26 de junho de 2012 16:22

Por Eduardo Soares

Por mais que seja cena relativamente comum, não consigo ficar indiferente. Com esse negócio de Eurocopa, estou com a bendita camisa da Holanda na cabeça. Para quem não é familiarizado com futebol, imagine um uniforme cor de cenoura debaixo do sol de verão. É mais ou menos por aí.

Começo da noite, tinha acabado de sair do cinema e para passar o tempo resolvi procurar a tal camisa de futebol. Encontrei algo parecido. Acho que era o terceiro, quarto, nono uniforme do Barcelona. A tal cena comum vem agora. Minha atenção foi dividida entra a camisa e um belo casal que estava a dois metros de mim. O carinho, digamos, alternativo de ambos era impressionante. Lembro-me do seguinte diálogo:

– Você vai ficar desfilando na loja, mulé? Ou compra logo ou vamos embora, estou de saco cheio! Tu fica feito uma palhaça, não sabe o que quer da vida!

– Baixa a bola! Se não quer ficar, pode ir. Estou me lixando pra você. Vou ficar aqui o tempo que for, e daí? Vai me bater?

Isso foi apenas o começo. Mas o espaço (e o bom senso) não me permite reproduzir o restante dos mimos verbais. E nem vale a pena. O que eu vi, os caixas viram, o segurança viu e os clientes também foi uma sucessão interminável de impropérios e ameaças de agressão física. Sabe aquela pressão psicológica do tipo ”tem coragem? Duvido! Não me provoca! Olha que eu faço”. Bom, até onde eu vi, ninguém saiu no tapa pelos corredores do shopping. Mas, vai que num dia qualquer, a paciência de ambos atinja o limite que não era pra ser atingido e a pancadaria come solta? Olha a que ponto certas pessoas chegam a troco de..de…de quê?

O maior medo do navegador é encontrar uma tempestade em alto mar. Por mais experiente que seja, ele não tem como prever o que irá acontecer daqui a dez segundos com o oceano em tormenta. Pelo menos, caso tenha amor a vida, ele vai tentar sair dessa da melhor forma possível. Mal comparando, tem gente que não consegue sair daquela situação fadada ao fracasso. É como se o relacionamento ficasse preso ao redemoinho, sendo que, ao contrário do navegador, essa gente parece gostar de viver 24 horas por dia sobre o efeito da tormenta.

Adrenalina tem limite. Quer aventura? Vá praticar alpinismo, asa delta, bungee jumping, rapel, surf, skibunda no asfalto, jogar peteca revestida com urtiga. Brincar de “até onde posso ir” é desperdício de tempo e inteligência. O pior é quando o coração fica acostumado a esse tipo de situação. Pode pintar a pessoa mais carinhosa do mundo. Ela até poderá entrar, mas certamente vai ter uma participação relâmpago na vida de quem prefere viver à base de trovoadas.

Sinceramente, o conceito do “Entre tapas e beijos/É ódio é desejo/É sonho é ternura/(…)E assim vou vivendo/Sofrendo e querendo esse amor doentio…” serve apenas pra música ou seriado. Quando isso vira trilha sonora da relação, acredito ser a hora de trocar de rádio/CD.

Tem par que nasceu pra ser admirado e até invejado. Gente que serve como exemplo para vários. Outros, porém, preferem a pompa, o status, são verdadeiros mentirosos (ou mentirosos com síndrome da verdade), oficializam união, fazem votos, juras, assinam a certidão. Mas no fundo eles não passam de rascunhos de casal descasado.

Namoro, casamento, noivado. Não importa. Você a(o) escolheu e vice-versa. Ninguém apontou uma arma na sua cabeça para obrigá-lo(a) a estar com a pessoa de quem você gosta.

Por mais intimo que seja o casal, nenhuma das partes tem o direito de pulverizar o outro com vilipêndios e ameaças. E se isso for uma constante, seja inconstante. Ao encostar sua cabeça no travesseiro, pense nas próximas 24, 48, 72 horas. Vale realmente a pena entrar no redemoinho?

Segundo o dicionário, rascunhos são “trabalhos iniciais em que se fazem as correções necessárias antes de dar-lhes a forma definitiva”. Você é o único professor dos seus sentimentos. Observe o momento atual. Caso o rascunho do relacionamento demonstre contornos feios, veja se é possível haver correção.  Se incorrigível for, e se mesmo assim você optar em ir até o fim, receba duplamente meus parabéns. 1 – Persistência não lhe falta (sobra a falta de vergonha na cara); 2- Você traçou com perfeição o definhamento definitivo de toda sorte que a vida poderia lhe oferecer.

“Mas quem sofre sempre tem que procurar/
Pelo menos vir a achar/
Razão para viver/
Ver na vida algum motivo pra sonhar/
Ter um sonho todo azul/
Azul da cor do mar…”

Toca o barco, comandante…