10 de fevereiro de 2010 21:25

Por Keka Demétrio

No capítulo de segunda-feira, dia 07, na novela Viver a Vida, um dos sucessos da teledramaturgia da Rede Globo de televisão, a insuportável e invejável personagem Isabel disse que, em palavras bem colocadas, obeso também é deficiente físico.

Invejo a personagem Isabel, pois ela consegue enxergar a vida com muito menos melodrama do que nós, sempre educados para excluirmos e ao mesmo tempo sentirmos dó daqueles que não se encaixam dentro do exigido pela sociedade, mas confesso que o senso de realismo da moça chega ao extremo de torná-la má e desse tipo de gente eu realmente sinto dó.

Quando ouvi as palavras da moça meu ímpeto foi de esbravejar, mas como as novelas de Maneco sempre retratam a realidade, pensei em quantas pessoas que convivem comigo também não pensariam assim, que sou uma deficiente física porque ostento muitos quilos a mais.

Se levarmos em consideração as dificuldades que enfrentamos para ter acesso a alguns lugares, como passar por roletas de ônibus diante de olhares cheios de zombaria, ou mesmo na padronização dos assentos, onde nossos glúteos ficam saltando aos lados, podemos ser enquadrados nos “portadores de necessidades especiais”, embora muito me irrite esta denominação preconceituosa. Chamar um deficiente físico e mesmo a nós, obesos, cheinhos, fofinhos, ou qual adjetivo você preferir, de portador de necessidade especial é o mesmo que estar excluindo e colocando à parte da sociedade chamada “perfeita”. Ou seja, nos chamam de especiais porque nos consideram menos. Prefiro dizer que faço parte da diversidade que a sociedade insiste em não querer enxergar, e que quando enxerga é com preconceito e discriminação.

Diante de todas as deficiências existentes, a única que consegue fazer com que você realmente deixe de viver é a deficiência intima. A falta de amor próprio, de autoestima, aniquilando a crença em si mesmo, na sua capacidade de superação e liberdade de escolha, passando a alimentar uma auto-piedade que vicia. Sentir dó de si mesmo é proibir a vida de acontecer, é fazer um esboço mal acabado de uma história que poderia ter sido outra. É perder o começo, o meio e o fim de sua própria vida.

O verdadeiro deficiente não é aquele que possui alguma alteração em algum dos segmentos do seu corpo, mas sim aquele que se auto-mutila pelas regras impostas, sufocando suas vontades e sonhos.