29 de maio de 2015 14:58

Por Renata Poskus Vaz

Sempre achei que síndrome do pânico fosse coisa de gente medrosa, fraca, que faz tempestade em copo dágua. Sempre fui uma mulher forte, destemida e quando via na TV matérias sobre pessoas com síndrome do pânico, achava um absurdo. Até o dia em que eu me vi completamente dominada pelo medo, em crises constantes, que quase me isolaram de tudo e todos.

Contei para vocês que há um tempo atrás fiquei bem depressiva. Em alguns momentos, quando tinha episódios de tristeza profunda, chorava e logo sentia minha garganta fechando. Eu sentia como se alguém me enforcasse, não conseguia respirar. Logo em seguida, meu coração acelerava e doía.  Pensava que estava morrendo, tendo um ataque cardíaco.

Quando isso acontecia, meu pai queria me levar correndo ao médico. Minha mãe morreu de morte súbita aos 40 anos, não seria tão impossível que eu morresse aos 32. Mesmo naqueles episódios de sofrimento, eu percebia que poderia ser apenas psicológico, afinal, eu estava chorando, nervosa. Tentava respirar, sentia o coração saindo pela boca e só repetia: acalme-se, Renata! Isso é coisa da sua cabeça.

Mas esses episódios começaram a acontecer mesmo quando eu não estava triste. Era pega de surpresa. Eu queria fugir. E fugia. Uma vez, estava indo para uma reunião na região da Avenida Paulista. E meu mal estar e desespero era tão grande que eu saí a pé do carro, na contra mão e fui caminhando até a Freguesia do Ó. Acho que desci do carro às 13h e cheguei em casa às 19h, queimada do sol e com os pés cheios de bolha.

Sim, coisa de doida varrida!

Não procurei um médico cardiologista pois meu resquício de lucidez sempre martelava minha cabeça e me fazia ter certeza de que não se tratava de nenhuma doença além das que eu carregava na alma e na mente. Quando esses episódios aconteciam, eu logo lembrava de que, há uns 10 anos, eu já tive crises de ansiedade em que fui parar em cardiologistas e até em emergências de hospital, mas não passava de estresse por conta do excesso de trabalho (na época, era bancária e estudava jornalismo).

Eu sabia que estava com síndrome do pânico. Talvez em um estágio leve, mas estava.

A confirmação veio voando. Eu que desde os 13 anos viajava de avião,tendo inclusive viajado para a Europa duas vezes e enfrentado turbulência em diversos voos, pela primeira vez, temia voar. Em todos os voos que fiz no último ano, entrei em desespero. Eu me continha na maioria das vezes, mas em algumas delas acaba até influenciando negativamente outros passageiros.

Uma hora de voo parecia uma eternidade! Quando comecei a analisar esse medo, percebi que o que me fazia entrar em pânico era saber que naquele momento eu não tinha controle algum sobre minha vida. Eu apenas deveria orar para que mecânicos tivessem verificado corretamente a aeronave e que o piloto fosse prudente.

Se hipoteticamente o motorista de ônibus está cometendo barberagens, temos a oportunidade de pará-lo. Há como tomar a direção do ônibus, pular uma janela e, em um acidente, ainda há chances de sobreviventes. No avião não.

Essa total falta de possibilidade de controle da situação me descontrolava cada vez mais. Fui deixando de voar, de cumprir compromissos profissionais… Isso tinha que parar! Somada com depressão, síndrome do ninho vazio, quando meus irmãos se casaram e deixaram minha casa e o término de um relacionamento de 5 anos, cheguei ao meu fundo do poço.

A solução? Após meses dormindo, chorando e sem sair de casa, levantei e fui buscar ajuda. Não foi fácil. E nem fiz isso tudo sozinha. Precisei de ajuda, ora do meu pai, ora de amigos próximos. Primeiro, tentei a terapia, mas não me adaptei. Talvez a terapia funcione com quem tenha dificuldade de se expressar e necessite desesperadamente ser ouvido. Eu, na verdade, sempre falei muito e desta vez precisava ouvir.

Fui ao psiquiatra e tomei remédio tarja preta de doidona, essencial para sair daquela confusão mental e tentar me equilibrar. Tomei florais, super naturebas. Mas o que me salvou mesmo foi terapia em grupo. Integrei um grupo de ansiosos e depressivos no centro espírita que frequento. Fazíamos reuniões em grupo, onde todo mundo desabafava, acompanhados por uma psicóloga, um médico e um orientador espírita. Ter esse amparo espiritual foi bom, porque é difícil pacas quando a única coisa que te mantém viva é um resquício de fé e a sua terapeuta despreparada quer te tirar isso.

Ver os medos, problemas e traumas de outras pessoas me fizeram entender que o meu problema era pequeno e perfeitamente contornável. Fui melhorando, melhorando e estou quase 100%. Já voei de avião, não perdi meu medo, mas também não perdi o controle e isso é muito bom. Sempre compro revistas para ler no avião, ou pego voôs com TV, como os da Azul, assim me distraio. E oro. Nunca pensando coisas negativas. Sempre pelo lado positivo e agradecendo: “obrigada, meu Deus, por me dar a oportunidade de trabalhar em outro estado. Obrigada por esse avião, que me levará até lá rápido e em segurança, para eu fazer meu trabalho e poder retornar brevemente para minha família”.

Aprendi que se eu tiver que morrer, que vou morrer, sendo atravessando a rua, andando de carro ou até dormindo. Aprendi que não posso controlar tudo na minha vida. Que, às vezes, eu só preciso ter fé e entregar tudo nas mãos de Deus.

Todo esse processo durou quase 2 anos. E, hoje, me sinto muito feliz, completa e mais próxima de Deus. Continuo frequentando o Centro espírita, mas não integro mais aquele grupo. Quando me sinto mal, sempre encontro alguém com quem conversar. Oro, leio muito e essa confusão física, mental e de sentimentos vai se ajustando.

Nesses últimos 2 anos conheci pessoas que não acreditam em Deus e que sofriam muito mais do que eu com crises de síndrome do pânico e depressão. Elas, infelizmente, não melhoraram. Eu, confesso, não sei como ajudá-las, porque o que me salvou, resumidamente, foi a fé. Foi acreditar na vida após a morte e que eu não deveria temer morrer. Foi acreditar que sempre estarei amparada espiritualmente. Foi acreditar que não posso temer ou me desesperar, pois mesmo nos piores momentos, Deus me reserva o melhor, o seu amor.

Bem, é isso. Nos vemos em algum voô por aí.