4 de março de 2016 20:00 comportamento

Fui ameaçada de estupro e ao pedir ajuda fui cham …

Por Renata Poskus Vaz

Hoje acompanhei meu pai na AACD, na consulta de minha irmãzinha. Eu queria apoiá-los em um momento difícil, quando ela receberia o diagnóstico se teria que operar ou não. Mas eu tinha outros compromissos profissionais, já que domingo dirijo um evento importante.

Saí do hospital sozinha, rumo a um ponto de ônibus na Rua Borges Lagoa. De longe, vejo três mulheres uniformizadas, acompanhadas de 1 homem também uniformizado. Eles sorriam e brincavam. Lembro que isso me chamou a atenção, o quanto eles estavam felizes. O rapaz atravessou a rua correndo. Dei um passo ao lado para que ele pudesse passar. Ele veio perto de mim e sussurrou: “Loira linda, vou te comer.”

Achei tão nojento, mas tão nojento! Fui pega desprevenida, em um momento em que me despi de qualquer desconfiança e fui gentil lhe cedendo passagem. Ao ouvir aquilo, aquela ameaça: (sim, porque um cara falar que vai te comer, é ameaça de estupro!). Enquanto ele descia, pedi ajuda para as mulheres que o conheciam e vinham logo atrás: “Moças, vocês trabalham com aquele cara? Ele me ameaçou, me ofendeu. Quero saber onde ele trabalha”. 

Duas eram haitianas, pareciam não entender nada. A terceira, brasileira, disse: “nossa, que estranho, ele é uma excelente pessoa, jamais diria isso”. Eu não acreditava naquilo, não acreditava que mulheres estavam virando as costas para mim, duvidando de minhas palavras. Então, respirei fundo e lembrei que elas também eram vítimas, sem perceber. Falei: “moça, nós somos mulheres, temos que nos proteger”. E ela me olhou com aquela cara de foda-se. Minha última tentativa veio coma  insistência para saber onde o assediador trabalhava. Na AACD”, responderam.

Corri, fui à AACD e lá perguntei se trabalhavam funcionários com os uniformes que usavam aquelas 3 mulheres e o homem. Não. As mulheres mentiram para mim, para encobrir o colega assediador.

Voltei correndo e tive tempo de avistá-las. As segui até o Hospital do Servidor Público, quando fui impedida de entrar por um segurança/porteiro terceirizado da empresa GOCIL. Pedi ajuda, avisei o que estava ocorrendo e ele me disse para entrar pela outra portaria. Simplesmente não se importou.

Era tarde demais. Perdi-as de vista.

Naquele momento, eu deveria desistir, virar as costas e ir para casa. Mas me lembrei da minha irmãzinha que poderia a vida inteira ter que frequentar aquela rua, aqueles hospitais e tem o direito de não ser assediada, muito menos por alguém que aparentava ser um colaborador dos hospitais da região.

Entrei no Hospital do Servidor Público, fui encaminhada para as gerentes que coordenam os colaboradores daquele hospital, que me mostraram que lá não havia funcionários com o uniforme que usava o assediador e as amigas. Fiquei arrasada. Aquele sentimento de que alguém te esculhamba, te ameaça e sai sorridente, zombando de você.

Saí. Quando passei pelo segurança, disse: “O senhor não me deixou seguir aquelas mulheres. Elas sumiram”. Ele nem me esperou terminar de falar, começou a gritar: “Eu não deixei? Sai daqui! Vai trabalhar sua desocupada! Arruma um trabalho!”. Eu gritei também na hora. Falei: “Eu trabalho. Aliás, trabalho pra caralho como jornalista para empoderar mulheres e impedir que elas sejam tratadas da forma com que você está me tratando, seu babaca!”. E ele não parava de me xingar e gritar. E como vocês me conhecem, voltei lá e respondi à altura. Pedi o nome dele, que virou o crachá. Mas deu tempo de ler o nome dele o qual repassei à ouvidoria.

Ao sair, vi um restaurante. Entrei, chorando, nervosa, desgastada pelas três violências: a ameaça de estupro e violência verbal, a falta de empatia das três moças que o conheciam e, por fim, o descaso e agressões verbais do segurança.

A gerente do restaurante me ofereceu ajuda, me escutou e diante das descrições que passei dos três funcionários, identificou-os. Eles trabalhavam lá! Uma coincidência tremenda! Ela poderia ter se feito de cega, surda e muda e poupá-los. Mas ela me ajudou e prometeu tomar providências. Pude identificá-lo, ele me viu, tremeu, só faltou fazer cocô nas calças de tanto medo. Foi praticamente uma acariação. Do momento do assédio, até a hora que o encontrei, se passaram 2 horas.

Não o denunciei à polícia. Eu senti que a gerente realmente estava indignada e que iria tomar providências. Recebi o apoio e amparo que tanto queria. Estava aliviada!

Em casa liguei para a GOCIL, mas segundo o atendente, só conseguiria falar na próxima segunda-feira com a pessoa responsável.

p.s: Resultado da consulta da minha irmãzinha: Nada de operação, apenas controle da escoliose com o auxílio de palmilhas. ♥

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