30 de maio de 2018 00:15

Ao longo de 10 anos atuando no mercado da moda plus size, tive a infelicidade de presenciar diversas confecções  (que eram grandes queridinhas do setor) fechando suas portas. Os motivos eram inúmeros, mas havia a coincidência entre algumas delas: quedas originadas após a troca de estilistas.

Nossa, mas como uma troca de estilistas pode definir o fracasso de uma operação em um prazo tão curto de tempo e sem margem de recuperação? Tinha minhas dúvidas.

Neste ano, após transferir a base da minha marca Maria Abacaxita do Rio de Janeiro para São Paulo, fui em busca de um estilista para me auxiliar na criação. Na verdade, eu queria passar toda a parte de estilo para uma terceira pessoa para que eu pudesse cuidar de outras áreas com mais afinco, como marketing. Queria menos trabalho, confesso.

Estabeleci um tema para a coleção e destaquei alguns elementos que eu gostaria presentes e pedi que alguns estilistas me apresentassem um pequeno esboço de coleção. Fui bem clara sobre quem é a consumidora da marca: romântica, delicada, divertida, jovem e também destaquei peças chaves, aquelas mais desejadas e sempre presentes: saias evasê e vestidos estilo pin up.

O que eu recebi eram propostas que fugiam completamente do perfil de minha marca. Ao relembrar que vestidos estilo pin up eram nosso destaque ouvi coisas como: “pin up é cafona”, “pin up está fora de moda”, entre muitas abobrinhas. Pin up é atemporal, em voga desde os anos 40. E mesmo que fosse o suprassumo da cafonice, essa é a identidade da marca e ela deve ser respeitada.

Lembrei que uma marca parceira, certa vez, mudou sua estilista e me convidou para um bate-papo com ela, para falar sobre o mercado. A estilista vinha de um grande portal de moda para magras, um dos líderes do mercado. Ela me pediu que definisse a marca e eu deixei claro que achava uma marca para as periguetes plus size. Ela fez cara feia, achou um absurdo, mas concordou. Disse que ia mudar o estilo da marca. Eu bati o pé e perguntei: “mas e as periguetes plus size vão ficar orfãs?”. Ficaram. A marca não sobreviveu mais 2 coleções.

Cada marca tem seu DNA e o estilista tem que ter muita humildade e dar uma baixada no ego para ser profissional e compreender que ele é que deve se enquadrar na marca e não a marca se adaptar a ele. Um bom estilista sabe enxergar seu produto em terceira pessoa. Não tem que desenvolver os produtos que ele acha bonito, que ele usaria… São os produtos que representam o cliente daquela marca. O desespero para imprimir seu estilo à toda coleção é uma vaidade que beira o amadorismo.

Pense em um restaurante italiano especializado em massas. Um dia, troca-se o chef que decide que massa está fora de moda e decide que a partir daquele momento vai preparar só frutos do mar. Frutos do mar podem ser chiquérrimos, mas quem sai de casa para comer lasanha em um restaurante que sempre vendeu lasanha, quer comer lasanha. O novo chef pode criar lasanhas com diferentes recheios e molhos, mantendo a tradicional e até inserir o tal fruto do mar em algum prato. Mas abolir o prato queridinho dos clientes substituindo por outro não tem cabimento, não é mesmo? O mesmo acontece com o estilo nas confecções.

É possível inovar e imprimir tendências das estações sem perder a identidade da marca.

Mas são os estilistas os grandes culpados? Não. Afinal, toda marca é gerida por alguém e este alguém é que deve conhecer seu público e bater o pé quando alguém deseja mudar a alma do seu produto. É preciso ser forte, acreditar no seu produto e ter uma ligação bem próxima com seus clientes.

É por isso que as grifes pequenas, autorais, com produção quase que artesanal, funcionam tão bem. Elas tem personalidade. E a personalidade das clientes que elas atendem e não necessariamente do estilista que as coordenam (quase sempre os próprios donos das marcas).

Achei bacana falar sobre minha experiência, pois sei o quanto tive que ser forte, acreditar em mim e não ter vergonha de dizer que o profissional não se enquadrava no espírito da minha marca. Talvez eu tivesse vergonha de dizer que além de blogueira, empresária, consultora de negócios etc, sou também uma diretora de estilo. Fui no aniversário de minha irmãzinha, de 9 anos, e ela me apresentou para as amiguinhas: “Essa é a minha irmã, ela é estilista”. Sim, sou estilista, pensei. Sim, eu sou.

p.s: a foto acima, obtida no Google, representa o trabalho de modelagem, que é, de forma popularesca, a hora que se transformam os desenhos das roupas em modelos em papel, para depois dar origem ao piloto das roupas. Um dia explico direitinho para vocês como funciona.