15 de agosto de 2012 02:42 Uncategorized

Já tirou sarro de si mesma para evitar que os out …

Por Renata Poskus Vaz

Quando eu era uma magra que se achava gorda e feia, eu tirava sarro de mim mesma. Era uma forma de impedir que me magoassem, me magoando de antemão. Vocês podem até achar exagero, mas desde pequena eu sofria ao receber apelidinhos que me magoavam. Na pré-escola eu era chamada de Rata Branca por uma servente negra. No ensino fundamental eu era a Maria Cebola, porque chorava demais.  E quanto mais me chamavam de Maria Cebola, mais eu chorava. E quanto mais eu chorava mais me chamavam de Maria Cebola. Lembro até das minhas professoras rindo das provocações o que me fazia me sentir, além de humilhada, desprotegida. Na Praia Grande, onde passava minhas férias escolares, eu era a “cabelo de miojo”. Acho que não preciso citar aqui o quanto sofri também com as zoações por conta da música “Lora Burra” de Gabriel o Pensador, não é mesmo?

 Fui crescendo assim, recebendo apelidinhos e rezando para que as pessoas os esquecessem e eu pudesse ser chamada apenas de Renata. Na adolescência, as  “muy amigas” deviam perceber que eu não me amava e ironizavam minhas roupas de patricinha, meu olho caído, minha ausência de bunda, meus seios volumosos, meus lábios finos, minha pele exageradamente branca etc. Obvio que eu não percebia que aquelas brincadeiras poderiam até mesmo ser fruto da inveja daquelas garotas. Eu acreditava em tudo. Então, para evitar que caçoassem de mim, eu já chegava nas reuniõezinhas colocando defeitos em mim mesma, para não deixar espaço para que zombassem de mim.

Já adulta, um pouco antes de criar o Blog Mulherão, eu freqüentava algumas comunidades no finado Orkut. Em uma delas, em que debatíamos diariamente, fiz muitos amigos. Com opiniões fortes, conquistei a admiração de alguns seguidores e ofusquei o brilho de algumas participantes mais antigas, que faziam piadinhas acerca de minha silhueta. Chamavam-me de baleia. Aquilo me magoava e por mais que eu pedisse para pararem, aquelas mulheres adultas continuavam insistindo na piada sem graça pela internet. Certa vez, ouve uma eleição para decidir quem seria a nova moderadora da comunidade. As pessoas mais populares se inscreveram. Então, tive a idéia de me inscrever também, com o nome “Renata Baleia”. Organizei até uma campanha, em que dizia que as pessoas deveriam confiar em mim, porque as baleias vivem em grupos, são dóceis e leais aos seus companheiros, além de serem resistentes ao percorrerem grandes distâncias sem se cansar. Mudei minha foto do perfil do Orkut pela de uma baleia dando um grande e poderoso salto no mar. E foi com essa publicidade e com a auto-zoação que eu ganhei a administração daquela concorrida comunidade.

No fundo, tirar sarro de mim mesma sem me amar de verdade, impedia que as pessoas continuassem a me xingar. Porém, aquilo ainda me magoava. Juro que eu gostaria de dizer que nunca sofri, que sempre me amei, mas isso não confere com a realidade. Eu me achava a mosquinha do cocô do cavalo do bandido e tive que percorrer um longo caminho até conseguir olhar no espelho e enxergar uma mulher linda, inteligente e muito gostosa.

Hoje, faço piada de mim mesma. Mas desta vez não como fazia antes, para me defender. Faço para me divertir. Antes, me autointitular “gorda” seria uma proteção. Hoje é algo normal, uma forma até carinhosa, porque a palavra e seu significado perderam aquela força negativa que exerciam sobre mim.

Um exemplo bacana de auto-tiração de sarro é o ídolo do UFC Anderson Silva. O lutador de MMA, admirado por todo o mundo por conta de suas habilidades em artes marciais e sobretudo por sua força, era ridicularizado por comentaristas de lutas e adversários. O motivo? Sua voz fininha, fininha, como a de um meninho prestes a entrar na puberdade. Após anos de gozações, Anderson Silva driblou as provocações, assumiu a voz fina e tirou sarro de si mesmo em um comercial do Burguer King, cujo slogan era: “Mega BK Stacker. Tão assutador que você afina”. Ele com certeza encheu o bolso de dinheiro com o comercial e transformou a piada sobre sua voz fina super ultrapassada dali em diante. Veja esse que considero uma das melhores propagandas de todos os tempos:

Há um blog muito bacana chamado Boboquice Digital que cita essa e outras auto-tirações de sarro para vocês assitirem e perceberem que até mesmo gente famosa sofre com piadas, perseguições, apelidos, mas que sempre é possível dar a volta por cima.

Quer trocar relatos de experiências sexuais e tirar dúvidas com outras mulheres gordas? Entre no GRUPO SECRETO DO MULHERÃO, no Facebook, com entrada permitida apenas para mulheres: Clique aqui para acessar

MAIS MATÉRIAS INTERESSANTES