10 de maio de 2012 01:24 Preconceito

Gordas que odeiam ex-gordas

Por Renata Poskus Vaz

Há algum tempo falei aqui no Mulherão sobre ex-gordas que odeiam gordas. Mulheres que sofreram com o excesso de peso e que, após a operação de redução de estômago, passam a discriminar quem está acima do peso. Para relembrar, clique aqui e leia o texto Ex-gordas que odeiam gordas.

No entanto, hoje, vou falar do outro lado da moeda, sobre um pequeno (e chato) grupo de gordas que discriminam ex-gordas. Ou seja, mulheres que estão acima do peso, que tentam ou não emagrecer, que se dizem perseguidas e discriminadas por conta dos seus quilos extras, mas que hostilizam aquelas que optaram pela cirurgia de redução de estômago.

Semana passada, postei aqui no Blog Mulherão a história de Camila Moraes, participante do Dia de Modelo, que eliminou mais de 40 Kg após uma cirurgia de redução de estômago. Tive que excluir (sim, este Blog é moderado e não aceito que minhas leitoras sejam achincalhadas indiscriminadamente) uma série de comentários ofensivos à Camila. Na maioria deles, pessoas sem um mínimo de tato, que acusavam nosso Blog de fazer apologia ao acesso indiscriminado das cirurgias bariátricas, ou que atribuíam à Camila ares de irresponsável por ter escolhido uma “fácil forma de emagrecimento”.

 Cirurgia bariátrica é a escolha mais fácil?

Não vou negar que há muita gordinha por aí pensando que operar é a melhor escolha sem ao menos tentar alternativas de emagrecimento, como caminhar, fazer dieta etc. Cirurgia de redução de estômago é uma espécie de mutilação interna, que pode causar sofrimento físico e psicológico para o paciente, fato.

Conheço uma mulher, por exemplo, adepta da lei do mínimo esforço. Come barras e mais barras de chocolate suflair por dia, acompanhada de muita coca-cola, e o máximo de exercício que faz é mexer os dedinhos no teclado do computador. Ela poderia levar as crianças a pé para a escola, fazer uma caminhada pelo bairro, mas prefere (ou a depressão é tanta que a condena à essa ociosidade extrema)  ficar em casa. Essa mesma mulher, que nunca fez uma dieta séria com acompanhamento médico, manifesta a sua vontade de operar o estômago no Sistema Único de Saúde. Óbvio que, mesmo que ela conseguisse operar, essa cirurgia não adiantaria nada. Ela sofreria com a operação, não mudaria os seus hábitos e voltaria, após alguns anos, a engordar.

Ok, mas há aquelas pessoas que já se exercitaram, fizeram dietas com acompanhamento médico e não conseguem de jeito nenhum emagrecer. Nestes casos, a cirurgia bariátrica não é necessariamente a escolha mais fácil. É uma entre diversas opções de emagrecimento e, em alguns casos, a última opção para algumas pessoas. É uma cirurgia arriscada, delicada. Mesmo assim, confesso, queria eu que minha mãe, quando viva, tivesse tido a chance de operar o estômago. Ela já tinha feito todas as dietas do mundo, era ativa e, mesmo assim, morreu de trombose em decorrência da sua obesidade. Esta poderia ter sido sua grande e derradeira chance! E é por isso que acho que um obeso não tenha o direito de julgar o ex-obeso que operou. Não sabemos o que se passa na cabeça, no coração, na saúde e na vida dessas pessoas. Um gordo não é igual a outro gordo, lembrem disso!

 Ninguém gosta de ser obeso mórbido

Vez ou outra, vejo algumas blogueiras com uma militância gorda exagerada, discriminando pessoas que operam, emagrecem e usando o discurso de que ser gorda é a melhor coisa do mundo, como se ressoassem: “sou feliz porque peso 150 Kg”. Não preciso ser nenhuma especialista pra saber que ninguém gosta de ser gordo e que se pudéssemos escolher entre ter um corpo com peso equilibrado ou entalar na roleta do ônibus, escolheríamos a primeira opção.

A atriz Fabiana Karla, por exemplo, foi perseguida e humilhada publicamente por uma blogueira GG do mal, que fazia questão de chamá-la de falsa, mentirosa, porque Fabiana Karla dizia se amar quando estava gorda e manteve o discurso ao emagrecer após uma cirurgia de redução de intestino. Oras bolas, quem se ama se ama, não por causa dos seus quilos! Vai se amar gorda e vai se amar magra.

Então, acho que esse orgulho exacerbado gordo é, na verdade, uma autodefesa. Ninguém é feliz porque é gordo. Ninguém é feliz porque tem muita celulite. Ninguém é feliz porque tem dificuldades para caminhar ou respirar devido o excesso de peso. Somos felizes por outros motivos mais importantes e essas coisas se tornam supérfulas quando estamos bem interiormente. Temos que gostar de ser quem somos como um todo e não só por causa da nossa gordura. O correto seria pensar: “Sou feliz, linda, saudável e muito amada, apesar dos meus 150 Kg”.

Se olharmos por este ângulo, veremos que o excesso de peso será uma entre centenas de características que nos definem e seremos muito mais felizes e não perseguiremos os outros que são diferentes de nós.  Devemos nos cuidar, sempre. Ninguém precisa alcançar um manequim 38, mas pode e deve se alimentar corretamente e ter acompanhamento médico.  E isso serve para as magrinhas, para as gordinhas e para as ex-gordas. Se quiser que respeitem seu excesso de peso, respeite a ausência de gordura nas outras pessoas. Respeite as escolhas que os outros fazem. Respeite quem é diferente de você.

Este texto não é uma apologia à cirurgia de redução de estômago. Este texto é, na verdade, uma apologia ao direito das pessoas serem felizes como são ou como desejam ser, sem preconceito.

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