28 de junho de 2018 13:45

Odeio minha barriga, você deve pensar. Eu, por exemplo, me lembro de algumas situações ao longo da vida em que odiei profundamente a minha barriga. A primeira, eu deveria ter uns onze anos. Estava na praia, magérrima, de biquininho, em pé, apoiei o braço na cadeira de praia e não sei por qual motivo estufei a barriga. Minha avó (gorda), então, me repreendeu:

– Hey, não faça assim. Que feio, você é uma mocinha!.

Pareceu-me tão confuso. Mas a lição que ficou é que uma mocinha não pode ter uma barriga estufada, saliente. Talvez por isso, por anos, mesmo sendo bem magra, eu só usava maiôs na praia. Eu queria esconder a barriga que eu acreditava que os outros achavam indigna.

Anos depois, aos 17 anos, passei por uma avaliação no ballet que determinaria se eu iria me formar ou não. Havia uma banca de avaliadores e eu me recordo perfeitamente, com a mesma dor como se tivesse acontecido ontem, de quando eu fiz um espacate e minha barriga ficou estufada. Percebi o olhar do avaliador para a minha barriga. Ele não olhava meu movimento, minhas pernas, meu alongamento, ele olhava a minha barriga, apenas a minha barriga. Fui reprovada e a justificativa era uma só:

– Você está muito gorda para ser uma bailarina. Quando fez o Grand Écart você ficou com um barrigão, você viu? Você viu? Hein, você viu? – disse repetitivamente o avaliador.

Sim, eu vi. E foi a segunda vez que pensei: “Odeio a minha barriga!”.

Aos 20, já com muitos quilos a mais, ouvia direto: “você está grávida?”. E me magoava. O ódio pela coitada da barriga só aumentava. A verdade é que me fizeram odiar a minha barriga. Fizeram-me acreditar que ela era errada para uma mocinha, para uma bailarina, para ser apta, para ser feliz… Se nada tivessem me dito, eu continuaria achando que eu era uma menina normal e digna de ser feliz como qualquer outra.

Sempre brinco que quanto mais a gente odeia uma coisa, mais ela se aproxima da gente. E foi assim que em duas décadas a minha barriga foi crescendo, crescendo, crescendo… Demorei muito tempo para perceber que a minha barriga faz parte de mim. Que a gordura que abomino, foi adquirida em dias de muita diversão, comendo o que gosto, com gente que amo.

É claro que não posso descuidar da saúde. Muitas vezes, aqui no Blog Mulherão, eu comentei que sempre fico de olho na minha barriga, mais precisamente na altura da região do estômago alto e fígado, porque já tive esteatose hepática e o inchaço nessa região pode indicar um aumento no grau de gordura no fígado e debilitar a minha saúde. No mais, é tudo preocupação estética.

Eu estou envelhecendo e nunca estive tão gorda. Tenho 36 anos, peso 100 Kg, já não sou a menina de outrora, gorda com tudo duro e no lugar. A barriga cresceu e caiu. Às vezes a barriga não cabe na calça e se cabe, a calça fica larga nas pernas. Às vezes a barriga coça, transpira embaixo das dobrinhas e, por conta disso, tenho que redobrar o cuidado com a higiene. Não romantizo a obesidade, sei das minhas limitações, mas eu só quero é ser feliz. E, quer saber, nunca me senti tão linda!

Sinto-me linda pois não sou uma barriga, sou um conjunto de predicados que vão além das minhas características físicas. Não posso odiar uma parte de mim. Brinco que Apóstolo Paulo nos ensinou: “Em tudo dai graças”. E eu vou dar graças a cada parte do meu corpo, sempre.

“Ah, mas se pudesse não tiraria a sua barriga?” Hoje, creio que tenha autoestima o suficiente para ser feliz sendo gorda, magra, com ou sem barriga. rs… Se um dia ela me incomodar, eu tiro. Não tenho mais aquela necessidade de provar nada a ninguém e nunca assinei contrato vitalício de gordura.

Hoje, prefiro essa pochetinha que cai dignamente sobre a minha pepeca do que uma grande cicatriz em meu abdômen. Hoje, prefiro essa barriguinha fofa meio flácida do que passar horas em uma academia e me privar de comer coisas que adoro. Um dia, isso pode mudar. Não recrimino a cirurgia plástica e eu operaria sim se o incômodo e limitações que minha barriga me trouxerem forem maiores do que conviver sem ela. Nunca por preconceito alheio, nunca por não me achar bonita. Meu amor próprio vai além disso.

Se você também costuma repetir “odeio minha barriga”, mude o discurso. Admire-se, destaque o que acha que tenha de positivo, seja empática consigo mesma. Namore-se. Você é linda, acredite! ♥

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Agradecimento pelas fotos à Katia Ricomini, do Dia de Modelo Plus Size.

Make: Priscila Sattim Hair: Weelington Carvalho Blazer Pink: Reizz

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