5 de junho de 2015 12:59 comportamento

A homofóbica que existe em mim

Por Renata Poskus Vaz

Temos muito preconceito da palavra preconceito. Não queremos admitir que somos preconceituosos porque nos soa como se, na verdade, estivéssemos sendo chamadas de terríveis monstras sem coração. A verdade é que todo mundo que desconhece alguma coisa e emite um julgamento precipitado é preconceituoso.

Todos nós temos algum conceito pré-estabelecido, um julgamento formado, sobre algum determinado assunto. Você pode, por exemplo, achar que mães que entregam seus filhos para adoção são más mães, pois no seu conceito, acredita que uma mãe jamais abandonaria seu filho. Porém, se analisar profundamente, descobrirá que mães que entregam seus filhos para adoção, estão quase sempre interessadas em um futuro sem privações, mais seguro e muito melhor para seus filhos. Você não conhece a realidade, dificuldades e necessidades daquela mãe, mas emite seu conceito sobre a atitude dela, julga, é preconceituosa, mesmo não desejando em seu íntimo o mal daquela mulher.

amor homossexual 1

Dia desses me vi com outro tipo de preconceito. Sempre tive amigos gays, frequento baladas gays, trabalho com gays. Gays assumidíssimos em um mundo mais acolhedor, o da moda. Já os conheço assumidos, nunca conheci alguém que se revelasse. Porém, um dia, uma amiga minha, por quem tenho muito carinho, modelo plus size, dessas com quem eu falava inúmeras safadezas entrando em mínimos detalhes, inclusive, sobre a anatomia e desemprenho dos homens com quem nos relacionávamos, fez uma declaração de amor para sua namorada, no Facebook.

Sim, aquela mulher deslumbrante, extremamente feminina, sensual, safadona, estava apaixonada por outra mulher. Minha amiga estava, inclusive, namorando há mais de um ano com ela. E eu não sabia de nada!

Na hora, quando vi, fiquei indignada. Como assim? Ela gostava de macho-cho! Mas ela é tão feminina! Como “isso” aconteceu? Demorei dias digerindo o que tinha visto. Foi quando percebi: caraca, existe uma homofóbica dentro de mim!

Percebi que era receptiva a casos de amor entre gays distantes, mas que quando isso aconteceu perto de mim fiquei chocada. Não me manifestei, não a ofendi, não a hostilizei, não senti ódio, mas me causou estranhamento, porque eu tinha um conceito pré-estabelecido de que mulheres lésbicas e bissexuais talvez não fossem tão femininas. E por mais que eu não quisesse o mal dela e que estivesse feliz em vê-la feliz, algo dentro de mim buscava explicações sobre o fato.

E, de fato, não ter preconceito é aceitar sem questionar.

Deixando o emocional de lado, percebi que não há explicações para o amor. Minha amiga era livre para amar quem bem entendesse. Ela não tem e nunca teve a obrigação de seguir a minha cartilha hétero do amor. Percebi que a única coisa que importava é que eu deveria sempre torcer por sua felicidade. Aliás, eu nunca havia visto antes ela tão feliz assim!

O significado exato da palavra homofobia é medo de gays. Isso mesmo! Não é ódio, mas medo. E porque eu tenho que ter medo do amor? Gente bem resolvida, que se ama, não se incomoda com a felicidade alheia. Não se mete em amores alheios, não de ofende com as diversas formas de amar. Gente bem resolvida aceita. Gente bem resolvida apoia.

A gente adora ver a “bichinha” engraçada da novela, mas não quer nem imaginar em ter um filho assim. A desculpa é a de que temos medo de que o filho sofra com o “preconceito”. Mas a verdade é que o preconceito vive dentro da gente, nós seríamos capazes de fazer um gay sofrer e por isso não queremos que alguém que amamos passe por isso, que enfrente ao longo da vida gente como a gente.

O que aprendi com essa história toda é que podemos nos surpreender, ao longo da vida, com preconceitos que mal sabíamos que tínhamos. Mas se formos pessoas de bem, que valorizam em primeiro lugar o ser-humano, mudaremos esse conceito. Sim, ele pode ser mudado. Nós podemos mudar. Nós podemos mudar para aceitar, respeitar e viver melhor com todos aqueles que fazem parte de nossas vidas.

Respeito. Isso sim é o amor.

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