escolha certa”, pensam. Assim, o coração ganha uma nova redoma: sai o vidro arranhado, entra o cristal intacto. Até aí tudo bem mas numa eventual briga, adivinhe qual pensamento pulsará latejante na mente dela: ele tinha uma esposa e mesmo assim ficamos juntos. Se ele fez isso com a mulher dele, pode fazer o mesmo comigo.

Se determinados atos fossem calculados, evitaríamos vários tipos de dilemas. Fosse o coração uma terra desconhecida, a placa pregada na entrada dele seria assim: Cuidado. Área restrita. Melhor bater antes de entrar. Melhor conhecer antes de se perder. Melhor (in)validar antes de invadir. Melhor trocar o impulso pela pausa. Melhor deixar a casa antes de ser expulso.