3 de março de 2014 00:28 Uncategorized

“Moda é coisa de gente fútil”

Por Renata Poskus Vaz

Moda é coisa de gente fútil? Não, não é. Moda é questão de sobrevivência.

O ideal seria que todos nós fossemos apenas avaliados por nosso interior, que a nossa apresentação pessoal não contasse pontos na hora de se conseguir um trabalho, amigos ou um amor. Seria lindo que olhassem para nossa alma, reconhecessem nossos reais valores e nos dessem a oportunidade de ser mais do que apenas um corpinho bonito com roupas bonitas. Sim, isso seria muito lindo. Mas não é o que acontece na maioria dos casos.

Na hora de conquistar um emprego, nossa pós-graduação parece valer menos do que a sola do sapato que calçamos. Estar acima do peso, parece contribuir com essa cobrança. Alguns recrutadores nos veem como mulheres ociosas, preguiçosas e com mais chances de afastamentos no trabalho por causa de doenças. É lógico que isso não confere! O que não faltam são magrinhas sedentárias e doentes por aí. Mas no mundo do achismo, é isso que rege a cartilha do preconceito.

Lutar contra esse sistema parece tentador, mas quando se tem contas para pagar, uma casa e filhos para sustentar, parece mais fácil se adequar a ele. E é aí que entra a moda, como coadjuvante nesse processo de inserção na sociedade.

Quando nos apresentamos bem vestidas, de forma elegante em uma entrevista, com uma roupa que valorize nossa silhueta, com uma cor que exprime poder e confiança, mudamos a forma como esses avaliadores nos observam. Nossas chances mudam.

Já comentei aqui diversas vezes que minha mãe morreu nova, aos 40 anos, obesa. E se sentia excluída de tudo. Deixava de ir em ocasiões especiais, como casamentos e formaturas de parentes, porque não encontrava lojas que vendessem roupas GG apropriadas para essas celebrações. Hoje, aos 32 anos,  quando olho para trás, vejo o quanto minha mãe foi depressiva e o quanto ela sofria por se sentir excluída. Se fosse fácil emagrecer, certamente ela usaria manequim 38, mas a dificuldade de se obter um corpo magro e toda essa exclusão social por falta de uma simples roupa adequada, fizeram com que ela ficasse reclusa e ainda mais depressiva. E acredito que até mesmo essa reclusão e depressão de alguma forma colaboraram com sua morte prematura.

No caso de minha mãe, uma roupa jamais seria futilidade, seria o direito de se sentir feliz e incluída.

Hoje, vejo que a moda plus size no Brasil ainda engatinha, mas já apresenta um grande progresso para nós, mulherões. Antigamente, não tínhamos o direito de ter uma identidade cultural, um estilo próprio, usávamos todas as mesmas roupas, como se todas as gordas do mundo tivessem um uniforme: camisetão e legging. Hoje, podemos definir como queremos nos vestir. Podemos definir como queremos ser enxergadas. Hoje conseguimos transformar em estilo, com muita graça e à primeira vista, aquilo que antes ficava escondido: a nossa essência.

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