7 de janeiro de 2019 21:22

No inicio de 2018, decidi retomar meu tratamento psiquiátrico e fui assediada pelo médico que me atendeu no DR. Consulta, em que há anos sou cliente com minha família. Para quem não conhece, Dr. consulta é uma clínica médica, em que além de consultas com médicos de diversas especialidades é possível fazer alguns exames, tudo a preços muito acessíveis. Eu, que não tenho convênio médico,  frequento a clínica desde que ela tinha uma única unidade, em uma favela de São Paulo. Hoje são dezenas de unidades. O atendimento sempre foi de primeira, com equipamentos modernos e médicos atenciosos. No começo, muitos deles atendiam no Dr. Consulta por compromisso social. Não era raro ser atendida por um médico do renomado Einstein, por exemplo. Por conta disso, eu não quis tornar público, na época, o assédio que sofri. Não queria prejudicar o Dr. Consulta, que ajuda tantas pessoas.

Quis resolver tudo internamente, até porque demorei muito tempo para ter coragem de denunciá-lo. Eu sentia vergonha, muita vergonha, me sentia, inclusive, culpada. Tinha medo de ser desacreditada por ser uma paciente psiquiátrica. Eu poderia ter deixado para lá, mas a verdade é que aquele sentimento ruim não me deixava. Eu precisava denunciá-lo para superar.

Liguei para o SAC do Dr. Consulta e pedi que formalizassem o episódio. Contei que na primeira consulta o médico olhou muitas vezes para meus seios, o que muito me incomodou. Mas eu melhorei e acreditei que poderia “aguentar” essa situação. Relatei ao SAC que retornei ao médico, para uma segunda consulta, em outra localidade, desta vez com uma roupa que escondia meus seios. Sim, eu acabei me culpando por ser encarada de forma desrespeitosa, como se eu tivesse “pedindo” por isso. Como se a culpa fosse minha por não ter me comportado direito, sabe?

Gente, entendam bem, não era uma olhadinha para meus seios, mais parecia um cachorro faminto olhando a máquina de assar frangos. Fui simpática, mas ele continuou me encarando de forma maliciosa e, na minha saída, disse: “só isso? você veio de tão longe só para buscar essa receita?”. Foi uma frase sem sentido, dita com um olhar deveras malicioso e inadequado. Tudo isso relatei ao SAC. Só que no SAC do Dr. Consulta fui atendido por um homem que, é claro, minimizou o episódio reduzindo minha declaração em duas linhas, atenuando o assédio claramente sexual para uma simples forma indelicada de se comportar. Para me compensar, me propuseram usar o meu retorno para me consultar com outro médico, o que não aceitei. Eu queria ter direito à uma nova consulta com o consequente retorno e garantias de que o médico anterior teria sua conduta advertida.

Escrevi e-mails e copiei a assessoria de imprensa (maravilhosa) que interviu. Reiniciei meu tratamento com uma nova médica, tudo do zero. A médica me apoiou, disse que relataria o caso à sua chefia. Mantive tudo em segredo, até que no final de 2018, um rapaz que há alguns meses acompanhava minhas redes sociais foi pessoalmente me conhecer e pedir algumas fotos. Diante de testemunhas, quando perguntei como ele conheceu o meu trabalho, o rapaz disse que ele era o atendente que registrou a minha denúncia no DR. Consulta. E complementou: “você deu uma carteirada, disse que era jornalista, blogueira, então dei um google e te procurei”.

Eu fiquei muito envergonhada, sorri, tirei fotos com ele, agi de maneira amistosa, mas aquilo me feriu demais. Senti como se aquele meu segredo agora estivesse nas mãos de um funcionário do DR. Consulta que deveria manter sigi-lo.  Na semana seguinte, mais uma vez ele foi atrás de mim, em outro evento. Mas, desta vez, eu não suportei. Liguei para o Dr. Consulta mais uma vez e lá só havia homens para me atender no SAC. Escrevi, então, um e-mail e a resposta da atendente é de que, diante do que presenciou nos meus prints, ele teve uma aproximação amistosa, por ter curiosidade, e que a culpa era minha de ter falado que era uma pessoa pública. O que ela queria que eu fizesse? Que eu tivesse chamado a policia? Gritado? Acabado com o evento que por meses organizei?

Isso me lembrou aquele caso em que um juiz inocentou um avo estuprador porque a neta nao gritou, ou o caso do BBB Adrilles, que perseguia mulheres e nao se achava um criminoso pois, na cabeca dele, ele era sempre muito educado com todas.

Leia mais sobre Adrilles: http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2015/01/adrilles-o-stalker-do-bbb-pior-do-que.html

Leia mais sobre a neta estuprada que nao gritou: https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,delegado-e-absolvido-de-estupro-da-neta-nao-ha-prova-segura-diz-juiz,10000052549

Gente, eu fiquei chocada! Já não me doía mais o assédio do médico e nem a ameaça do perseguidor que detinha conhecimento sobre meu assédio sofrido. O que me doeu foi ver uma mulher minimizando minha dor e querendo isentar o DR. Consulta de uma responsabilidade que é somente dele. Informações sigilosas vazaram de seu canal de comunicação, fui assediada novamente por meio de um funcionário (ela me disse que era ex, mas não importa, ele teve conhecimento da minha existência dentro do DR. Consulta). Foi um erro grave, uma violência sem tamanho, uma mulher sendo escrota com outra mulher. Mais uma vez liguei para a assessoria de imprensa do DR. Consulta e mais uma vez fui bem tratada por eles que me deram razão, que entenderam a gravidade da situação e prometeram levar o caso à direção da clínica. Depois disso, a atendente que outrora me culpou por tudo, me ligou e tentou reverter o irreversível.

Decidi tornar tudo público porque nao acho correto uma empresa ser empatica e assumir erros somente com a intervencao da assessoria de imprensa. O atendimento deve ser humano do comeco ao fim, erros devem ser assumidos de cara. Eu nao sou uma aventureira, nao quero processar ninguem e desde o comeco deixei bem claro isso. Nao preciso cacar likes com um assunto serio, que me envergonha. So tornei o caso publico, porque sei que ele ja esta nas maos de um cara que falou ter virado meu fa apos eu relatar um assedio.  Sou mulher, influencio mulheres e so nao quero que mais mulheres passem pelo que eu passei. Deixo publico e registrado, sempre lembrando que tenho documentadas as trocas de email, porque quero que outras mulheres saibam o que fazer diante desta situacao.

Continuo acreditando que o DR. Consulta faz mais bem do que mal, mas que denuncias como a minha devam ser levadas a serio. Mulheres devem ter a opcao de serem atendidas por outras mulheres e funcionarios devem ser advertidos que forcar contato com pacientes que conheceram via os canais da empresa, mesmo apos sua demissao, nao deva acontecer.

E, meninas, lembrem-se sempre. Nao e nossa culpa.

 

p.s: enquanto eu escrevia fiquei muito nervosa e bati em alguma tecla em que retirou a pontuacao. Quis postar o texto mesmo assim. Prometo corrigir em breve.