22 de março de 2010 20:38 comportamento

Espaço da leitora: Vivi Oliveira

“Fui recusada em um trabalho por causa da minha raça”

Pensei bem antes de escrever este texto, com medo de parecer piegas ou que as pessoas o entendam de forma pejorativa. Nunca levantei bandeira contra o preconceito racial, por considerar isso um tanto quanto pequeno em pleno século 21, além de,  sinceramente, acreditar que acima da raça encontra-se o ser humano. Entretanto, para minha absoluta surpresa e também para que eu comprovasse o quanto ainda sou imatura cedendo a pedidos dos quais desconheço a procedência exata, decidi não só escrever-lhes, mas também fazer um alerta. Jamais enviem fotos a desconhecidos ou divulguem as mesmas em sites dos quais não saibam efetivamente a conduta dos responsáveis por ele.

Fim de semana passado, recebi um telefonema no qual me propunham um trabalho. Durante a conversa, ela me pediu que enviasse duas fotos, uma maquiada e outra sem maquiagem, pois a marca que desejava meus préstimos gostaria de conhecer meu rosto. Prontamente e “burramente” enviei as mesmas.

Após alguns minutos, recebi um retorno da mesma pessoa que me procurou anteriormente, evidentemente sem jeito e pisando em ovos ela me disse: Oi Vivi, me diga o que você se considera…. Negra, mulata, morena ou branca? Só pude rir e dentro do meu eterno humor responder que me considerava “japonesa”, evidentemente à resposta foi dada num tom ácido. Ela educadamente, afinal notava se seu constrangimento emendou que eu me encaixava em tudo, mas que por eu ser negra não poderia fazer o trabalho… Tudo isso rodeado de mil desculpas, avisando que no próximo me chamaria e que ela cometeu o “”erro””  pois antes de perguntar minha descendência, pediu minhas fotos. Ou seja, sem querer me vi a frente de duas situações lamentáveis, uma por ter sido recusada para um trabalho por ser negra e outra que além de lamentável é bizarra, ter sido questionada sobre minha raça, sobre minhas raízes. 

O questionamento sobre o que me considero, além de burro demonstra uma imensa ignorância e uma dose de bizarrice com hipocrisia. Vivemos num país mestiço onde poucos podem afirmar descender de uma “raça pura”, sejam brancos, negros ou amarelos. Lamento passar por este tipo de constrangimento em um país onde no último SENSO constatou se que mais de 50% da população é mestiça.

Minha indignação resume se a apenas dois fatos: ainda haver atitudes racistas num país que se diz moderno, democrático e isento de racismo, em pleno século 21 e, mais ainda, por hoje em dia sermos passíveis de rótulos. Se eu me considerar negra sou negra, se me considerar branca viro branca e por aí vai, lógico isso diante de pessoas de pouca ou nenhuma inteligência.

Reafirmo que raça pra mim não tem significado algum desde que não se torne motivo de bulling, deboche, chacota, exclusão ou até mesmo protecionismo. Digo isso sem qualquer medo ou apelo piegas, afinal eu sendo negra, sou contra esta tal cota para negros em universidade. O foco não deveria ser cota para uma determinada raça, e sim ensino decente e digno para que todos competissem em pé de igualdade como há algumas décadas atrás. 

Afirmo isso de consciência limpa, pois sou universitária, meu pai que fez colégio público é mestre assim como minha mãe, que também fez colégio público. A diferença é que meu pai fez uma universidade conceituada particular e minha mãe fez uma universidade de referência mundial pública. Logo, ambos vindos de escolas públicas tiveram a mesma chance de cursar universidade. Concluo que antes de fazer apologia a cotas, ou usar camisetas que remetam à quaisquer tipo de discriminação, seja por da raça, condição da pessoa ou situação em que alguém se encontre, o importante e o fundamental é que todos tenham o mesmo direito à saúde, educação e  a alimentação, que estas sim devem ser à base de uma nação onde as pessoas se dizem inteligentes, democráticas e avançadas.

Inadmissível é alguém hoje ser julgado melhor, pior ou inadequado para algo devido ao seu tom de pele. Horrores já aconteceram por conta da cor de pele de alguém e mesmo assim o mundo de hoje ainda se prende a estes detalhes esquecendo o bem maior: a vida, o respeito, o ser humano. 

Quer trocar relatos de experiências sexuais e tirar dúvidas com outras mulheres gordas? Entre no GRUPO SECRETO DO MULHERÃO, no Facebook, com entrada permitida apenas para mulheres: Clique aqui para acessar

MAIS MATÉRIAS INTERESSANTES