2 de junho de 2020 08:32 Maternidade

Meu relato de parto e o motivo de ter raspado a cabeça

O relato do nascimento do meu primeiro filho nos Estados Unidos

por Preta Zaros

(Alerta de gatilho emocional)

Acho que tem mulher que nasce pra ser mãe, e eu sou uma delas… mesmo com toda a reclamação diária e a falta de paciência que às vezes toma conta do meu ser todinho.

Minha gravidez não foi planejada, mas também não posso dizer que estávamos evitando. Quatro dias de menstruação atrasada – e com os peitos nunca antes tão doloridos – já eram a certeza que eu precisava.

O primeiro teste falhou e não mostrou resultado nenhum (CLARO!), e mesmo com uma garrafa d’agua atras da outra, foram quase 6 horas esperando a vontade de fazer xixi pro segundo teste. No fim, ver o resultado positivo do teste de farmácia não foi nenhuma surpresa.

Tive uma gravidez de baixíssimo risco. Sem nenhuma variação nos exames, o bebê nunca levantou nenhum tipo de preocupação e só engordei 7 quilos. Em compensação, aconteceu comigo todas aquelas coisinhas irritantes que CLARO não aconteceu com nenhuma das minhas amigas! Haha

Costumo dizer que se você quiser saber sobre gestação sem romantizar, eu sou a pessoa! 

Minha barriga demorou uma eternidade pra aparecer, mas estava la!

Dos 9 meses de gravidez, 7 meses foram de náuseas e enjoos. Nada que me levasse pro hospital, mas o suficiente pra me fazer ter medo de sair de casa. Acne (que não tive nem durante a adolescência), gengiva sangrando, prisão de ventre, queda de cabelo, e o de se esperar… me tornei uma bomba de gás ambulante. (DESCULPA JACÓ!)

O Ben estava previsto para nascer dia 26 de Setembro, e apesar dos planos de um parto normal, fiz questão de deixar explícito para minha médica que se o trabalho de parto se estendesse por muito tempo que partíssemos para uma cesariana. Deixei claro que confiava nela. Ela concordou, e por isso segui relaxada (coisa que não acontece com frequência). 

Meu sonho sempre foi amamentar, então no meu plano de parto, o ‘Golden Hour’ (que por aqui costuma ser o procedimento padrão) era algo que me deixava muito animada. Eu tinha tanta certeza que tudo ia acontecer do jeito que devia, que passei os nove meses de gravidez lendo e assistindo sobre isso. 

Me agarrei nos exemplos das minhas amigas, e achei que iria parir o Ben em questão de poucas horas. ACHEI! (Tontona né?! Haha)

Madrugada do dia 18 de Setembro.

Acordo com os nossos gatos, Chell e Sumouski, miando e pulando em mim. Coisa que eles nunca fizeram antes. 

Olho no celular. Quase 3h15 da manhã. 

Putissima, decido levantar (ou no caso, rolar da cama) e ir fazer aquele xixi que eu parecia estar segurando há milênios.

Na volta percebi que o pote de comida dos gatos estava quase vazio e decidi resolver o problema antes que me acordassem de novo. 

Abaixei. Daquele jeitão doido que fiz até o último dia de gravidez. Quando subi… senti uma pressãozinha. ‘Eita caceta! Xixi de novo?’. Não deu tempo nem de voltar pro banheiro.

Saí lavando chão, carpete, roupa, E ATÉ GATO, que decidiu que aquela seria uma oportunidade maravilhosa pra brincar. 

Sumouski e Benjamin, ainda no forninho.

Não foi nada como essas cenas de filme, onde a bolsa estoura e sai só o suficiente pra fazer aquela poçazinha malandra no chão. Comigo foi BEM DIFERENTE!

Vazei por horas. Fiquei horrorizada! 

Até hoje imagino se tivesse acontecido no meu colchão novinho. (GRAÇAS A DEUS E AQUELES GATOS!)

Fui até a porta da minha sogra – lavando o caminho todo – e bati. ‘Tammie, EU ACHO que minha bolsa estourou’. Sim! Eu ainda não tinha certeza. HAHA

Ela, mãe de três e avó de uma dúzia de netos, me disse pra relaxar. Minha bolsa tinha estourado mas sem contrações eu ainda tinha um tempinho. Mesmo há 3 minutos de distância da maternidade, não valia a pena correr pro hospital só pra ser mandada de volta pra casa. 

Decidi esperar o Jake voltar do trabalho. Não quis ligar e fazer ele vir correndo pra casa.  Pra minha surpresa, foram horas da mais pura calma, e quem me conhece sabe que sou um mundo de ansiedade.

Tomei meu banho. Limpei a lambança que fiz na casa, arrumei minha mala, separei umas coisas pro Jake, enxuguei o Clarence Sumouski.

Um pouco depois o Jake chegou. Contei pra ele que a bolsa tinha estourado e ele travou na porta do quarto. Ficou nervoso, mas não quis demonstrar. E tentando esconder, só fez merda. 

Não achava as chaves. Perdeu a carteira. Derrubou café no chão da cozinha, e o que eu achei que seria algo rápido, levou um tempão. Entramos no carro e ele dirigiu o mais devagar que eu já o vi dirigir. Achei até graça. 

Chegamos no hospital um pouco depois da 7:00 da manhã. Fizemos o check-in enquanto os enfermeiros brincavam com a gente por conta da nossa ‘calmaria’. Fui pro quarto andando porque tive medo de molhar a cadeira de rodas. rs

Chegando lá me colocaram naquelas roupas de hospital (Sim. Com a bunda de fora e tudo), e me deram UMA FRALDA SENSUALÍSSIMA. Super confortável. AMEI, e não posso negar! Haha

Se existia algum tipo de ‘limite pra intimidade’ entre o Jake e eu, aquele fraldão cruzou TODOS! #FRALDAORULEZ!

No quarto me surpreendi REAL. 

Um lugar duas vezes o tamanho da sala de casa, banheiro completo com uma hidromassagem enorme, e vista pra avenida em frente à maternidade. TUDO SÓ PRA MIM… e com um plano de saúde que nem ‘top’ é. Imagina se fosse!

‘Pronto. Na hora do almoço ele já deve estar aqui!’ HAHAHAHAHAHAHAHAHA GRANDE SONHO E ILUSÃO! As coisas teriam sido tão diferentes se isso tivesse acontecido.

TODA MONTADA IGUAL O PARTO DAS BLOGUEIRA, NE NOM?

Nada do que planejamos ou queríamos deu certo. E nem eram grandes planos. Tenho certeza que fui a grávida mais gente boa que minha médica teve (médica essa que estava em um congresso em outro estado, e que só vi no dia seguinte ao nascimento do Ben). 

O tempo foi passando e NADA de dilatação. 

Resolveram que era hora de induzir, e daí em diante tudo é um grande borrão. Tem coisas que lembro, mas não consigo colocar em ordem cronológica. 

Quando as dores começaram, recebi uma das minhas únicas exigências: anestesia. Pra mim, tem de ser uma pessoa muito evoluída pra escolher por conta própria parir sem anestesia. 

Vi a agulha enorme, e mesmo escutando todos os prós e contras que a anestesista é obrigada por lei a me falar, senti uma felicidade enorme sabendo que aquela agulha entraria na minha coluna. Ah, meu amor. Na hora da dor, não teve nada que me separasse daquela anestesia!

Mas como nem tudo são flores e tragédia pouca é bobagem: Pedi todas as drogas que eu tinha direito… e acabei sem nenhuma. SIM, A EPIDURAL NÃO PEGOU.

Cansados? Imagina!

Passei das 20 horas da noite até aproximadamente 3 horas da manhã numa dor que nunca senti igual. Eu apertava o botão da anestesia igual a louca e nada. Nem um aliviozinho se quer. E sempre que dizia para a enfermeira que a anestesia não estava funcionando, tudo o que recebia era um olhar de ‘desdém’, um sorrisinho dizendo que era normal e que ela não tinha nada pra fazer. Que a anestesia era assim mesmo. 

Até hoje me arrependo de não ter dado uns gritos com aquela menina. Hoje em dia eu não seria tão paciente e nem tão educada.

Durante as várias idas do Jake pra chamar a enfermeira por conta da minha dor, eu tive A SORTE ENORME da anestesista que tinha trabalhado em mim escutar sobre a minha reclamação. Ela estava a caminho de uma festa quando foi chamada pra atender uma grávida no quarto ao lado do meu.

‘Se ela ainda esta com dor, alguma coisa esta errada!’. Pronto. Em segundos, a anestesista resolveu o que a minha enfermeira não se deu nem ao trabalho de averiguar. A agulha que levava a epidural para minhas costas estava fora do lugar. 

LÁ FUI EU, SER ESPETADA POR AQUELA AGULHA, DE NOVO. Já tentaram se sentar, ereta e imóvel, sentindo uma dor nível 10? Not cool.

Essa anestesista = ANJO

Pedi muito por uma cesariana. Na verdade, eu implorei por uma cesariana… Mas sem minha médica, que era com quem eu tinha feito os planos, eles entraram naquela de ‘Não mamãe. Vai dar tudo certo. Você vai conseguir o seu tão sonhado parto normal!’ HAHAHA Gente, como eu falo que queria parto normal, mas que não fazia questão? 

Entendo – e acho lindo – essas mulheres que enxergam o parto natural de forma transcendental, mas eu não sou uma delas. Com a epidural funcionando, FINALMENTE, pude relaxar um pouco. Acho que foi o único momento em que eu e o Jake ‘aproveitamos’ o momento. 

Ele pediu uma pizza pra ele. Eu tentei dormir. Não rolou. Enquanto Beth, a nova enfermeira (que depois descobri ser a enfermeira chefe), me deixava mais confortável e via se estava tudo correndo como esperado, ela percebeu que algo estava errado. Minha temperatura estava altíssima. 

Mesmo com o Benjamin não mostrando nenhum tipo de alteração, foi constatado uma infecção em nós dois – por conta da demora pra nascer (minha bolsa já estava rompida há quase 29 horas).

A profissional que estava responsável por mim, antes da enfermeira Beth, sumiu. Não vi mais ela. (Antes de ir embora, a RP do hospital veio me perguntar se eu gostaria de fazer uma reclamação. O Jake quis, mas como eu ainda estava fora de mim acabei decidindo não fazer nenhuma. Me arrependo muito de não ter feito.)

Acho que foi aí que eles começaram a ver que as coisas estavam ficando mais sérias do que eles esperavam. 

Me deram antibióticos, e eu finalmente consegui dormir por alguns minutos. Acordei com a enfermeira Beth e a doula de plantão me dizendo que estava na hora. Senti um alívio absurdo! Um dos maiores que senti na vida.

O Jake pulou do meu lado da cama, e lá ele ficou. 

Aquele medo absurdo de fazer cocô na mesa? Esqueci! haha

Empurrei sem parar, por três horas seguidas, em TODAS as contrações que tive.

Nossa primeira foto em familia.

‘Respira fundo!’

‘Segura o ar!’

‘Faz força!’

Olhava pro lado e lá estava o Jake. Me segurando. Respirando fundo e segurando o ar. HAHA Ter ele comigo fez as coisas mais faceis. 

Senti que aquelas três horas demoraram meses pra passar. Mas hoje, quando lembro, parece que foram minutos.

‘ISSO É MUITO LOUCO!’, disse o Jake quando viu a cabecinha do Ben saindo, mesmo prometendo pra ele mesmo, durante os nove meses, que não iria olhar pra nada abaixo da minha cintura. Achei que ele iria se apavorar, mas no fim, parecíamos dois profissionais. rs 

Sem fórceps. Sem episiotomia. Se tudo tivesse acabado naquela hora, eu teria ignorado todo o resto e tínhamos voltado pra casa no dia seguinte. 

Mas não foi o que aconteceu.

Benjamin Link Zaros Tusing nasceu dia 19 de Setembro, as 10:55 da manhã.

Ele demorou trinta e três horas pra nascer, e quando nasceu, nasceu em choque. Foi uma correria. E até hoje nós não temos certeza do que aconteceu com ele. 

Os médicos tem a teoria de que ele enroscou no canal vaginal, que os empurrões acabaram lesionando a cabecinha dele, e que com a demora ele cansou e desistiu.

Ainda me pergunto o que teria acontecido se eu tivesse parado algumas contrações pra descansar. Agradeço todos os dias por não ter descansado.

Ele ficou duas semanas na UTI Neonatal do Mary Bridge Children’s Hospital, em Tacoma (tivemos a sorte de estarmos há minutos de distância de um dos hospitais pioneiros em atendimento infantil neurológico). 

O tratamento do Ben consistia em mante-lo numa espécie de resfriamento, pra que pudessem evitar qualquer tipo de inchaço na cabecinha dele e monitorar toda atividade cerebral em busca de convulsões ou algo incomum.

No dia seguinte, quando fui liberada do hospital e pude visitar ele, o bonito decidiu parar de respirar. NA MINHA FRENTE. Eu que por um milagre ainda estava calma, enlouqueci naquela hora. Tão pequenininho e já me dando taquicardia.

Você já levou um susto tão grande, a ponto de ficar sem falar? De travar? Foi o que aconteceu comigo.

Um tempo depois os médicos descobriram que a morfina era o motivo da respiração ter falhado. Ainda assim não me acalmei. 

MESMO NÃO SENDO DE REZAR, NAQUELE MOMENTO FIZ UMA PROMESSA. Eu trocaria a coisa mais bonita em mim, pelo serzinho mais bonito da minha vida. 
Meu cabelo, pela saúde do meu neném. 

Raspamos em casa. Em 10 minutos. Com a maquininha de cabelo do Jake.

Durante aqueles dias foram feitos um mundo de exames. O cérebro dele foi todo mapeado. Nada de anormal. Ainda assim, os médicos disseram que mesmo com tudo negativo, bebês na situação dele costumam demonstrar algum tipo de sequela motora (mesmo que leve). Ele iria engatinhar, andar, pegar coisas com as mãozinhas… só levaria um tempinho maior que o esperado. 

Demorei 4 dias para poder pegar ele no colo, e por conta de toda parafernália na UTI, só consegui colocar ele no peito com 12 dias de vida. Ele, claro, não pegou. Meu leite secou pouquissimo tempo depois. Nunca o amamentei.

Quando estávamos pra trazer ele pra casa, o médico plantonista comentou sobre terem ressuscitado o Benjamin na sala de parto. Foi um choque. Ele achou que nós sabíamos.

Curtindo um papo com a Grandma Tammie

Pois bem. Aos 11 meses o Benjamin já andava. E acredite quando eu digo que aqueles dedinhos pegam em tudo o que deve, e o que não deve. Haha

Chell e Sumouski? Parceiros do Benjamin pra coisa errada.

O plano de saúde? 171,203 MIL DOLARES. Até hoje recebemos alguns boletos, mas no geral cobriram tudo. GRAÇAS A DEUS, porque se não, teríamos entrado em falência (tivemos muita, muita, muita sorte).

Relaxando com o Sumouski e o papai, como fazem ate hoje.

Sempre prometi que se até meus 30 anos eu não tivesse ninguém, eu iria me programar pra ter um filho mesmo que fosse sozinha. Nunca me imaginei esposa mas ser mãe sempre foi um dos meus maiores sonhos, e é por isso que desde que o Benjamin nasceu faço questão de dizer para todas as minhas amigas, independente delas quererem filhos ou não: JUNTEM DINHEIRO. CONGELEM SEUS ÓVULOS. NÃO ESPEREM POR HOMEM! 

Dizem que mãe esquece do sufoco da hora do parto. A gente supera, mas não esquece. 

Pensei que depois daquilo eu não ia querer um segundo bebê, mas aqui estamos, eu e o Jacó, pensando quanto tempo seria legal esperar antes de dar um irmãozinho (ou irmãzinha) pro Benjamin.

Ou um terceiro. 

Talvez até adotar um quarto. 

Quer trocar relatos de experiências sexuais e tirar dúvidas com outras mulheres gordas? Entre no GRUPO SECRETO DO MULHERÃO, no Facebook, com entrada permitida apenas para mulheres: Clique aqui para acessar

MAIS MATÉRIAS INTERESSANTES