28 de abril de 2010 21:14 comportamento

Por Eduardo Soares

Conheço uma senhora cuja historia de vida poderia perfeitamente virar enredo de filme. Não daqueles dramáticos, apesar de encontrarmos altas doses de emoção na historia em questão. Mas se pudéssemos criar uma classificação fora dos padrões normais existentes nas prateleiras das locadoras (ação, comédia, terror, suspense, etc.), acredito que “Superação” seria uma definição perfeita para a trama que vou relatar a seguir.

Ela, loira de olhos verdes, professora conceituada (apesar da pouca idade), oriunda de família tradicional do Rio de Janeiro. Mulher independente, mantinha a rotina “casa-trabalhos-casa” sem grandes preocupações. Volta e meia (quando encontrava tempo disponível) arrumava um namorado e chegou até a ficar noiva. Dona de personalidade forte (era do tipo durona), sem pensar muito desfez o noivado por achar que ali não haveria futuro e voltou a tocar a vida naquela rotina citada anteriormente. Estava tudo muito bom quando subitamente nossa personagem depara-se com o primeiro e (até hoje) único amor da sua vida. Antes da seqüência, só um comentário: dizem que só amamos uma vez. Amor mesmo, daquele que marca por toda vida. Podemos gostar de outras pessoas ao longo dos anos mas aquele  sentimento sublime e arrebatador só é dedicado para um(a) escolhido(a).

O eleito, cerca de dez anos mais novo do que ela, tinha apenas a oitava série do primeiro grau, era pobre e negro. Detalhe: estamos falando do inicio dos anos 70.

Para muitos, quarenta anos depois da época dessa historia real, ainda causa estranheza a presença de um casal inter-racial, em especial quando ela é loira e ele negro, como no caso relatado. Infelizmente presenciamos o preconceito em várias situações e em todo tipo de classe social. Aqui ele usa a máscara imunda do racismo mas conhecemos outras  demonstrações de preconceitos existentes e as vitimas, alem dos negros, englobam idosos, pobres, nordestinos, deficientes físicos, religiosos, gordos, entre outros.

Essa senhora relatou que o preconceito esteve em evidência dentro da própria família, para ser mais claro na figura de seu rígido pai. E, como ela possuía um gênio forte, coisa que as vezes soa de maneira desafiadora, ele entendeu a escolha da filha como uma espécie de afronta.

Dentre as inúmeras historias que tenho ciência, uma merece menção justamente devido ao teor do contexto: dia do casamento, casa cheia de gente e de certa forma a alegria era geral. Minutos antes de a protagonista sair rumo ao altar, o pai a chamou no canto e sem pensar muito disse: “Você não quer desistir desse casamento? Ainda dá tempo.” Enquanto ela manteve-se irredutível restou a ele apenas a resignação.

Ela largou as mordomias da família para morar com o marido. Ao tempo tempo, sabendo que o mundo torce a cara para os menos favorecidos ela fez do marido seu aluno-modelo. Fora isso, a vida de casal nunca foi fácil. Passaram inúmeros apertos. Dormiam no chão frio das cidades da Região Sul. Dividiam a pouca comida existente. E nesses momentos o que era medo/preconceito virou ironia: “Te falei…foi você quem escolheu. Agora vai ter que agüentar”, dizia o pai com ar de superioridade e sapiência. A mulher que tinha tudo nas mãos agora lavava roupa no tanque. Fazia faxina na casa sem ajuda de empregada. Tentava cozinhar algo, mesmo sendo uma catástrofe no fogão. Largou as escolas mais conceituadas na cidade para lecionar em vilarejos e periferias. E quem disse que ela se arrependeu? Palavras da mesma: “Foram os anos mais felizes da minha vida.”

Com tudo isso, ela conseguiu fazer do sujeito pobre e negro um funcionário bem sucedido da Petrobrás. Aí começara uma nova etapa na vida do casal. Juntos, eles conheceram quase todo país. Não a passeio e sim por causa do trabalho dele. E num desses caprichos da vida seus dois filhos trilham os passos dos pais. O mais velho atua na Petrobrás enquanto a mais nova seguiu o caminho do magistério (ela, inclusive namora um rapaz de origem humilde).

Aquele homem alvo de preconceito estava prestes a ser tornar professor de Matemática. Ao longo dos anos ele saiu do buraco e estava conquistando seu espaço na vida. Cinco anos atrás ele seguiu para o caminho da imortalidade e deixou um exemplo de superação a ser seguido por vários. Não tive o privilegio de conhecê-lo mas qualquer um que freqüente a casa onde ele viveu por quase 30 anos sente sua presença. Seja no banquinho branco de plástico localizado ao lado da mesa onde ela leciona nos dias atuais, ou nas fotos espalhadas pela casa e também em cada pedaço de papel amarelado com versos amorosos destinados a esposa, guardados até hoje como verdadeiras preciosidades.

Atualmente minha querida professora e amiga convive com vários alunos, dois filhos e o primeiro neto ainda no ventre da futura mamãe. Ela possui vitalidade e brilho que nunca vi igual. Parece que a ausência do companheiro a fez ficar fortalecida para seguir tocando o  restante da vida. Vejo a alegria estampada no seu rosto a cada historia contada. Mas a imagem de mulher durona continua conservada. Certa vez, perguntei a ela o seguinte:

– Você amou muito?

– Amor? Não sei…acho que não. Nunca amei ninguém.

Ela sorriu. Tentou explicar aquela frase inexplicável. Mas não teve jeito. Seu olhar marejado rumo ao céu era um misto de lembranças e carinho. Numa audácia enorme, poderia tentar traduzir o sorriso e o olhar da seguinte forma: dizem que só amamos uma vez. É amor mesmo, daquele que marca por toda vida.


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