27 de julho de 2020 14:14 comportamento

Eu, Madisa Oliva e o exemplo da falta de sororidade feminina sobre o aborto

A questão do aborto é muito delicada. Embora tenhamos um estado laico, a religião não deixa de ser um fator determinante na hora de legislar sobre a permissão de interrupção da gravidez.

Antes de mais nada, quero deixar claro que sou uma mulher espírita e que, de forma alguma, praticaria o aborto. No entanto, a minha empatia me faz sair de minha zona de conforto e enxergar outras mulheres que vivem realidades completamente diferentes da minha, seja sociais, financeiras ou religiosas e que não querem ou sentem que não podem ser mães. Isso me leva a respeitar o direito que elas tem sobre seus próprios corpos.

Ontem, o Deputado Federal Capitão Agusto, postou em seu Facebook o seu projeto de lei:

Ou seja, mais um militar se aproveitando do momento político ultraconservador e querendo legislar sobre o corpo feminino. Nenhuma novidade até aí.

Então, fiz um comentário sobre isso, indagando o porquê de não se criarem leis mais duras sobre o não pagamento de pensão alimentícia e uma lei sobre abandono afetivo. Sim, pois há pais que suprem as necessidades materiais dos seus filhos, mas se negam a conviver com eles, como se fossem verdadeiros inimigos. Esse “aborto” paterno em vida, causa dor e danos psicológicos terríveis. E embora possa ser punido na justiça civil por meio de indenizações, não é tipificado criminalmente.

Para minha surpresa, ouvi uma enxurrada de críticas. A maioria delas femininas, e sempre com um cunho sexual forçado, como se insinuassem que, por ser a favor do aborto, eu teria uma vida sexual leviana.

Um desses comentários e que mais me chocou foi o de Madisa Oliva, baiana de Salvador e mestre em dança do ventre. Veja só:

https://www.facebook.com/capitaoaugustooficial/photos/a.1378716049015613/2692216664332205

Agora vou dizer o porquê me chocou tanto ver Madisa Oliva me desferindo essa DIFAMAÇÃO (é um crime, ela poderia ser denunciada por mim, mas preferi fazer essa matéria, para defender minha honra e não ocupar o judiciário com mais um caso de mulher que não sabe respeitar outra mulher).

Basta uma simples busca no Google para saber que Madisa Oliva é professora de Dança do Ventre. Inclusive, em suas propagandas compartilhadas em seu instagram, diz que a dança do ventre ajuda a despertar a feminilidade. Isso mesmo, a tal feminilidade que tantos homens querem coibir pelo mundo todo.

A dança do ventre é muito antiga, surgiu de 5 a 7 mil anos antes de Cristo. Era, inicialmente, um ritual de fertilidade do antigo Egito, para que mulheres se preparassem para ser mães. Com a invasão francesa no Cairo, por volta de 1798, as dançarinas do ventre começaram a ser perseguidas, pois os ocidentais viam essa dança como sensual, profana e impura.

Ou seja, a dança que Madisa Oliva defende hoje e que brilhantemente pratica e ensina, já foi perseguida e vista como arte de verdadeiras prostitutas. Essa perseguição foi, por décadas, algo odioso e reprovável. E foi com este mesmo julgamento odioso e reprovável que Madisa me desferiu as palavras difamatórias.

No mais, o corpo é meu. E para quem eu abro ou deixo de abrir minhas pernas é uma questão só minha. Atacar outra mulher depreciando sua sexualidade, criando conjunturas, é uma forma rasa e suja de se perpetuar o machismo e em nada acrescenta à discussão sobre a legalização ou não do aborto. É total falta de respeito, empatia e sororidade feminina.

FETO HUMANO NÃO SENTE DOR

Uma análise de estudos feita por médicos do Royal College of Obstetricians and Gynaecologistis, na Grã Bretanha, conclui que não há evidências de que os bebês sejam capazes de sentir dor antes de completar 24 semanas de gestação.

As conexões nervosas no cérebro não se formaram completamente, e o ambiente do útero cria um estado de sono induzido, como um estado de inconsciência, diz o estudo.

Ou seja, não há dor. Como também não há em pacientes com morte cerebral e que tem seus aparelhos que os mantém “vivos” desligados. Ou seja, o feto só existe porque há um “hospedeiro”, no caso a mãe, que a alimenta e permite que ele continue vivo.

Normalmente, as mesmas pessoas que atacam o aborto usando a desculpa que são pró-vida, acham correto que uma mulher estuprada aborte, ou que um feto com má formação também seja abortado, os dois casos garantidos por nossa lei. Ou seja, são pró-vida, desde que essa vida não seja filho de um estuprador e nem nasça defeituoso. Que seletividade pró-vida é essa?

É bom ressaltar que métodos contraceptivos não são 100% eficazes. E a mulher, obviamente, não é culpada por uma gravidez indesejada, se ela se preveniu dentro das suas possibilidades. “Olha para quem está abrindo as pernas” é uma expressão comum usada para atacar as mulheres que engravidaram de forma indesejada.

Outra coisa, só se conhece um homem de verdade após você precisar de fato da ajuda dele. Antes disso, tudo não passa de um conto de fadas.

Proibir o aborto não diminui a quantidade de abortos que são feitos todos os dias, em todo o Brasil. A diferença é que as mulheres de famílias abastadas fazem de forma cara, porém segura, mesmo que na clandestinidade. Já as garotas e mulheres pobres morrem nas mãos de carniceiros.

O projeto do Capitão Augusto, visa punir esses carniceiros. Mas os médicos caros que realizam abortos em filhas de madame, continuarão operando. Elas continuarão não tendo seus filhos indesejados. E as pobres continuarão com a mesma realidade, talvez piorada, praticando abortos domésticos e morrendo cada vez mais.

Criminalizar o aborto, não acaba com o aborto, viu Capitão Augusto? Atacar outras mulheres, também não. Viu, Madisa Oliva?

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