29 de dezembro de 2018 23:02 comportamento

Finalmente o ano todo cagado está terminando! Par …

Definitivamente 2018 foi um ano muito difícil. Ele começou para mim repleto de desafios que poderiam soar como uma feliz oportunidade de aprendizagem, mas a verdade é que eu já estava muito cansada para continuar a ser positiva sem fraquejar.

No final de 2017, minha sócia abandonou a Maria Abacaxita. Ela deixou para me falar na véspera do Natal, ou seja, eu que não entendia nada da parte técnica de confecção, teria que esperar até a segunda quinzena de janeiro de 2018 para obter socorro e recomeçar a minha empresa praticamente do zero. Eu pedia ajuda para os meus, até então, amigos de mercado. Gente que por diversas vezes muito ajudei. Percebi que o mercado não era tão amistoso como eu imaginava, ninguém me indicava nada relacionado à confecção. Indicar uma oficina, ou um fornecedor de tecido não representaria ameaça à produção de ninguém, mas ouvi muitos nãos e desculpas esfarrapadas. É claro que a gente tem que ajudar sem esperar retorno, mas não há como negar que a decepção nos dilacera diante dessa clara e agoniante revelação.

Lembro, por exemplo, quando convidei amigos para montarmos uma galeria de moda plus size colaborativa. E teve gente que foi lá, olhou, criticou a ideia e logo depois estava montando loja com outras marcas que, certamente, lhe ameaçavam menos do que a minha jovem filha Maria Abacaxita. As pessoas nunca somam com suas ideias: “nossa, que legal, vamos fazer juntas?“. No nosso mercado funciona mais ou menos assim: “que legal sua ideia, vou copiar, mas vou fingir que fui super original”.

Comecei a enxergar esses pequenos produtores com outros olhos. Via, por exemplo, empreendedora que bate no peito para defender o empoderamento e empreendedorismo da mulher gorda, mas se cagar de medo ao ver uma marca concorrente à sua entrando no mercado. E aí persegue, literalmente, a concorrente pelos corredores, olha torto em tom ameaçador. Típico de menina mimada do primário, que adora competir, desde que ganhe sempre. E isso não é fato isolado. Sempre digo que se soubessem o que rola entre os donos das pequenas marcas plus size, achariam super leve as tretas entre modelos plus size.

De certa forma, embora doloroso, foi excelente vivenciar tantos desapontamentos, pois consegui em 2018 separar o joio do trigo. Percebi que muita gente que se encontra na merda em nosso mercado plus size assim está por medo de concorrência, por mentalidade limitada, por não honrar compromissos e por não entender que juntos sempre seremos mais fortes. Também recebi ajuda de quem menos esperava, gente que deixou sua própria produção de lado para incluir a minha em sua linha fabril, o que me salvou, me deu ânimo e me mostrou que ainda há gente do bem por aí.

No fundo, a melhor coisa que aconteceu para a Maria Abacaxita foi ter ficado 100% sob minha administração. Embora tenha derrapado em algumas questões técnicas da fabricação das roupas, a marca se consolidou no mercado, conquistou uma legião de clientes/fãs e vi meu faturamento simplesmente triplicar em apenas alguns meses. Não foi milagre. Hoje vejo o quanto minha marca realmente vende (e provavelmente já vendia, sem que eu soubesse) e até onde ela pode chegar. Tudo o que faço é com muito amor e com a ajuda de uma equipe incrível que, se vocês querem saber, nem precisava trabalhar comigo, mas trabalha por acreditar na marca, por entender que vendemos amor em forma de roupa.

Tudo isso, toda essa aprendizagem obtida em tempos cagados, me fizeram cansar demasiadamente. Eu que sempre fui uma workaholic cansei. Cansei, cansei, cansei. Estou exausta e me perguntando até que ponto tudo isso vale a pena. Não estou falando só do meu esforço trabalhando, não, estou falando da energia negativa neste mercado, da inveja, das mentes fechadas, da concorrência muitas vezes desleal.

Enquanto minha marca crescia, via muita gente quebrando, muita loja fechando, muita gorda ficando órfã da loja que tanto amava, famílias do setor têxtil plus size tendo que passar por dificuldades inimagináveis. Eu sou solteira, moro na casa do meu pai, tenho uma vida com poucos luxos, então crise financeira pouco abala meu cotidiano de fato. Mas não sou egoísta, eu ajudei esse mercado a nascer e sofro quando o vejo doente.

Quando vemos feiras de varejo plus size crescerem, temos a falsa impressão de que o mercado está crescendo, que está tudo ótimo, perfeito. Mas não é bem assim. Está todo mundo lá, brigando, se matando nas vendas pequenininhas, afinal, é melhor pingar do que faltar. Nessas mesmas feiras de varejo, encontramos lojas online que antes vendiam quase meio milhão de reais por mês na internet e, agora, precisam participar de feirinhas para um lucro líquido de menos de R$10 mil.  Veja bem, R$10 mil é muito para mim, para você, para os pequenos produtores de moda plus size, mas não para uma loja que mantém mais de uma dezena de funcionários. Isso é sim preocupante. Há também as marcas de atacado. Encontrei, por exemplo, em um desses bazares, uma marca de jeans de quem eu comprava shorts a R$39 cada e que estava vendendo para o público de varejo por esse mesmo valor. Ou seja, é claro que a consumidora adora, mas lojas multimarcas revendedoras dessa marca acabam, indiretamente, sofrendo com essa concorrência desleal.

Isso deixa claro para mim que a sobrevida de lojas multimarcas, ao menos na região dos grandes centros, como São Paulo, Belo Horizonte, Minas Gerais e Porto Alegre, está com seus dias contados. Não há como comprar de marcas atacadistas que se aventuram no mercado de varejo oferecendo produtos para a consumidora final pelo mesmo preço que oferece para lojistas revendedores. Não dá. Antes as lojas multimarcas tinham orgulho de dizer a marca que compravam para revender, hoje elas escondem. Não é mais um atrativo divulgar uma marca que daqui há dois meses pode estar lhe prestando uma concorrência desleal. Agradeço todos os dias por meu sonho da loja multimarcas não ter se concretizado, ou, hoje, certamente estaria falida.

Ao longo do ano fiquei muito doente e cansada. Exausta é o adjetivo certo. Toda essa desilusão coroou com as eleições. Muita gente que admirava defendendo o indefensável: homofobia, gordofobia, racismo, elitismo e mais um monte de coisas que deixam guardadas com medo da recriminação. Foi duro ver como é de verdade tanta gente que eu admirava. E você pode até pensar que isso não tem nada a ver com o trabalho, mas tem sim. Como confiar em gente que não tem um pingo de humanidade? Neste meio tempo adiei o Fashion Weekend Plus Size, que seria entre o primeiro e o segundo turno, sem medo, sem culpa, pois não havia como fazer um evento tão grande em meio à tanta gente temerosa com nossa economia, com tantas agressões mútuas, com tantas incertezas, ataques, medo popular e empresas à beira da falência. No site do Full Figured Fashion Week, desfile em Nova Iorque no qual me inspirei para realizar o FWPS, deixa claro que só retornarão em 2020. A crise é global!

Estou cheia de planos profissionais para 2019. Neste ano que virá completarei 10 anos de atuação no mercado plus size. São 10 anos de Dia de Modelo, de Blog Mulherão e de minha carreira como modelo plus size. Nossa, quanto tempo! Espero me recompensar de todo esse cansaço, pois parar, agora, não é meu objetivo. O que preciso e o mercado plus size também precisa, de maneira geral, é me reinventar, ser mais a Renata que sou e me preocupar menos com a Renata que dizem que sou.

Outro dia tentei olhar para mim em terceira pessoa. Sabe quando a gente se olha de fora? E o que eu vi foi uma mulher batalhadora, que trabalhou quase todos os fins de semana de 2018, dormindo em ônibus, comendo mal, carregando 30Kg de mala nas costas, brigando pelo que acredita, criando, lutando, tentando ser justa e aprendendo sempre. Como não amar uma profissional assim? Quando falamos de autoestima, não estamos só falando do que vemos no espelho, mas dos nossos valores. De alguma forma, eu deixei essa autoestima perdida em algum lugar em 2018 e vou resgatá-la, nem que seja na marra. rs E que venha 2019! ♥

 

 

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