15 de agosto de 2016 21:59 comportamento

Como ser gorda com 16 anos e estudando no ensino médio

Por Jeniffer Escribano (leitora convidada)

Nunca fui alguém que passa despercebida. Sempre gostei de atenção, de ser olhada, mas, com o passar do tempo, acabei deixando isso de lado. Óbvio que não tem como fazer parte da paisagem da escola sendo a gorda do meu grupo de amigas magras, de cabelo vermelho, e que todo mundo sabe ser a fã que não deixou a fase rebelde desde 2005. Porém, no colégio, você só se sente alguém se tem muitos seguidores e curtidas do instagram. Você acaba querendo isso. Mas, pra isso, hoje em dia, você precisa ter um ‘’padrão’’.

Normalmente, esse padrão, inclui ser magra, o que eu nunca em toda minha vida fui. Isso nunca havia me importado, até o nono ano do ensino fundamental, quando comecei a perceber que tudo girava em torno desse tal padrão. Quando ouvia as outras meninas falarem mal da única outra gorda da sala, pensava: ‘’Deus, o que elas devem falar de mim quando eu não estou?’’.

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Foto reprodução Facebook

Foi aí que entrei pra academia, fazia zumba todos os dias da semana, mas não conseguia deixar de comer. Sempre gostei de exercícios, faço ballet há seis anos, e é minha paixão! Mas, o meu problema, era a reeducação alimentar. Não conseguia, não adiantava! Então, comecei a editar fotos para ficar mais magra, a seguir milhões de pessoas, pra ver se pelo menos conseguia uma moral nas redes sociais, e aos poucos eu consegui, mas quando finalmente entrei no primeiro ano, senti que era muito mais que isso, já tinha minhas 100 curtidas em todas as fotos, mas ainda não era popular como as outras, e ai entrou outra questão: meninos.

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Foto reprodução Facebook

Caras em pleno ensino médio não buscam amor, uma namorada que eles gostem. Na sua boa maioria, buscam status. Dão em cima da menina que é mais famosa, que sai mais, que é mais bonita, não por ser o tipo que eles acham realmente legal, mas por ser o que os outros vão admirar.

Gostava de um menino da minha sala, sempre o achei lindo e ainda acho, mas desanimei depois de um tempo quando percebi que ele nunca me notou. Então, os caras que falavam comigo eram maiores de 19 anos, e não era algo que eu quisesse, pois faziam comentários do tipo ‘’essa blusa marca direitinho seu sutiã né?’’. Quando só falavam essas coisas, eu excluía, mas conversava com alguns, pra poder dizer que tinha algum menino falando comigo. Mesmo assim, passei boa parte do primeiro ano com apenas duas amigas em uma sala de 35 alunos. Foi nesse ano que comecei a me sentir um pouco mal, só usava blusa agarrada pra marcar minha cintura e meus peitos, que eram as únicas partes que eu julgava bonitas em mim.

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Foto reprodução Instagram

Tentava me vestir como as outras, mas era difícil, parecia que nunca ficava bom pra mim como ficava pra elas, sem contar na dificuldade em achar lojas que vendessem roupas jovens do meu tamanho. Então, uma madrinha de uma amiga minha começou a me mostrar o mundo Plus. Fiquei empolgada e comecei a procurar agências e castings, mas sempre ouvia que era nova demais, ou ‘’ você pode pintar o cabelo?’’, coisa que na época era minha marca registrada (ainda é, mas estou aberta a negociações hoje em dia) não podia deixar. Então, desanimei um pouco e depois de fazer um book profissional, fiquei esperando uma resposta da agência.

Em 2016, entrei para o segundo ano, a amiga que eu era mais apegada saiu da escola. Comecei a sentar mais no meio da classe e realmente fazer amizade com as meninas que eu já tinha alguma afinidade. Hoje tenho muito mais amigas por isso, contudo, o problema com meninos continua.

Vejo alguns que me olham, porém, nenhum chega pra conversar comigo, como fazem os que olham para as minhas amigas. Seja por Facebook, Instagram, pessoalmente ou de qualquer outro jeito, isso é algo que ainda me incomoda bastante sinceramente.

A questão da minha autoestima melhorou demais, mesmo eu ainda tentando me vestir de acordo com a moda das outras garotas de minha idade. Hoje em dia, eu achei bonito, eu uso. Tenho alguns receios que preciso melhorar, pois nunca acho que estou parecida com elas o suficiente, sempre parece que estou diferente, é horrível. Minhas amigas dizem que está bom, que usariam, mas na minha cabeça, quase nunca me visto de acordo com a moda delas, e sempre fico com receio quando saio com elas. Não deixo que percebam, mas isso é bem ruim, e estou trabalhando nisso, aos poucos, até fiz o famoso #ControllaChallenge, de cropped e shorts curto.

Tá de lado, entorta a cabeça pra ver…. hehehehe

O mais difícil no ensino médio é se encaixar, e você não se encaixa se não tentar ser você mesma. Aprendi isso. Minha sorte foi ter uma melhor amiga que sempre me apoiava e me animava, se eu estava triste, era ela que estava ali para me animar, isso por que ela mora do outro lado do país e mesmo assim era a pessoa perfeita pra mim.  A amizade é algo muito forte, se você tem alguém assim, não deixe ir embora, pois é libertador ter alguém pra te apoiar, não importa como.

Ainda tenho algumas lutas internas comigo mesma, mas me ajudou demais ter minha primeira oportunidade como modelo no Fashion Weekend Plus Size. Acho que me senti demais, tipo, “caraca, eu estou em uma passarela, gorda mesmo, de cropped no primeiro desfile, com o cabelo e maquiagem lindos, então, por que não me achar linda e foda-se o resto?’’.

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Jennifer desfila Maria Abacaxita no Fashion Weekend Plus Size/ Foto: Adriana Líbini

Agradeço muito à Renata e as outras que ajudaram a me selecionar, foi um sonho, acredito até que depois disso, me acho mais ainda, e espero que isso só melhore com o tempo. Quanto a meninos, não há nada a fazer, sempre sou muito explosiva e muitas vezes chata por sempre dizer o que penso, mas quando o assunto é homem, eu sou uma romântica incurável, que lê de romance adolescente à Cinquenta Tons de Cinza, e não adianta, não consigo tomar iniciativa quanto a esse assunto.

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Jennifer desfila Mirasul no Fashion Weekend Plus Size/ Foto: Ricardo Oliveira

Não vou ser hipócrita e dizer que pouco me importa meus status no instagram, eu gosto, mas não é algo essencial e que eu fique louca quando uma foto não chega a 150 curtidas, hoje em dia é algo natural, tenho, gosto, tento postar as melhores fotos, mas não deixo isso me definir, não mais.

Se você é gorda e está no ensino médio, o único que tenho a te dizer é: seja quem você é. Não tente ser suas amigas magras, isso só decepciona, porque você não é como elas, você é você, e é linda assim mesmo!

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