18 de fevereiro de 2015 12:03

Por Renata Poskus Vaz

Sei que não deveria ser uma pessoa rancorosa e teria que deixar para trás o tempo de humilhações que sofri durante toda a minha infância e adolescência no ballet, mas não consigo esquecer. Não me sai da cabeça as incontáveis vezes que fui chamada de gorda, como uma ofensa, com a conivência da professora.

Uma vez, eu estava no palco dançando quando um bailarino virou-se de costas para a platéia e estendeu o braço para me apoiar em um passo. Ele não ia me pegar no colo, apenas me daria apoio, sendo que eu sustentava meu peso sobre minha própria perna em um recurso do ballet chamado balance. Só eu via seu rosto naquele momento, quando ele me disse em pleno palco: “irmão, é preciso coragem!”.  Essa frase era de uma música da novela Irmãos Coragem (não sei se é da época de vocês rsrsrs). Ele queria fazer piada com o fato de ter que ser forte e valente o suficiente para “segurar” uma gorda. Essa mesma musiquinha ele cantarolava em todos os ensaios anterior à essa apresentação. Mesmo mostrando meu descontentamento para ele e minha professora, nada era feito. Quando ele me cantou essa música no palco, em plena apresentação, tive vontade de chorar. Mantive meu sorriso pois à minha frente havia uma platéia com centenas de pessoas que nada entenderiam se eu saísse de lá correndo, como minha vontade. Ninguém me defendeu na época. Senti-me humilhada, impotente e sozinha. Meu único consolo foi a justiça divina que fez dele, hoje, um homem 3 vezes mais gordo do que eu.

renata poskus + ballet 2

Mas não parava por aí. Recebi no Ballet o apelido de Jô, em referência à Joselina da Silva, a mulher que na década de 90 era a mais gorda do Brasil. Você deve estar se perguntando quantas centenas de quilos eu pesava, não é mesmo? Pois bem, nesta época, entre meus 15 e 17 anos, variava entre 57 e 60 Kg. Sendo que já media 1,72m.

Lembro que uma vez, toda contente, fui contar para a professora de ballet que havia feito uma dieta e perdido 2 Kg. Ela, então, disse: “nossa, perdeu onde? não dá para perceber”. Até que, em uma ocasião em que viajávamos para outro estado, me pesei em uma balança da rodoviária que emite um ticket com o peso e entreguei para ela. Pensava ouvir um parabéns e escutei: “não parece que você emagreceu”.

E isso não acontecia só no Ballet. Vira e mexe algum tio vinha me lembrar do quanto eu era bonita, mas que se eu emagrecesse uns 10 Kg ficaria muito mais. Ou as “amigas” do prédio que sempre me lembravam do quanto eu estava gorda.

renata poskus magra

Eu ficava muito triste e queria provar a todo custo que eu não era gorda. Mas parecia que quanto mais eu me magoava, mais as pessoas me chamavam assim. Eu era a Renata Gorda. Como consequência, desisti da dança e fiz loucuras para emagrecer depois, sempre sem sucesso e até com efeito contrário. Engordei dezenas de quilos e levei mais de 10 anos para me aceitar com todas as curvas e quilos extras.

Finalmente, a palavra gorda perdeu o peso negativo. Acho que foi após um pé na bunda de um namorado que não me curtia muito, e muito cansaço dessa história toda de usar um manequim 38. Eu jamais conseguiria usar um manequim 38 porque sou enorme. Ficava magra, cadavérica, chata, com saúde debilitada e ainda assim usando, no máximo, um manequim 40, 42.

O primeiro passo para minha transformação foi assumir: sou gorda, foda-se, ninguém tem nada com isso. Fui repetindo esse mantra para mim mesma até que me senti confiante para colocá-lo publicamente em práticaE ao invés de esperar que os outros viessem me chamar de gorda, eu me antecipava e me autointitulava. Então, foi que o inacreditável aconteceu. A cada vez que dizia que era gorda, mesmo que de forma positiva, como uma simples característica e nenhum demérito, ouvia: “nossa, não fala assim! Você não é gorda.”.

look renata poskus 1

Dia desses, por exemplo, fui à uma loja de departamento. Chegando lá, perguntei ao atendente: “moço, você sabe onde ficam as araras para gordas?“. Ele me olhou indignado e disse: “Aiiiiii, moça, não fala assim!”. Eu logo saquei o preconceito dele enrustido, e disse: “Não fala assim como? Vocês não vendem roupa para gorda?”. E ele: “O nome é plus size. Essa palavra que você disse é ofensiva”. E eu: “Eu sou gorda e não há nada de ofensivo em ser gorda. Você deveria rever seus conceitos.”

Enfim, isso sempre acontece. Na paquera então é mais comum. Acho que na ânsia deme agradar, alguns rapazes dizem: “você não é gorda, é gostosa”. Aí respondo: “Sou gorda e gostosa”. 

Há aqueles ainda que dizem:  “você não é gorda, é grande”,  “você não é gorda, tem ossos largos” e mais um monte de bla bla bla. Parece que é só para ser do contra, sabe? rsrsrs

Na família, depois que me assumi uma gorda feliz e bem-resolvida, ninguém mais me chamou de gorda. Parece que perdeu a graça.

Percebo que quando nos assumimos e lidamos de forma positiva com a palavra “gorda”, contribuímos para que seu efeito negativo e pejorativo seja desconstruído. A melhor prova disso recebi no ano passado. Ao perguntar para minha irmãzinha Luiza de 4 anos o que ela queria ser quando crescesse ela disse: gordinha. Na cabecinha dela, gordinha não é uma pessoa obesa. O que ela enxerga em mim e nas amigas que trabalham comigo são mulheres bem-resolvidas, bonitas, charmosas, divertidas e bem vestidas. Mulheres com quem ela, mesmo tão magra, um dia gostaria de parecer.

Quer coisa mais fofa? <3 <3 <3