19 de abril de 2011 02:01 comportamento

O coração tem razões que a própria razão desconhece

Por Eduardo Soares

Blaise Pascal era um frasista de marca maior. Além dessa pérola, temos outra frase bastante conhecida (e utilizada no presente) do mesmo autor: “Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto do meu cão.” Pascal morreu em 1662 porém suas frases continuam atuais o que deixa uma interrogação na minha cabeça. Seria o francês uma espécie de visionário, aquela pessoa que vive anos luz da sua realidade?

Recentemente uma amiga veio desabafar. Moça nova, foi precoce em quase todos os aspectos da vida como por exemplo o casamento. Com menos de vinte anos (precisamente aos desenove) ela ostentava um aliança na mão esquerda. Mas até chegar nesse ponto, muita coisa aconteceu antes.

Cintia (nome fictício) era daquele tipo de menina caseira que vivia para estudar, estudar e estudar. Timida, não era do tipo que fazia muitas amizades. Mas ao mesmo tempo, ela chamava atenção por onde passava devido a sua beleza impactante: pele branca, cabelo preto na altura da cintura e olhos castanhos claros. Dificil não notar sua presença, mesmo que ela não fizesse nada para aparecer. Num desses dias em que saía da escola, surgiu Pedro, verdadeiro sujeito maluco beleza. Roqueiro assumido, cabeludo, barba por fazer, andava sempre de preto para todos os lugares, com direito a pulseiras de couro, botinas, bandanas e até anéis de aço em formatos de caveiras. Criatura mais punk, impossivel. Através de conversas despretenciosas ele foi entrando naquela mente praticamente intocável de Cintia e esta ao mesmo tempo começava a conhecer um lado romântico daquele quase ogro. Ambos pareciam os personagens do conto A Bela e a Fera. Ela, linda, amorosa, delicada; ele, sujo, avesso a cultura, parecia um Peter Pan bêbado largado na madrugada.

Sabe-se lá por qual motivo, Cintia começou a ficar interessada em Pedro que por sua vez abriu o coração para receber todo encanto da menina. Juntos, adolescentes, pessoas de mundo completamente diferentes, dois jovens com perspectivas distintas a respeito da vida (ela já traçava algumas metas enquanto ele traçava garrafas de uísque ao som de qualquer banda heavy metal), e talvez fosse esse o único motivo compreensível para justificar o romance inusitado, ambos eram iniciantes na arte do namoro.   Ela começou a trabalhar numa pequena loja enquanto ele só vivia para estraçalhar as janelas da casa ou os tímpanos dos vizinhos com aquela musica alta, cujas letras eram praticamente incompreensíveis, dada a rapidez que os vocalistas utilizavam para “cantá-las”. O amor de Cintia era tamanho que ela fazia de tudo para que Pedro fizesse parte do seu mundo, ou seja, ele precisava desplugar-se do som para ficar plugado na vida, no futuro, nos estudos, numa carreira qualquer. Reticente, Pedro sempre saia pela tangente e de certa forma conseguiu tapear Cintia por cinco anos. Sim, metade de uma década foi dedicada para que alguém, o dono daquele amor inexplicável, pudesse ser um homem de verdade e não uma caricatura de gente grande.  Dias, meses, anos e o panorama era o mesmo. Os adolescentes já estavam beirando os vinte anos e por isso era hora de tomar atitudes condizentes com a idade. Cintia se perguntava o porquê daquele amor. Outro dia citei uma frase mais ou menos assim “gosta-se da pessoa errada; sabemos que essa pessoa não trará nada de bom para nós, mas mesmo assim continuamos gostando”.  O coração tem razões que a própria razão desconhece.

Era hora do ultimato. Cintia percebeu que daquele jeito não havia amor no mundo que justificasse sua estagnação para a vida. Com isso, aconteceu um imenso conflito interno: o amor inexplicável, grandioso e delicioso versus os fatos recentes que apontavam um fracasso no que diz respeito a pouca perspectiva de vida ao lado de Pedro. Foi nessa hora em que a razão falou mais alto e Cintia deu um basta em tudo. Pedro ficou sem chão afinal ela era seu alicerce, a menina de família que daria o mundo por ele não aguentou a triste e imutável realidade. Deram um tempo, ela tocou a vida e ele também. Só que vem a famosa recaída e três meses depois, ambos voltaram. Cintia pensou que tudo seria diferente, afinal Pedro tinha aprendido a lição. Ledo engano. Para simplificar, como diriam os antigos, a emenda saiu pior que o soneto e o namoro recém-retomado perdeu o rumo de vez. O amor de Cintia era tamanho que, mesmo sem culpa, ela cultivava um inexplicável fracasso por não ter conseguido mostrar a Pedro como a vida realmente deveria ser aproveitada.

Uma semana depois do término, Pedro sofreu um acidente de moto onde veio a falecer aos vinte e três anos de idade. Agora, era o mundo de Cintia que não possuía solo. Todos os piores sentimentos existentes ecoavam em sua cabeça. Os três meses seguintes foram terríveis e, mesmo fragilizada, a moça retomava aos poucos o rumo da vida. Carente, confusa, amedrontada, na mesma época ela cedeu aos encantos de um rapaz que dias depois vinha a ser seu marido.

 

O casamento perdura até hoje e na verdade parece ser uma cópia fiel do que foi o primeiro namoro. Perdida entre remorso, ausência total de sentimentos e doces saudades, Cintia sobrevive, aos vinte e dois anos, com coração cansado de quem teve (e talvez nunca mais terá) um adorável amor bandido.

Em meados do século XVII, Blaise Pascal disse que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Quatrocentos anos depois os tempos são outros e os desafios que cercam o amor são os mesmos. E talvez nunca mudem.

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