7 de abril de 2015 01:59 comportamento

Até que a gastroplastia nos separe…

Por Renata Poskus Vaz

Eles formavam um casal invejável. Eram inacreditavelmente felizes e amáveis, daqueles que não precisam de nada além de si mesmos para se divertirem. Eram capazes de passar horas sozinhos, no sofá, jogando conversa fora. Sempre tinham assunto, mesmo casados há quase uma década. Pelo olhar se comunicavam. Juntos eram um só. Sentiam uma atração irresistível um pelo outro. Namoravam como adolescentes. Eram amantes inseparáveis. Eram um casal de gordos.

A certa altura do relacionamento, com indicação médica, o casal optou pela gastroplastia. Ambos tinham alguns probleminhas de saúde, que poderiam se agravar devido ao histórico familiar de cada um. Decidiram, então, que seria melhor não operarem juntos. Primeiro um reduziria o estômago para ser amparado, cuidado e amado pelo outro. Após alguns meses, o outro passaria pelo mesmo procedimento, recebendo todo o amor, carinho e atenção em retribuição.

A escolha do primeiro a ser operado ocorreu quase como um sorteio. E como num gesto de gentileza e cavalheirismo, o marido sugeriu que ele operasse primeiro. Ele passaria pela experiência na frente da esposa, como um corajoso e desbravador guerreiro, para que pudesse amparar sua princesa no futuro, quando chegasse o momento certo dela operar.

Ele sofreu com a ansiedade da operação. Temeu a anestesia, a recuperação, as privações alimentares, mas aguentou bravamente com sua amada esposa ao lado, sempre presente e fiel. Chegou o dia tão aguardado da gastroplastia. Beijou sua amada e com lágrimas nos olhos entrou na sala de cirurgia.

Alguns meses depois, já com algumas dezenas de quilos a menos, o marido se olhou no espelho e viu um novo homem. Ele que não bebia, começou a beber. Ele que não fumava, começou a fumar. Ele que não gostava de badalações e tumultos virou frequentador assíduo de danceterias. Ele que não dançava, dançava o créu na velocidade 5. Ele que não se importava com roupas de marca, fez um cartão de crédito para poder parcelar suas Tommy Hilfiger. Ele que era um homem fiel à sua esposa gorda, agora tinha outras mulheres.

A esposa, então, se indagava se o marido havia de fato feito uma redução de estômago, ou se teria o médico se enganado e feito uma redução de moral ou de caráter.

Aquele casal feliz que todos invejavam já não existia mais. Foram separados pela bariátrica.

Historinha? Faz de conta? Não! Embora não cite nomes, essa é a história de muitos casais. Recebo muitos e-mails de mulheres e homens desesperados, dizendo que seus companheiros mudaram de personalidade após passarem por uma cirurgia de redução de estômago.

Mas será que eles realmente mudam de personalidade?

Muitas pessoas que decidem pela operação de redução de estômago não estão atrás de uma vida mais saudável, mas do resgate da autoestima. Não querem apenas exorcizar a ameaça de diabetes e hipertensão. Querem ficar mais bonitos, mais atraentes, ter menos dificuldade para encontrar roupas nas lojas, sofrer menos preconceito, ter uma vida mais fácil…

Então, quando emagrecem, redescobrem um novo corpo. Não mudam o caráter, revelam o que estava ali, adormecido, por trás do corpo gordinho.

Já perceberam que quase toda gordinha é boazinha? É a amiga leal, companheira, educada, que nunca sabe dizer não. Mas será que todas são assim mesmo? Ou criam uma espécie de personagem para não se sentirem rejeitadas por conta do peso? Uma gostosona chata e intragável pode ser convidada para uma incrível festa apenas por conta da sua beleza. Já a gordinha sente que precisa se esforçar para isso, ser legal e tolerante, mesmo quando não deveria ser. Aí, quando emagrece, liberta seu verdadeiro eu. Se sente mais bonita, mais confiante e mais segura. Aprende a dizer não, a se impor…

Alguns dos que operam o estômago desejam viver novas experiências sociais, de trabalho, sexuais… Abrem mão de seus antigos cônjuges, como se fossem partes de um passado gordo a ser esquecido. Ainda questiono-me se nesses casos, no passado, o amor que diziam viver era mesmo verdadeiro. Afinal, amores não deveriam desaparecer junto com quilos perdidos, não é mesmo?

Embora doa ver alguém que a gente ama se transformando em alguém completamente diferente, não só fisicamente, após a bariátrica, que devamos aceitar e libertar essa pessoa. Ninguém vira um adúltero porque emagreceu, a cirurgia não corrompe almas. Possivelmente, essa pessoa apenas não traía antes por não se sentir bonito ou confiante o suficiente para isso.

Mas, calma! Se seu marido ou esposa vai passar por uma cirurgia barátrica por indicação médica o apoie incondicionalmente. Não crie barreiras e limitações com medo de perder quem você ama para a vida magra. Isso porque nem todo mundo que opera tem deficiência de moral ou caráter. Nem todo mundo que opera tem baixa estima. Nem todo mundo que opera tem uma personalidade complicada escondida.

Encare como um teste, uma provação para o seu amor.  Se ele ou ela emagrecer e ainda assim permanecer ao seu lado, é porque seu amor foi, é e sempre será verdadeiro. <3

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