11 de julho de 2009 23:11

Por um guarda-roupa redondo
Cheias de se sentir fora do padrão da moda, mulheres de medidas generosas obrigam a indústria a esticar os tamanhos

Por Claudia Jordão

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Ícone fashion de curvas escandalosas, a cantora americana Beth Ditto foi a primeira a se rebelar. Vocalista da banda Gossip, ela foi convidada a se apresentar em Londres na cadeia de lojas Topshop e não perdeu a chance de botar o dedo em uma ferida que faz parte do cotidiano das mulheres que vestem os tamanhos G e GG: a dificuldade de encontrar roupas. Beth disse que não aceitaria o convite em respeito às suas convicções. “Não acho justo aliar a minha imagem a um local que nunca me fez sentir bem-vinda como compradora”, escreveu em seu blog. E foi além. A cantora declarou que queria desenhar roupas de “moças grandes”, a exemplo da magérrima modelo britânica Kate Moss, que assina uma linha especial para a rede. “Se Kate pode, eu também posso.” Por que não? Na semana passada, mais de um ano depois do desabafo, chegou às lojas a primeira linha da cantora desenhada por ela para a Evans, grife de tamanhos generosos do grupo Arcadia, também detentor da Topshop.

Beth tem companhia de peso nessa batalha. Apesar de não haver um movimento organizado no mundo, as gordinhas estão cansadas de recorrer às lojas de tamanhos especiais, não encontrar peças que lhes caiam bem e pagar mais do que as magras pela mesma roupa. Ou seja, estão cheias de ser tratadas de maneira diferente. As clientes da rede de lojas britânicas Marks and Spencer protestaram contra uma decisão da empresa de vender sutiãs tamanho maior que 48 por duas libras (R$ 6,50) a mais. Resultado: conseguiram que a loja repensasse a política e cobrasse o mesmo preço. Houve, inclusive, pedido público de desculpas da empresa. Por meio de um cartaz, a M&S disse “We boobed” – boob é uma gíria em inglês para seio e a expressão quer dizer “bobeamos”. A situação é tão complicada no Reino Unido que até a editora de moda da revista Vogue UK se manifestou contra as grifes que vendem modelagens cada vez menores. Há duas semanas, Alexandra Schulman escreveu uma carta a estilistas como Karl Lagerfeld (Chanel) dizendo que as roupas de hoje só vestem modelos esquálidas. “Preciso chamar modelos muito magras para caber nelas”, disse. “Depois é preciso aumentar as curvas no photoshop (um programa de computador).”

O problema, no entanto, não é exclusividade dos britânicos. Consultora de marketing e fundadora do blog Mulherão, a paulistana Renata Poskus Vaz diz que a gordinha brasileira sofre para se vestir. Vaidosa e orgulhosa de seus 74 quilos distribuídos em 1,70 metro de altura, Renata gosta de se arrumar e sente falta de modelos compatíveis com o frescor de seus 27 anos. “Só encontramos roupas de gordinhas do tempo da vovó”, diz. “Quando achamos uma loja mais descolada, temos de desembolsar fortunas.” A carioca Fluvia Lacerda, 28 anos, conhecida como “Gisele Bündchen GG”, é modelo de roupas plus size. Bastante requisitada no Exterior – ela mora em Nova York -, Fluvia diz que as inglesas reclamam de barriga cheia. “No Brasil é muito mais difícil se vestir”, diz. “As roupas são feias, caem mal, parecem um saco de batata.” Em São Paulo no início deste ano, a top foi ao shopping e não encontrou uma peça sequer do seu tamanho. “Tenho a impressão de que o dinheiro de uma mulher que veste acima de 44 não tem valor no Brasil”, diz ela, que tem manequim 48, mede 1,72 m e diz não saber quanto pesa.

As mulheres que fogem ao atual padrão de beleza colecionam histórias de discriminação. “Fico revoltada quando entro em lojas que têm um corner para tamanhos especiais”, diz Fluvia. “Especial por quê? Tenho duas cabeças por acaso?” Renata também foi vítima. “Certa vez, ao notar que a camisa não fechava no meu busto, a vendedora me perguntou se eu não pensava em tirar um pouco do meu seio”, conta a consultora, que usa sutiã 44. “E eles, não pensaram em fazer roupas com tamanhos maiores?” Manter a confiança em si mesma com esse bombardeio é difícil – por isso a vestimenta adequada é tão fundamental. “Muitas vezes me fizeram pensar que eu era uma aberração”, diz Renata. “Mas estou apenas um pouco acima do peso e muito fora do padrão.”

Mas, como sempre há um outro lado da moeda, a valorização das gordinhas está sendo posta à prova. Inspiração para as mulheres que buscam harmonia com o seu corpo acima do peso, Beth Ditto foi demonizada pelo médico britânico Michael Mc- Mahon na semana passada. “Celebridades como Beth Ditto banalizam o sobrepeso e influenciam negativamente”, disse. “A obesidade reduz em dez anos a expectativa de vida das pessoas.” Fica o alerta para as seguidoras incondicionais de Beth: de nada adianta elevar a autoestima se a saúde não estiver também na medida certa.

Confira a matéria:

http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2070/artigo143861-1.htm