17 de julho de 2018 14:32

Semana passada participei como convidada do piloto de um programa de rádio, que também será transmitido via Youtube, junto com uma musa fitness cujo nome não citarei (o foco não é ela, mas o pensamento que ela reproduzia). Para quem não conhece, piloto é um programa teste, um tipo de modelo para a emissora analisar, fazer ajustes, antes de finalmente colocar a atração no ar. Ou seja, não sei se esse programa realmente irá ao ar, por isso decidi falar sobre esse dia em que eu, gorda, tretei feio com uma musa fitness. Aquele momento não poderia passar em branco.

O tema do programa era quebra de padrão. Na ficha da apresentadora estava: plus size x fitness. Saquei na hora que esperavam um duelo, quando na verdade não é assim que tem que ser. Existem dezenas de gordas fitness, não são estilos de vida que tem sempre que se opor, conflitar. Pelo menos era isso o que eu pensava.

Antes fui consultada se eu me importava de levarem uma musa fitness também ao programa e eu disse que não. Seria patético não desejar pessoas diferentes de mim lá. Quem me acompanha há muito tempo sabe bem que eu gosto de trocar ideias, conhecer vivências diferentes, quero me misturar, não me restrinjo a conviver só com pessoas gordas.

Cheguei atrasada, mas aliviada porque a musa fitness também estava. Sentei na bancada, ao lado da minha amiga jornalista e esperamos a chegada da Musa Fitness. Uma moça alta, loira, olhos claros, bonita, que fez questão de colocar seus 2 troféus e faixas na bancada. Ela e seu assessor ficaram um bom tempo posicionando e reposicionando os objetos, para que tivessem um enquadramento perfeito na tv. Eu achei um pouco engraçado, mas pensei que muitas de nós, gordas, magras ou fitness, passamos por essa fase de querer reconhecimento por meio de concursos de beleza. Um exemplo são as gordinhas que se matam competindo em concursos de Miss Plus Size, mesmo lutando contra quebra de padrões, pois anseiam profundamente por reconhecimento e, em alguns casos, a oportunidade de jogar na cara daqueles que as perseguem o quanto são especiais.

No início do programa, a Musa fitness falou bastante, da carreira, da rotina… Até que a jornalista perguntou: “você gosta do que vê no espelho”. E ela respondeu: “raramente”. A mesma pergunta foi feita para mim e eu respondi: “eu me acho maravilhosa”.

Pronto. Vi ódio no olhar daquela mulher. E até entendo. Ela se esforça tanto, se priva de tanta coisa, se dedica tanto às dietas e treinos e está tão perto da “perfeição”, mas não se acha bonita. Como eu, gorda, ociosa, poderia me achar? Para ela, certamente sou uma fraude.

Deste momento em diante, a treta estava declarada. Foi tiro, porrada e bomba. Em certo momento ela disse que a obesidade era doença, rebati dizendo que a Vigorexia também.

Em diversos momentos ela insinuou que o fato de ser feliz como sou era uma farsa, falou sobre a saúde do gordo, e logo rebati dizendo que ninguém tem que ser desrespeitoso falando da saúde de uma pessoa gorda, da mesma forma que ninguém tem que ser desrespeitoso questionando os hormônios que atletas fitness tomam. Ela gaguejou, ficou meio constrangida e negou tomar hormônios, mesmo sua voz mais grossa denunciando o contrário.

Percebi, naquele exato momento, que eu começaria a falar coisas que a atacariam como mulher, sua vaidade e estética. Passei dessa fase. Eu não poderia rebater a gordofobia, atacando outra mulher com coisas que a fariam ficar tristes. Mas foi difícil escutar que gorda faz mimimi, pois ela por ser magra e bonita já sofreu preconceito também e estava lá, firme e forte.

Foi quando fiquei bem nervosa e disse: “este não é seu lugar de fala. Você não pode falar pelos gordos”. E expliquei que nenhum magro e lindo já perdeu algum trabalho por ser magro e lindo. E que gordos perdiam sempre. Fiquei bem nervosa com a total falta de empatia.

Como uma pessoa pode trabalhar como coach de emagrecimento se ela já pré-julga seus assistidos como feios, preguiçosos e vitimistas? Se ignora suas dores e batalhas? Pela primeira vez, quase me vi literalmente chegando às vias de fato com alguém por causa deste assunto.

Achei importante falar para vocês que você pode ser o que quiser, sem ter que atacar a amiguinha que tem um estilo de vida diferente do seu. Tratar bem um gordo não a transformará em uma gorda, fique tranquila. A existência gorda não inviabiliza a sua existência fitness. Somos mulheres. Somos irmãs. ♥