30 de abril de 2015 00:50 Dia de Modelo

As incoerências da agência Mega Model na contrat …

Por Renata Poskus Vaz

Há uns quinze dias, uma leitora do Blog Mulherão me contou sobre o processo seletivo de modelo plus size pelo qual passou na famosa e até então renomada agência Mega Model Brasil., que fica na capital paulista Segundo ela, bastou se inscrever no site da agência para ser chamada para uma avaliação presencial.

Chegando lá na agência, segundo ela, foi medida, avaliada e recebeu a orientação de escurecer os cabelos. O segundo passo dado pela agência era o de fazer um novo book fotográfico no valor de R$1600 com fotógrafos indicados por eles.

Durante essa conversa com a minha leitora, havia também presente uma famosa modelo plus size que disse ter passado pelo mesmo processo, tendo sido exigido dela o mesmo pagamento pelo book, o que ela não aceitou. Segundo essa modelo plus size, que decidi preservar o nome, essas seleções não são feitas para a cobiçada Mega Model, mas para uma empresa do grupo, a Mega Talents, uma espécie de agência de figurantes e modelos comerciais, com forçoso processo de venda de books.

Estranhei esta obrigação, pois conheço outras modelos plus size agenciadas por filiais (ou seriam franquias?) da Mega Model de outras cidades e estado, entre elas Aline Zattar, a eterna Miss Brasil Plus Size. Todas modelos já famosas, consagradas e de nenhuma delas foi exigido o tal  book. Em São Paulo, na Mega Model Brasil, tenho o conhecimento de uma única modelo plus size agenciada por eles, sem a necessidade de cobrança de books, a Maria Luiza Mendes. Acreditaram nela, em seu profissionalismo e beleza e pronto.

Testei e não aprovei

Fui testar esse procedimento da Agência Mega Model Brasil. Minha ideia era ir até o fim, fazer uma reportagem investigativa de verdade. Mandei minhas fotos para o site da agência em um dia e no outro recebi uma ligação de uma produtora chamada Magali. Ela não me perguntou nada sobre experiências anteriores, apenas pediu que eu fosse na agência para uma avaliação no dia seguinte, lá na Mega Model.

Fiz uma única pergunta:

É para a Mega Model Brasil ou para a Mega Talents?

Ela respondeu meio receosa. Disse que era para a Mega Model Brasil, pois a Mega tem vários grupos, inclusive o Talents, mas que todos são Mega.

Na hora aceitei, e ela disse que me passaria o endereço por whatsapp

Eu havia acabado de passar por uma cirurgia dentária. Então, imediatamente pedi via whatsapp que me dessem a oportunidade de fazer a avaliação na semana seguinte, quando recebi o seguinte arquivo de áudio (antes de ouvir, preparem-se, dói…) de uma pessoa identificada como Mary:

Em primeiro lugar, sempre desconfio de abordagens como essa, em que querem forçar uma tratativa comercial se utilizando de chantagem emocional. Se eles são uma agência, vivem de fazer avaliações. Não entender um motivo de saúde é quase uma exploração, desumanidade, mas até aí tudo bem, as regras são deles e cabe a nós aceitarmos ou não (no meu caso, prontamente agradeci e disse que não iria).

A maior manipulação neste áudio está, ao meu ver, em falar do folhetim adolescente Malhação e de um programa de TV, para mostrar que lá chovem trabalhos. Isso mostra também o total desconhecimento dessa assistente com o mercado plus size. Uma gorda paulistana, de 33 anos, modelo, sem DRT de atriz sabe muito bem que Malhação não é e nem nunca será uma oportunidade de trabalho. Foi uma abordagem imatura e ridícula. Seria a mesma coisa que, hipoteticamente, me dizer que lá estão fazendo testes para um filme pornô. Não é a minha praia, não tenho interesse nisso.

Para completar, uma série de erros de português que doem na alma.

Vou transcrever o áudio aqui:

Então, Renata, porque é assim… Como A GENTE ESTAMOS fazendo um casting para o novo elenco da Malhação, e também estamos em gravações pelo programa novo que A GENTE COMECAMOS, a gente só tem para amanhã e para sábado. Infelizmente, para semana que vem A GENTE NÃO TEMOS. Você pode tá vindo, você explica para o produtor qualquer coisa, NÃO TEM POBLEMA ALGUM. NÃO TEM POBLEMA ALGUM. Você escolhe se quer vir amanhã mesmo ou no sábado, pode ser?

Não, não pode ser, pensei. Enfartei! Morri junto com a língua portuguesa assassinada por essa atendente. Como uma agência com tanta credibilidade de renome coloca uma mulher com domínio precário da língua portuguesa para falar em nome da Mega Model via whatsapp? Querem me chamar de preconceituosa, podem me chamar. Eu cometo erros de português aqui, mas em 30 segundos proferidos neste áudio há uma infinidade de erros que mostram falta de cultura e total amadorismo. Como levar uma emprsa dessa a sério?

Minha reportagem investigativa acabou por aqui, eu não sobreviveria a um teste presencial com gente assim.

Enfim, a Mega Model cobra ou não cobra books?

Quando a Mega Model acredita que uma modelo tem potencial, ela não cobra books. E isso é declarado publicamente por Eli Hadid, fundador da Mega Model. Em entrevista para a revista Veja SP, em 2010, ele disse o seguinte:

“Existe uma indústria para tirar dinheiro das meninas. Se alguém cobra o book, é porque é picareta”, afirma Eli Hadid, fundador da Mega Model. “Deve-se investir no contratado e ganhar o retorno em cima do seu trabalho.”

Mas não é isso o que constatei em algumas pesquisas. O Diretor Comercial da Mega Talents, Vinícius Magalhães, ao responder no Reclame Aqui o comentário indignado de uma pretendente à modelo, afirmou a exigência do book. Veja parte do comentário dele:

“Sobre o material fotográfico, por razões de uso de imagem, padrão de agencia e direitos autorais do fotografo, a agencia MEGA MODEL reserva-se no direito a trabalhar apenas com materiais produzidos no nosso estúdio, pois assim garantimos a qualidade que o cliente precisa para realizar as contratações do modelo. ( Esse procedimento não é único na Mega Model, toda agencia possui o seu próprio material e padrão de imagem – que por sinal, o da mega é o mais exigente e completo) (…)”

Vejam bem, o problema não está em se vender ou exigir um book, mas passar na mídia a imagem de uma agência idônea, que isenta as modelos desta obrigação e depois mudar o discurso nos bastidores.

A Mega Model trabalha com modelos plus size?

Mais uma vez a contradição. A Mega Model chama dezenas de gordas para suas avaliações e vendas de books, mas o discurso de seu diretor é outro. Em entrevista para Álvaro Leme, do R7, Eli Hadid fez a seguinte declaração sobre o mercado plus size:

“Não entro. Pode ser o melhor mercado do mundo, mas meu negócio é o glamour. Não entro nisso.”

E então, diante da bobagem proferida por Eli, Álvaro Leme perguntou novamente se não podia ter glamour no plus size e acrescentou que as gordinhas ficariam bravas com ele. A resposta foi:

“Não, pelo amor Deus, não me entenda mal. O que quero dizer é que trabalho com o estilo típico, clássico de beleza. É no que acredito.”

E agora, em quem acreditar? Na Mega que diz que não há glamour no plus size, que mulheres gordas não fazem parte de seu negócio e que estão bem longe de serem clássicas, ou na Mega que quer vender books e mais books para suas new faces?

Conclusão

Mandei mensagens para a Mega pedindo esclarecimentos e não obtive retorno. Coloco o Blog Mulherão aberto para esses esclarecimentos que não vieram. É triste ver subestimarem um veículo que teve, apenas no mês passado, quase 1,5 milhão de page views.

Tirei minhas conclusões por observações e depoimentos. Nitidamente a Mega Models Brasil tem dois departamentos, o fashion, com modelos famosas, internacionais, que conhecemos. E a Mega Talents, que é o departamento comercial, que precisa dar lucro com cursos, vendas de books e trabalhos com menores cachês, que não eram aproveitados pela ala fashion da Mega Model Brasil , e que eventualmente pinguem e ajudem a sustentar toda essa estrutura.

Acredito que a agência deva alinhar o seu discurso. Não dá para um diretor dizer que não quer gordas e sua equipe comercial ir para cima dessas mesmas gordas desprezadas por seu diretor. Não dá para dizer que é picaretagem vender books e vender também.

É necessário investir em profissionais que falem corretamente e passem credibilidade pois, o contrário, além de passar péssima impressão para seus consumidores de books, também ajuda a queimar a agência com clientes maiores, como agências de publicidade.

No mais, embora esteja crítica cobrando uma postura mais profissional e clara desta agência, torço para que o departamento plus size caia nas graças de sua diretoria. Que a Mega, assim como a Ford, mesmo que devagarzinho e com poucas modelos plus size contratadas, mostre estar antenada com o progresso de democratização da moda que está aí.

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