4 de novembro de 2010 08:19

Por Keka Demétrio

Preciso de algumas coisas. Algumas eram vendidas na mercearia em frente à casa dos meus avós, outras recebia sentada na cabeceira da mesa em diálogos longos e profundos com um senhor de quase 70 anos, que me olhava nos olhos e parecia esquecer que mais que um cinqüentenário separava toda a sua experiência da minha ânsia de viver. O que vendia na mercearia ainda encontro nas hoje chamadas lojas de conveniência, e embora a fórmula e nem a embalagem tenham mudado, já não sinto a mesma vontade de lamber os dedos, então penso que o sabor da infância é inigualável. O que recebi sentada na cabeceira daquela mesa, ao som de Nelson Gonçalves e Altemar Dutra de fundo, embora quisesse muito, não posso comprar, mas os ensinamentos e a doçura do som da voz de meu avô também são inigualáveis. Assim como aquele sundae de chocolate e morango com que eu me deliciava aos domingos.

No decorrer da vida vão acontecendo tantas coisas que nem nos damos conta da imensidão de sentimentos que se acumulam dentro de nós e que vão nos lapidando como seres humanos.

Me lembro que eu era uma criança tímida, aliás, muito tímida. Daquelas que mesmo sabendo as respostas perdia pontos nas aulas de português só para não ter que responder e todo mundo me olhar, e até sofrer por meses uma dor de cabeça terrível por vergonha de dizer que não conseguia enxergar a longa distancia.

Sabe, ninguém nasce pronto. Somos um projeto de uma obra divina que temos a obrigação de terminar. Dotados de inteligência e sentimentos, às vezes não sabemos unir os dois em nosso beneficio próprio, e isso, só as experiências vividas vão nos ensinando. Quantas e quantas vezes deixei o medo e a vergonha tomarem conta das minhas decisões, e é claro, foram decisões desastrosas que venho ajustando aos poucos, porque hoje, consigo perceber as coisas de uma forma mais clara, mais ponderada e embasada nos meus desejos e sonhos que podem se concretizar. 

Nunca fui magra, aliás, já fui menos gorda, mas magra nunca, portanto, não tenho a mínima idéia do que é entrar em uma calça 38/40. Até brinco com algumas amigas que ficam choramingando que precisam perder 3 ou 4 quilos que esse sofrimento eu não tenho, porque se eu nunca tive um corpo magro, ele não me faz falta, pois é impossível sentir falta do que nunca se teve.

E olhando a vida das minhas amigas magras, percebo que a minha história não é tão diferente da delas. Podemos ter tido motivos diferentes para chorar ou para sorrir, mas nunca parei minha vida porque alguns bons quilos a mais sempre me acompanharam.   Muito pelo contrário, consegui deixar aquela menina tímida para trás e me transformar em uma mulher alegre, extrovertida, dinâmica, competente, cheia de vida (e modesta, é claro…rsrs), cuja única vergonha que tem é de si mesma quando sente o coração doer e chora sem saber porquê. Nessas horas, ou melhor, depois desse choro, sempre penso que, embora humana e com o direito de colocar minhas glândulas lacrimais pra funcionar, sou abençoada demais, e então sinto mesmo vergonha. Mas isso também não me impede de chorar outras vezes. Rsrs

Então, eu preciso mesmo de algumas coisas. Das lembranças da minha infância, ainda preciso do chocolate para me fazer companhia na TPM, de ouvir as músicas preferidas do meu avô para sentir o gostinho das nossas prosas (sim, eu ouço Nelson Gonçalves e Altemar Dutra e adoro!!), e estou me prometendo ir tomar aquele sundae maravilhoso de chocolate e morango com uma linda cereja no topo. Mas não é só disso que preciso. Preciso de abraço apertado, beijo na boca, olho no olho, entrelaçar de mãos, e sonhos dentro dos meus sonhos. Mas antes disso, o que preciso mesmo, é de alguém que realmente entenda do que eu preciso.