20 de maio de 2010 00:19

Por Keka Demétrio

Por um longo e tenebroso inverno acreditei que todas as minhas tristezas e frustrações estavam diretamente ligadas ao fato de eu estar acima do peso. E era verdade, eu me sentia triste porque não aceitava possuir tantas curvas e me frustrava porque não conseguia realizar nada do que sonhava, já que a tristeza me impedia de enxergar os caminhos.

Fotografia de corpo inteiro, nem pensar, batom vermelho, só no pensamento, salto alto, só em ocasiões que me exigiam o uso, roupas coloridas e ousadas só nas revistas, porque em meu guarda roupa apenas peças muito sóbrias. É, eu realmente era um serzinho muito sem expressão, escondida dentro de um mundo abastecido pelo meu próprio preconceito.

Fiz inúmeras dietas e por três vezes cheguei a perder 30 quilos em cada uma, quilos que encontrava logo depois, já que havia cuidado apenas do meu exterior, sem me preocupar em emagrecer as angustias, as decepções, e tristezas que preenchiam minha alma.

Agimos assim porque quando começamos a emagrecer tem sempre um monte de gente que vem nos dizer o quanto estamos ficando lindas e isso acaba nos empolgando. Em um primeiro instante passamos até a nos cuidar mais, compramos roupas novas, sapatos de salto, lambuzamos nosso corpo de cremes, pintamos e cortamos o cabelo, saímos para a balada, e até beijamos aquele gato que era sonho de consumo a muito tempo. Acontece que com o passar do tempo essa euforia toda começa a diminuir e a gente percebe que mesmo usando um poderoso batom M.A.C nosso sorriso não contagia. Os sentimentos que temos por dentro começam a falar mais alto e nosso brilho, antes maqueado pela aceitação das pessoas em relação a nós, mostra sua verdadeira identidade fosca.

Vivi isso por algumas vezes, até que decidi fazer diferente. Passei a tentar me conhecer e entender o que a vida fazia por mim e o que eu fazia, ou deveria, fazer por ela. Quais eram os meus objetivos, como eu me enxergava e o que eu fazia de realmente bom e valioso para mim mesma. Como eu vivia a minha própria vida e como eu lidava com as pessoas a minha volta. Qual o grau de importância que eu dava para o que as pessoas pensavam em relação a mim e qual a importância que eu acreditava realmente ter.

Assim fui me descobrindo, e encontrei dentro de mim muito mais do que eu supunha existir. Descobri a mulher que eu era, a mulher que eu fingia ser e aquela que realmente eu gostaria de ser. Bati de frente com todo o sentimento ruim que eu nutria e me deparei com a tristeza. O fato de encarar os motivos que te fazem triste é assustador, porque então você percebe o quão fraco é e o quanto utiliza da autopiedade como forma de vida. São inimigos que nutrimos dentro de nós e que nos levam à depressão e ao desperdício de vida.

Sun Tzu, em seu livro “A arte da guerra”, disse que se nós conhecêssemos o inimigo e a nós mesmos, não precisaríamos temer o resultado de cem batalhas. Se a gente se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofreríamos também uma derrota. E se não conhecemos nem o inimigo e nem a nós mesmos, perderíamos todas as batalhas. Penso que isso não é estratégia apenas para homens que vão à guerra, mas que também devemos trazer para as batalhas da nossa própria vida.

A aceitação de minhas curvas foi gradativa e libertadora. Compreendi que não preciso estar magra para ser feliz, mas que tenho por obrigação, se quero mesmo ser a mulher que sonho ser, matar cada um dos meus inimigos mais íntimos e emagrecer as tristezas que eles causam.

Hoje, nem mesmo o mais poderoso batom existente no mercado seria capaz de deixar meu sorriso tão bonito quanto o amor que eu sinto por mim mesma.