16 de outubro de 2010 11:21 comportamento

A nova Fênix

Por Eduardo Soares

Nesses quase oito meses de espaço virtual conheci inúmeras histórias de superação, todas dignas de roteiros de filmes clássicos. Há tempos estou para apresentar a vocês algumas destas histórias e a primeira delas não poderia ter sido melhor.

Criticamos aqueles que têm como habito reprovável o ato do (pré) julgamento. Ninguém gosta de ser rotulado apenas por causa do jeito de ser ou devido ao local onde mora. Nossa personagem reside em Ipanema, zona nobre do Rio de Janeiro. Vendo assim, seria comum alguém mandar soltar de cara frases do tipo “ah, ela é patricinha nascida em berço de ouro”. Antes de abrir a boca é necessário abrir a mente para evitar frases prontas e cômodas. Por isso, precisamos fazer algumas viagens no tempo para explicar como a personagem chegou até aqui. Com méritos próprios, diga-se de passagem.

Assim como eu, algumas de vocês irão reconhecer suas próprias origens nesse pequeno trecho. Filha de nordestinos semi alfabetizados que largaram suas cidades natais e famílias visando ter uma vida menos sofrida no Sudeste, Vitória passou por alguns apertos. Mesmo assim ela teve o auxilio de pessoas que acreditaram no seu potencial. Desta forma não levou muito tempo e lá estava ela com o diploma de Enfermagem obtido na renomada UFRJ. Com garra de vencedora (característica que os filhos de nordestinos têm devido aos incentivos dos pais), a recém formada prestou concurso, foi classificada e tornou-se Tenente Enfermeira dos Bombeiros. Com estabilidade e independência financeira já conquistados restava apenas o preenchimento do coração. Mas este será um dos temas principais desta mini biografia e iremos tocar no assunto adiante.

Mais uma viagem do tempo e iremos parar na pré adolescência de Vitoria. Em tempos de transformações e descobertas, veio o primeiro revés de sua vida: o surgimento do bullying. E nessa época a molecada (ainda com ares de infância) implica com suas vitimas sem dó nem piedade. É a fase dos grupinhos, onde cada um cria as famosas “panelinhas” com os amigos de maior afinidade. Musiquinhas ofensivas, piadinhas de humor negro e inúmeros deboches foram os componentes desta fase. Era o inicio da formação do buraco negro da baixa estima que acompanhou Vitoria ao longo dos anos seguintes.

Veio a adolescência e com ela o seguindo golpe da vida, este mais devastador que o primeiro: o pai de Vitória faleceu praticamente no mesmo período de provas para o vestibular. Difícil imaginar o turbilhão de sensações simultâneas que martelavam naquela cabeça. A perda do pai, pressão/cobrança pessoal por uma aprovação no vestibular e estima em baixa. Seria fácil olhar para o céu e culpar a Deus pelo sofrimento para entregar-se de vez ao desespero. Mas essa não era a característica da nossa jovem guerreira.

Quando o panorama parecia assombroso, surge a vida desferindo mais um soco no belo rosto de Vitória. Um dos seus únicos pontos de equilíbrio existentes rompera o laço. Seu noivado chegava ao fim. Esqueça a baixa estima.  O acúmulo de infortúnios originou uma depressão sem precedentes.  Todos os temores de antes – teoricamente adormecidos –voltaram a tona, agredindo impiedosamente Vitória com golpes enfurecidos. Arruinada, com alma sangrando e combalida psicologicamente, restava a ela cogitar a possibilidade “reconfortante” da morte. Analisando friamente, a postura (embora condenável em todos os sentidos) fazia certo sentido. Afinal, eram muitas adversidades em tão pouco tempo de vida. Natural que cresça a ausência de amor próprio aliada com medo de dias piores no futuro. Para quem ainda pensa que dinheiro compra tudo, a felicidade mostra que ela possui valor incalculável e inimaginável. Muito maior do que amontoados de cédulas ou de zeros à direita nas contas correntes. E a menina da zona sul (patricinha para alguns), lindíssima, grande profissional e independente financeiramente estava com o coração e estima afundados no lodo da depressão.

Costumo dizer que pessoas de baixa estima não absorvem elogios. Estes batem e voltam, não conseguem penetrar na aceitação dessa gente. Venha de quem vier, pais, namorado, amigo, ninguém consegue romper essa barreira imposta pelo desamor. Sempre linda, Vitória não tinha segurança para mostrar sua beleza aos namorados. Insucessos foram acumulados e a tristeza não parecia ter fim. Vitória ficou isolada, presa no seu agonizante mundo vazio. Restava-lhe apenas chorar e comer. Copiosamente. Naquele instante, lagrimas e a gula talvez fossem os únicos com acesso livre ao seu mundo.

EU NÃO GOSTO DE GORDA! A frase imbecilóide dita por um namorado burro batizado (vocês conhecem vários deles) foi o divisor de águas. Instantaneamente a região glútea do ilustre psicólogo de Playmobil fora devidamente carimbada com chute bem dado desferido por Vitória. Como sempre, Deus escreve certo por linhas tortas.

Depois disso, a vida lhe sorriu como nunca. Ao conhecer o movimento Plus Size, a guerreira moderna partiu de cara pro vento rumo a São Paulo para participar do Dia de Modelo. Lá ela descobriu vitórias de várias outras Vitórias, todas lindas e com a aceitação a flor da pele.Ao ver suas primeiras fotos desta nova fase, nossa personagem descobriu sua beleza, que embora sempre presente, esteve escondida debaixo da camada antes impenetrável da tristeza.

Eis o foco principal: descartem tudo, absolutamente tudo que seja ofensivo. Pessoas, palavras e pensamentos que trazem negativismo não servem pra nada. Sua mente serve como um filtro onde só é permitido reter aquilo que venha a acrescentar. Mulherão de verdade sabe o quanto é bonita, que deve se cuidar, que exala o perfume do carisma e que tem um amor imenso. Sendo o maior o amor próprio, daquele tipo que vale todos os quilates.

A personagem desta história achava que não era nada. Hoje ela tem/é um diferencial. Antes ela era reclusa. Hoje, virou referência de vida. Tempos atrás, a única coisa que povoava sua cabeça era a péssima idéia de dar fim a tudo. Jamais cogitou a possibilidade de ser quem ela é hoje. Palavras da nossa personagem: O que importa é ter saúde, cuidar do corpo e da alma com carinho porque estes são presentes de Deus.

Sorte a dela (e nossa) que a tal idéia de morte fora sumariamente descartada. Seria uma desfeita a Ele.

Obrigado pela lição de vida, Vitória.

Ou melhor, Miss Tatiana Gaião.  

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