18 de maio de 2010 21:02 comportamento

Feijão com Arroz

Por Eduardo Soares

São 22h34minhr e nesse momento escrevo dentro do ônibus e daqui a poucos minutos estarei atravessando a Ponte Rio – Niterói onde meus olhos sempre “namoram” a bela paisagem urbana noturna da cidade, iluminada em partes pela pista de pouso do Santos Dummont às margens da Baia da Guanabara e pelos carros cruzando perimetrais e elevados; adornada pelos luxuosos prédios da região e como bônus encontro duas barcas executando lentamente seus respectivos trajetos pelo mar quase adormecido. Eis um dos cartões-postais irretocáveis que fazem do Rio um lugar inesquecível.

Depois do namoro visual, uma situação diferente prende minha atenção.  Estou marcando no relógio: até aqui são sete minutos ininterruptos de conversa. Melhor dizendo, de monólogo feminino. A mulher fala pelos cotovelos, joelhos e todas as articulações existentes no corpo. Cabe ao rapaz a árdua tarefa de soltar um “hum-rum” seguido do balançar positivo da cabeça a cada frase dita pela moça. Isso quando ela deixa. Não fosse motorista (ainda tinha esse agravante, o cara estava conduzindo o veiculo) o rapaz tinha tudo para trabalhar no setor de ouvidoria daquelas empresas campeãs de reclamações.

Minhas caras, salvo uma ou outra exceção e com o perdão da palavra jurássica vocês são tagarelas natas! Querem outra definição antiga? Vocês são vitrolas! Quase gramofones! Opa, aí é usar muita velharia (pode não parecer mas tenho “apenas” 31 primaveras nas costas)! E posso confessar algo? Adoro esse tipo de mulher! Não deve existir nada mais agoniante do que presenciar aquele casal lindo que desfila de mãos dadas no shopping: ele, com a mão no bolso, parece segurar um controle remoto com o dedo no botão “mudo” enquanto ela se distrai com as belas bolsas das vitrines. Ambos calados, dos pés as cabeças. Passando pelas bocas que sequer se beijam. Se em terra de cego quem tem olho é rei, em terra de mudo quem tem boca (e a usa para falar) vai à Roma, Japão, Zimbábue, Groenlândia…

Para quem é caladão como eu não existe nada melhor do que ter do lado uma mulher que fala por ela e por mim também. Claro, não vou dar uma de múmia, afinal é preciso expor os pensamentos. Certa vez ouvi o seguinte elogio: seu silêncio contemplativo é algo admirável, típico de pessoas atenciosas e reflexivas. Para fazer jus a segunda definição, pensei, pensei, pensei e cheguei no seguinte ponto: “Nossa, será que sou isso tudo mesmo?”.  Conclusão tipicamente não conclusiva de um sujeito desparafusado mentalmente…

Minha atenção tem como objetivo ouvir e ao mesmo tempo observar tudo, desde o jeito de falar, passando pela expressão facial até a descoberta de algumas (possíveis) manias. Enfim, meu silencio contempla as palavras, desde aquelas que saem da boca como as que fazem parte da linguagem corporal.

De volta ao tema, caímos na boa e velha questão: os opostos realmente se atraem? Usei como exemplo o casal “mudo-falante” mas existem mil formas de paradoxos: a estressada e o paciente; a “pavio curto” e o calmo; a emotiva e o racional; a não-romântica e o meloso; a que adora filmes de terror e o amante de romance; a friorenta e o calorento; a corajosa e o hesitante; a organizada e o destrambelhado, a pagodeira e o roqueiro, a surfista e o nerd, a mulata e o europeu, a flamenguista e o tricolor…

Determinados tipos de opostos dão certo desde que um respeite o mundo do outro, sem neuras de querer pulverizar as características da pessoa só porque uma gosta de rapadura enquanto a outra prefere petit gateau. A partir do momento em que ambos decidem unificar o sentimento (partindo do principio que ele é o motivo pelo qual o casal está junto) e fazer das diferenças uma forma de complemento mútuo, o que tinha tudo para ser transtorno ganha formato de porto seguro. E podem anotar: os palpiteiros de plantão que adoram soltar frases do tipo “eles não têm nada a ver um com o outro” mudarão o script para “nossa, vocês foram feitos um para o outro, como carne e unha”. Isso se você leva em consideração aquilo que dizem ao seu respeito. Dar uma de surdo na terra de falantes pode ser uma ótima forma de evitar aporrinhações gratuitas.

Carne e unha, mais um exemplo de opostos, assim como queijo e goiabada, serra e mar, sol e chuva, Tom e Jerry, mostarda e mel… E como bons brasileiros que somos, não podemos rejeitar nossa mais deliciosa dupla de opostos: arroz com feijão.

Já diria Nando Reis: “O mundo é feito de combinações”.

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