18 de julho de 2014 03:25 Uncategorized

A gorda, a roupa entalada e a vendedora chata

Por Renata Poskus Vaz

Finalmente você para em frente à vitrine daquela loja bonita que sua amiga amiga magrinha vive comprando roupas da moda. Vê uma blusinha que é a sua cara. Toma coragem e resolve entrar. É atendida por uma vendedora bem magrinha, com sorriso forçado, que logo te convida a experimentar a peça.

“Moça, tem do meu tamanho?”, você pergunta, em voz baixa, envergonhada.

A vendedora, por sua vez, afirma que o tamanho G vai ficar ótimo.

Você tem dúvidas. Afinal, o que é um tamanho G? G de grande? G de gostosa? G de gostosa grande? G de gorda? G de gorda grande? Um tamanho G pode ser grande comparado com um P que é minúsculo, mas ainda assim ser pequeno se comparado a outros “Gs” por aí. Mas antes que você desista de provar a peça com toda essa subjetividade de um tamanho “G”, lá está a vendedora com aquele olhar de cachorrinho que caiu da mudança, te convencendo a provar:

“O tecido é ótimo, estica! Experimenta, vai ficar lindo em você”

Já que ela diz que estica, você sente que tem alguma chance com a blusinha e se joga no G enigmático. Entra feliz no provador da loja dos seus sonhos. O sonho acaba rápido. O provador é minúsculo, sem ventilação, e você lá, já suando como se estivesse em uma manhã castigante no deserto. Tira a sua blusa, bate o cotovelo na parede de compensado, o provador treme.

“Tá tudo bem aí, querida?”, pergunta a vendedora.

Você e ri e responde que sim. Você já sem a sua blusa, o suor escorrendo pelo seu corpo. Mas você não desiste fácil. Pega a blusa G, do tecido que estica. Coloca lentamente. Primeiro um braço, depois a cabeça e depois o outro braço. Agora é a hora de descer a blusa. Mas ela não desce. E você dá uma forçadinha de leve, até ouvir a primeira cerzida e descobrir, da forma mais triste possível, que o tecido que deveria esticar, não estica porcaria nenhuma.

Tenta tirar a blusa, mas ela nem sobe e nem desce.

E você lá, com a blusa entalada, pensando em uma forma de se livrar daquela situação, pensando que não pode haver nada no mundo pior para uma gorda do que uma blusa G que na verdade é P entalada em você, em um provador minúsculo e calorento.

Mas há. Sempre há como uma situação piorar.

A vendedora inconveniente, do lado de fora, tentando abrir a cortina do provador:

“Deixa eu ver como ficou, querida?!”

E você, desesperada, fechando a cortina, responde:

“Já mostro, já mostro!”

Você percebe que só tem uma alternativa: fazer a blusa descer de qualquer jeito, sair do provador sorridente e mentir dizendo que gostou tanto da blusa que já quer sair com ela no corpo. Comprar. Ir para casa e sofrer com dignidade com o dinheiro mal gasto.

Então, você prende a barriga, fica sem respirar, se esforça e após uns 5 minutos de desespero e muitas tentativas, a blusa desce. Sai do provador, vermelha, exausta, após a pior experiência da sua vida e escuta da vendedora:

“Nooooooooooooooooooooooooooooooooossa! Que linda que ficou em você!”

A frase mais falsa que já ouviu na sua vida.

Você respira fundo. Uma, duas, três vezes. Percebe que seria ótimo sofrer com dignidade em casa. Mas que melhor ainda é dar um piti de gorda no meio da loja, só para lavar a alma:

“Escuta aqui, você sabia que induzir um cliente ao erro está previsto como crime no código de defesa do consumidor? E você ficar falando que estou linda em uma blusa que nitidamente não cabe em mim é uma tentativa imunda de me fazer comprar um produto que não me atende? Isso não me serve e você está tentando me empurrar goela abaixo! Meu dinheiro não é capim, minha filha! Agora liga essa porcaria desse ar condicionado que eu estou com pressa. E não tente entrar no provador mais uma vez sem meu consentimento, entendeu?!”

Ufa!

Todos se calam.

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Historinha triste, incômoda? Já aconteceu comigo de verdade. E com vocês?

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