1 de junho de 2010 08:13

Por Eduardo Soares

Quarenta e dois anos atrás, mais precisamente em 26/05/68 aconteceu o primeiro transplante de coração do país. O feito ficou a cargo da equipe chefiada pelo Dr. Euryclides Zerbini que desde então virou referência mundial na então nova área da medicina. Relatos de pessoas próximas afirmam que o Dr. Zerbini trabalhou até o fim da vida (faleceu aos 81 anos em 1993), não apenas efetuando suas famosas cirurgias como realizando palestras e conferências.

Falar das nossas qualidades é sempre maravilhoso. Basta um elogio:

– Ooohh, Maricota! Como você está linda hoje! Está parecendo uma Barbie serelepe e pimpona do subúrbio! Sua cútis nunca esteve tão lisa! Já sei: o marido anda comparecendo às segundas, quartas e sextas com bônus aos sábados, domingos e feriados, né? Sua danadinha…

Não importa se ele vem daquela sua amiga tipo “fura-olho” que dá uma de “estou aqui para tudo” mas na verdade não segura a língua e desanda a falar da sua intimidade para todos os bairro. Se tivesse outdoor, ele colocaria anúncios como: “Faz uma semana que Maricota não menstrua. E ela anda às turras com Juventino. Ontem voou panela na cabeça dele. Chupa essa manga, amiga!!!”.

Agora uma coisa é fato: se a mesma amiga fura olho pisar no seu calo, inevitavelmente você vai mandar um “o que vem de baixo não me atinge” para depois ficar sem falar com a pessoa por uma, quem sabe até duas semanas. Recebemos e aceitamos elogios sem pensar qual é a procedência deles, diferente do que acontece com as criticas. Aliás, você exerce autocrítica?

Ninguém melhor para analisar meus erros do que eu mesmo. Só eu sei o que vivi, quais foras as vitorias e derrotas, o que tive de bom e ruim ao longo da minha historia e por fim o que fazer para tirar as coisas nocivas de mim. Posso falar com propriedade sobre determinado tópico dentro desse assunto, pois é algo que trabalho bastante para amenizar ou eliminar de vez da minha vida: sou vingativo e nutro certa simpatia por esse sentimento.

Sabe, às vezes fico imaginando o que ocorre dentro de nós quando alimentamos coisas ruins: com o passar do tempo, na medida em que guardamos sentimentos nocivos como rancor, egoísmo ou ódio dentro do coração, visualizo-o mudar de cor, passando do vermelho vivo para o preto e aos poucos sua aparência ganha contorno asqueroso, ficando ressecado, imundo, podre. Ganhamos então um coração em estado vegetativo. Continuamos vivendo, mas sem percebermos somos apenas mortos-vivos, fantoches em farrapos daquilo que um dia sonhamos ser.

Se você acha que no estado atual as seqüelas existentes dentro do seu peito são grandes demais, que sua confiança, admiração, respeito e entrega foram retribuídas através de porradas dadas por aqueles que tiveram tudo isso de ti, faça um transplante de coração. Jogue o atual fora, pois ele fará com que seus sonhos sejam mortos e até aqueles elogios vindos de pessoas que gostam realmente de você serão apenas boas lembranças do passado.

Como todo transplantado, você terá uma nova vida. Você estava fraca, desanimada, apenas vivia, sem ter a menos noção do significado do verbo “viver’’. Conjugue novos verbetes: resgatar, alegrar, idealizar, amar. Tudo aquilo que a insuficiência cardíaca não permitia, agora você poderá e irá fazer. Troque seu coração antes que sua vida entre em coma irreversível.