4 de dezembro de 2015 12:47

Por Renata Poskus Vaz

Não acredito em coincidências. Embora meu público leitor seja predominantemente das regiões sul e sudeste, é de Brasília que vem a maior quantidade de denúncias de gordofobia de nossas leitoras. Elas relatam que, na cidade, o culto ao corpo perfeito é exagerado e os olhares para com as mulheres gordas muito cruel.

Veja, por exemplo, o print que recebi hoje. Um militar da Força Aérea Brasileira, de quem se espera nenhum preconceito, seja social, religioso, racial ou físico, postou o seguinte comentário no Facebook:

Rafael Cardozo militar de brasilia

Como não pensar: cara, se um dia minha vida depender desse cara, eu tô fudida perdida! E é sério! Como um militar pensa isso de mulheres que representam 50% da população que ele diz proteger? Ele não está protegendo. Está destilando preconceito, julgando, rebaixando… Nem toda mulher é gorda porque se entope de fastfood. Nem toda gorda é ociosa. Assim como nem todo militar babaca de Brasília é necessariamente saudável só porque é magro.

Este exemplo do militar gordofóbico Rafael Cardozo (e nem ouse vir com ameaças de processo, querido, porque você usou a foto de 2 mulheres para fazer chacota, tentou desmoralizá-las e ofendeu com isso muitas outras mulheres e eu posso usar a sua e seu nome para defendê-las!), representa um pouco do que vivem as gordas de Brasília.

Veja o que uma leitora narrou:

“Não sei como é nas demais regiões do país. Mas aqui em Brasília nota-se um grande preconceito com Gordinhas em relacionamentos. Sou uma prova disso. Os homens amam, se apaixonam e adoram uma gordinha mas tem vergonha de assumir um relacionamento sério por medo do que o Parentes e amigos podem dizer. Já passei e passo até hoje por situações do tipo. O cara soltar sua mão quando vê um conhecido, ou até mesmo apresentar você como uma colega de faculdade pra um parente, quando na verdade estão namorando. Os maioria dos homens daqui é super preconceituosa! A onda fitness aqui faz com que pra eles as gordinhas só sejam diversão e oculta. nada contra ser fitness eu malho, mas é difícil ser gorda em Brasília.”

Vai ter idiota que ao ler o trecho acima vai dizer que, se ela está incomodada, que então emagreça. Mas se fosse tão fácil emagrecer, com certeza ninguém iria querer sofrer preconceito, ser usada e ridicularizada.

Não existe uma pesquisa específica sobre a gordofobia em Brasília, mas nossas análises de campo apontam que por diversos fatores Brasília pode ter uma postura mais gordofóbica.

Brasília é uma cidade em que as pessoas costumam ter alto poder aquisitivo: políticos, servidores públicos etc reforçam essa lista. Quem tem dinheiro, também tem acesso à endocrinologista, nutricionista, academia, procedimentos estéticos, cirurgia bariátrica, spa etc. Tem acesso à frutas, verduras e legumes em uma das cidades mais caras do Brasil para se viver (e comer bem!). Com isso, as mulheres ricas de Brasília costumam estar mais em forma que as mulheres do povão.

Quem não tem dinheiro, não vai comprar um pé de alface  que não mata a fome de ninguém, se ele custa mesmo que um pacote de macarrão que alimenta a família inteira. Quem trabalha todo dia, 10 horas por dia, e ainda tem uma pilha de roupa em casa para passar, não tem tempo de malhar os glúteos na academia. 

Quem não tem grana nem para levar o filho doente no pediatra, não tem como fazer um exame hormonal para saber o porquê de não engordar. E se fizer, nem sempre terá grana para fazer o custoso tratamento.

Não existem quase lojas plus size em Brasília. Quando existem, não expõe em suas vitrines que lá vendem tamanhos grandes. Tudo tem que ser muito discreto, quase marginalizado.

A pior coisa de Brasília é ser gorda. Ah, mais isso vai mudar. Estamos aqui, distantes, mas sempre de olho. E ansiosas para que surjam novas vozes em Brasília para proteger nossas mulheres, para rebater qualquer babaca que ouse rebaixá-las por causa da forma, cor, peso, orientação sexual, origem etc. ♥