19 de março de 2014 04:22 Uncategorized

A última carta

Mãe,

Ao invés de ir a um centro espírito em busca de uma psicografia, eu é que queria te escrever. Não é Dia das Mães, não é o seu aniversário, mas finalmente chegou o momento de te escrever essa última carta. E eu tenho certeza que alguém, aí do outro lado, vai te entregá-la.

Eu nunca falo com você, mãe, porque dizem que não devemos ficar chamando por aqueles que se foram. Dizem que se eu te chamar, pedir ajuda, você vai ficar preocupada e na prática não vai poder fazer nada por mim.

Já o Orlando lá do prédio disse, há um tempo atrás, que em espírito você poderia fazer por mim coisas que as limitações de seu corpo físico não permitiam que  fizesse em vida. Mesmo assim, mãe, eu não conseguia pedir.

Eu sei, mãe, que você esteve comigo há 12 anos, em espírito. Quando eu chorava deitada em sua cama porque havia perdido minha avó e depois de seis meses você, as únicas pessoas que me faziam carinho. Carinho mesmo, aquele coça-coça gostoso nas costas. Eu dormi e acordei com você me fazendo carinho. Aí lembrei que você havia morrido. Eu não te vi, mas senti e fiquei muito assustada. Mas sou muito grata por aquele carinho que, hoje, encaro como uma forma doce de você me dizer que sempre estaria comigo.

Também senti a sua presença no casamento da Laiza. E até em um rodeio de Jaguariúna, quando tocou Kleiton e Cledir, uma dupla horrorosa das antigas que você tanto gostava. Justo aquela música da Maria fumaça, que você me cantava quando eu era criança. Bem na hora em que eu pensava: “minha mãe adoraria estar aqui”. Não, aquilo definitivamente não foi coincidência.

Sei que você nunca apareceu para mim, porque sou uma espírita de meia tigela que teria um infarto se visse um espírito na minha frente. Você sabe disso, ainda bem.

Mãe, eu quero te dizer que li seu diário depois que você morreu. Perdoe-me, eu sempre fui muito curiosa e eu tinha apenas 20 anos quando cometi essa indiscrição. Eu li a parte em que você escreveu que achava que eu não gostava de você, pois quando você foi me visitar na praia com o pai quando eu tinha uns 7 anos, e foi embora, eu nem me importei. Mãe, eu me importei sim, só não pedi para você ficar. Você não sabe, mas naquele dia eu fiquei com o coração apertado quando te vi partir. Eu corri muito atrás do carro. O Tetolas me viu correndo pela rua e me deu carona na monarkinha dele, fomos pedalando até a avenida da praia, mas não consegui te alcançar para pedir que você ficasse. Eu sentia sua falta, muita e sempre. E chorava às vezes escondida da vó. Mas eu sabia que as férias iam acabar e que eu voltaria para você. E que você estaria lá me esperando, me amando, como sempre. Eu sempre te amei muito mãe.

Sabe, depois que eu li isso, carreguei uma culpa muito grande por, ao invés de rezar para que você ficasse boa, ter me conformado com a sua inevitável morte e pedir para que parentes nossos desencarnados a amparassem nessa passagem. Você não estava morta, mas dentro de mim eu pensava: “ela vai morrer e eu tenho que agüentar e rezar para ela ir sem sofrer”. Porque não pedi em pensamentos para você se restabelecer? Por favor, me perdoe por isso. Perdoe-me por não ter orado para você ficar, de qualquer jeito. Era isso que você esperava de mim quando partiu na sua visita na praia, não era? Esperava que eu pedisse para você ficar.

Talvez seja por isso que, hoje, eu não deixe mais as pessoas saírem da minha vida tão facilmente. Eu insisto, choro, brigo, imploro para ficarem… Tenho uma dificuldade enorme de deixar aqueles que amo partirem. Sempre acho que esperam que eu demonstre meu amor desta forma, pedindo para que fiquem.

Mãe,  quando você morreu, tudo o que te prometi naquela carta que pedi para colocarem no seu caixão porque não tive coragem de te olhar, eu cumpri. Eu cumpri tudo. Tudo mesmo, mãe! Eu fui forte e honrei minha palavra. Talvez não tenha feito tudo da melhor maneira, dei alguns tropeções, mas finalmente eu concluí.

Eu te confesso que não foi fácil e depois de tudo fiquei bem confusa, me perguntando se os compromissos que assumi foram a minha melhor escolha, porque eu sofri pacas também com as consequências de toda essa responsabilidade que tomei para mim. Eu me senti meio perdida e vazia quando percebi que “não havia mais trabalhos a serem feitos”. Agora, finalmente, mãe, estou pronta para seguir. É estranho só precisar pensar em mim e na minha felicidade, agora. É estranho poder cuidar só de mim ou quem sabe ser cuidada.

Sabe, mãe, eu não acreditava em milagres e, esta semana, pude viver um e compreender que as coisas acontecem no tempo de Deus. Isso me encheu de esperança… Eu chorei tanto de alívio e felicidade por ter recebido esse milagre! Mas eu acho que você já sabe disso, não é? Alguma coisa me diz que você estava aqui, comigo e meu pai.

Desde que Orlando me contou aquela história de que poderia te pedir o que eu quisesse, pela primeira vez tomei a liberdade de te fazer um pedido. Na verdade, só queria uma forcinha para levar esse pedido para o pessoal aí de cima. Você sabe o que é. Eu demorei, pesei os prós e os contras, como minha intuição (ou você!) pedia. Levei meses até ter certeza… Agora eu tenho. Obrigada se puder me ajudar nisso. E eu nem vou dizer para você não ficar grilada se essa coisa não se realizar porque eu tenho certeza que vai.

No mais, mãe, eu te digo que é muito estranho ser apenas 8 anos mais  nova do que você, quando você partiu. E que vai ser mais estranho ainda quando eu tiver 80 anos e lembrar da minha mãe com 40.

Espero que Deus te segure aí mais umas décadas, para que eu possa te dar um abraço.

Vou jogar seu diário fora. E essa é minha última carta. Sem mais promessas, sem mais pedidos e sem prestações de contas. Obrigada, mãe.

Obrigada por ser minha mãe.

Sinto muita saudade, mas eu agüento.

Renata

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