1 de setembro de 2010 09:21

Por Eduardo Soares

Fim de semana é sinônimo de shopping lotado. Em especial nas tardes de sábado. Parece que noventa por cento da população sente-se atraída por aquele amontoado de pequenas lojas. Não existe praia, quiosque, pracinha, parque de diversão, casa de campo, acampamento, caminhada, bosque. Sendo assim, encontramos com todo tipo de gente nos corredores, filas de cinema ou de restaurantes, lojas de roupas ou de utilidades domésticas e estacionamento do local. Espaço mais democrático, impossível. Crianças & idosos, solteiros & casados, ricos & humildes, feios & bonitos, pinguços & abstêmios, extrovertidos & tímidos. Ninguém tem tatuado na testa o que é ou o que faz. Sentada na praça de alimentação, você pode estar almoçando ao lado de um padre ou do bandido foragido mais temido de outro Estado. 

Dona Margarida Pitanga faz parte do tipo de gente que vive para aporrinhar. Sessentona metida à garotinha do playground, parecia não querer saber de casamento. Tivera cinco. Ficou três vezes viúva, deixou um marido no hospício e o outro fugiu com a empregada doméstica. Neste caso, seria apenas mais um marido safado não fosse por um detalhe: a empregada tinha setenta anos de idade. Daí vocês podem ter noção do quão insuportável/intragável era nossa “adorável” senhorinha. Seu único intuito no shopping era criticar as pessoas seja lá pelo que fosse. Certa vez, presenciou um casal se beijando na escada rolante. A dupla transbordava romantismo e em dado momento o homem segurou a moça no colo. Ela envolveu o pescoço do amado com os braços e assim ambos fizeram uma bela cena, típica desses filmes água-com-açúcar da Julia Roberts ou Drew Barrymore. Dona Margarida fez questão de acelerar os cambitos, ficou parada feito um poste capenga de frente ao casal apenas para fazer cara de quem chupou limão e bebeu chá de boldo, antes de soltar a pérola: que pouca vergonha!!!

Casaizinhos de adolescentes dão shows à parte. Ô pessoal criativo e às vezes até mesmo sem noção. Demonstram toda aquela paixão que eles teimam em chamar de amor (ah, inocência…) de maneira efusiva. Já vi moleque estabanado sacudindo a namorada como forma de carinho. O ato lembrava aquela sacudida de cachorro depois do banho. Ela? Ria demais. Também presenciei um tipo diferente de dizer “oi, senti sua falta”. Cinco metros separavam o casal. Assim que ela viu o namorado, abriu um sorriso enquanto corria em direção a ele. Cinco passos depois do sorriso (e a cerca de quatro metros de distância) a moça deu um salto cinematográfico em direção ao amado. Vai se estabacar feio, pensei. Que nada! A adolescente tinha DNA de atleta! Pois ela caiu simetricamente nos braços do rapaz e (agora sim) disse “oi, senti sua falta” para depois ganhar cinco minutos ininterruptos de beijos. Dentre as pessoas que presenciaram tal beijo esportivo, um jovem casal tímido estava a poucos metros de tudo aquilo. Talvez inspirados na cena, eles se beijaram. Foi uma espécie de selinho temperado com dez gramas de pimenta do reino. Dona Margarida teria argumento de sobra (na cabeça dela) para criticar o casal do salto elástico mas ela preferiu cismar com a dupla do selinho. Sentada ao lado deles, encarava os jovens com a mesma cara de chupadora de limão.  Sem perceber, a dupla continuou os estalinhos de olhos fechados. Quando pararam, o rapazote deu um pulo de susto! Dona Margarida mandou sua frase padrão: que pouca vergonha!!!

Muitos parentes questionavam o motivo de Dona Margarida jamais ter sido mãe. Alguns sobrinhos presepeiros natos perguntavam: será que quando ela via os maridos pelados, dizia  “que pouca vergonha”? E quando os vizinhos da direita cismavam em namorar em alto e bom som, propositadamente para aporrinhar a senhora aporrinhante? E quando os filhos dos vizinhos da esquerda reuniam-se com os amigos em dias de jogos? Era uma bagunça só! Adivinhem qual era a frase dita pela Sra. Pitanga?

Tem gente que vive a vida dos outros. Quando você chega em casa com as bolsas do mercado, os olhos esbugalhados da Dona Margarida parecem feitos de raio x, fitando as compras. Quando você compra um carro, os olhos estatelados da Margarida acompanham a nova aquisição. Quando chega visita na sua casa, Margarida “come” a pessoa com os olhos, dos pés a cabeça.

Quantas Margaridas da vida você conhece? Gente negativista, chata, intrometida, fuxiqueira. É rezar para que não surtemos como foi o caso do Michael Douglas em “Um Dia de Fúria”. Vontade não falta! E o pior: quantas Margaridas fazem parte da sua família? Aí não tem jeito. Já diria o ditado popular: parente a gente não escolhe! Mas aturar alguns já é pedir demais…   

  • Revoltou, foi?!?!?!
    Hahaha…
    Você escreve maravilhosamente bem sobre a vida cotidiana…
    Parabéns por mais um texto excelente e cheio de realidade.

    • Edu Soares

      Ah, fiquei nervoso, Monique!
      Vc conhece um pouco da minha história e deve fazer idéia de quem é a pessoa “homenageada” no texto. É parente!
      Obrigado pelos elogios e digo que você tem uma criatividade enorme para narrar fatos do dia a dia!

      • Germano

        Esse texto eu não poderia deixar de comentar, porque todos temos parentes com este estilo nada agradável de ser. E eu normalmente procuro tratá-los como merecem: Frieza, esquecimento, abandono, abstração. Não merecem nenhum tipo de atenção, já que eles próprios acham que somente a vida alheia é interessante.

  • Dandan

    É…
    …Um dia de fúria resolveria problemas com muitas “Margaridas” que conheço. Hahaha

    • Edu Soares

      Vontade não falta, meu amigo…

  • Tenho a minha Dona Margarida na familia e ademais mora no mesmo prédio que eu. Fica todo día na sacada fiscalizando quem entra e sai do edificio.
    Seu artigo descreve muito bem a minha tía. Parabéns.
    Um abraço

    • Edu Soares

      Teresinha, temos o mesmo problema. Parente não dá para escolher, certo? Podemos renegar? rs

  • Carol Caran

    Que texto delicioso… As Margaridas da vida adoram me perguntar por quê eu não me caso. Mas as piores de todas são as: que moça bonita! Devia parar de comer e emagrecer! Argh!!!

  • Patricia Mafra

    Parabens pelo texto,e aqui onde mora tem um monte de margarida infeliz,não vive a vida dela ñão é feliz e não quer ver ninguem feliz..coitadas !é isso que posso dizer dessas infelizes.

    • Edu Soares

      Pessoas assim terão um destino certo: a infelicidade constante. O alvo delas são gente que, de certa forma, espelham de forma harmoniosa seus sonhos fracassados. Chega a dar pena.

  • Fátima

    Sua facilidade em escrever sobre temas que nos cercam no dia a dia me fascinam. Tem jornal perdendo um ótimo cronista. Quanto as Margaridas do dia a dia, conheço várias. Na vizinhança, na família, no trabalho, assim como há ” Margaridos” e assim também como eu confesso, já tive meus momentos Margarida. Nada como a maturidade para destruir velhos conceitos. Moro em cidade pequena e sempre digo em casa que devo cuidar da minha saude, porque da minha vida, os vizinhos cuidam. Houve uma vez, um episódio engraçado. Eu chegava em casa, início da madrugada, a pé, com uma amiga, o irmão dela e um vizinho. Na esquina da rua onde nos separaríamos, paramos para terminar a conversa quando vimos uma silhueta atrás da cortina da casa mais próxima, que ouvia a todo o nosso papo. Meu vizinho, muito espirituoso, começou a inventar que estávamos vendo algo deveras escandaloso. Soltávamos comentários do tipo ” que absurdo”, ” que pouca vergonha”, ” eu nunca vi isso acontecer aqui” , ” isso é caso para polícia ” e a pessoa que ouvia, ficou desesperada dentro de casa, a sombra se movia pra lá e pra cá, a janela fez barulho, eu disse que deveríamos ir embora, para não sermos testemunhas do fato, então nos despedimos falsamente e ficamos no mesmo lugar, em silêncio. ” A sombra ” percebendo o silencio, achou que tínhamos ido embora e saiu de casa depressa, para ver a tal cena que inventamos. O vizinho surgiu na rua, de pijamão de bolinha e quase teve um desmaio ao ver os quatro parados no mesmo lugar e nada acontecia na rua…deu meia volta e nem deu bom dia!!!
    Acho que já me acostumei a certas críticas, que antes me machucavam, depois passei a revidar e agora simplesmente ignoro. Me sinto bem comigo mesma, num ótimo momento da vida e não vou deixar que comentários maldosos de pessoas de mal com o mundo, derrubem minha auto estima. A vida é minha e só eu deveria cuidar dela, tenho ajudantes, mas continuo no comando.

    • Edu Soares

      Olha, assumir um erro assim como vc fez é algo digno de elogios. Vc já foi Margarida, Fátima? O que aconteceu para isso mudar??
      O episódio do vizinho fuxiqueiro merece ser copiado por todos!! Ótima idéia!rs

      Agradeço o elogios quanto ao cronista. Fiquei com isso na cabeça, só para sua ciência! rs Mas não, ainda tenho que comer muito arroz com feijão para chegar nesse nivel!

  • Vania Salles

    Excelente texto!!!
    Aliás, TODOS são excelentes. Nem me importo mto com o assunto, apesar de não ter um só texto seu em q o assunto não fosse bom, mas a maneira tão leve e descontraída como vc escreve faz com q eu me importe mto mais em ler um texto seu do q qualquer outro…rsrsrs

    Bjok

    • Edu Soares

      Penso em dar uma pausa nos assuntos mais sérios, Vania. Afinal, temos colunistas aqui que são experts nessa área.
      Você está me convencendo a seguir por esse novo caminho…
      Obrigado pelas palavras. É sempre bom saber que alguém fica feliz ao ler minhas bobeiras.
      Beijos.

  • keilla

    Adorooooo seus textos.
    Infelizmente conheço várias donas Margaridas aff…
    Mas como sou cara de pau,curta e grossa,elas apenas olham e falam pros outros…
    Agora quase infartei com a frase que diz”cara de quem chupou limão e tomou chá de boldo” olha só a risada que dei,ja valeu ler o texto.

    • Edu Soares

      Keilla, esse semblante é o mesmo daquela velha frase “cara de quem comeu e não gostou” só que atualizada..rs

      Também sou como você. Tenho ficado impaciente depois de velho, por isso encaro quem quer me aporrinhar e assim procuro não ficar estressado. Dificil, mas não impossivel.

  • Vanessa

    De fato, você escreve muito bem e teus textos são uma delícia de ler…

    Quanto às “Margaridas” da vida, o único pesar que sinto é o de uma delas ser minha própria mãe…
    Eu acho que o máximo de sentimento que deve ser dirigido a essas pessoas é a indiferença!

    Até,

    Vanessa

  • Dudu! eu to assim… de…margaridas na minha vida, tem aquelas que so falam mal dos outros, as invejosas, as fofoqueiras,vixe ta bombando,
    mas eu tenho uma boa ideia pra resolver o problemas delas , e é facil tenha certeza disso….de a elas um presente, e elas deixaram de se meter onde naum é chamado.
    De as margaridas da vida UM GATINHO,mas naum um gatinho igual vc isso naum…. vc é nosso kkk.
    Um gatinho tem 7 vidas , assim ela naum tera mais tempo de cuidar da vida dos outros.kkkkkkkkkk bjussssssss

  • Joice

    Amei seu texto,ele é ótimo!!!!!!!!!Muito inteligente e engraçado,e digo mais,se tivesse um livro com todas suas crônicas e contos eu seria a primeira a comprar….beijinhhuuus

  • Cynthia

    Edu, sua forma de “olhar” a vida me encanta…
    Mais um texto inteligente, verdadeiro e leve, além de divertido.
    Fiquei tentando relacionar quantas “Margaridas” conheço, cheguei a conclusão que o número é bem maior do que eu gostaria. Pessoas que se intrometem na vida alheia, amarguradas e infelizes são mais comuns do que imaginamos. Só precisamos ter cuidado para não nos contaminarmos.
    Cheiro “pra tu, visse?”

  • Julia

    Vc tá de parabéns!
    E o q me deixa mais feliz é ver q os poucos q me cercam, são assim, bons no q fazem…
    Continue ..vc tem talento!rsrsrsrs

  • Werônica Souza

    Bom Dia Caro Dudú!!
    Hoje de manhã fui incomodada por uma D. Margarida enquanto desejava um “Bom Dia de trabalho”, com um beijo, em meu marido! Foi hilário e não podíamos deixar de lembrar desse seu post.
    Na vida, temos diversas “donas margaridas”, mas as vezes fico pensando: será que elas trazem algum benefício pra nossa vida? Por enquanto, para minha, só aborrecimentos e as vezes gargalhadas.

  • Letícia Melo

    Nossa seus textos são realmente demais. Várias reações rolando enquanto leio, eu quase choro pensando ‘ah que lindo’ quando você descreve os casais apaixonados no shopping, morro de rir com “que pouca vergonha!” da dona margarida, e fico tensa pensando em ter que aturar uma pessoa dessas. Raramente me deparo com donas margaridas, geralmente ignoro dando meu olhar de frieza haha!

    E como a Fátima disse lá em cima…”Tem jornal perdendo um ótimo cronista”

  • É inveja isso … o nome verdadeiro é esse na verdade !
    Coitada, nunca será nada na vida e sua vidinha sempre será a mesma … porque ela não tem cabeça para mudar…sempre aquela mentizinha pequenina…kkkkkkkkk

  • Vanessa

    Oi… Sou uma modelo plus size!!!! Gostaria de desfilar e arrasar nas passarelas!!!
    Como faço??? Sou de Fortaleza- CE
    Ate que enfim, igualdade e oportunidade para TODOS!!!! Ja era hora!!!!