22 de julho de 2011 10:08 Uncategorized

Rompendo os padrões de beleza

Quem de vocês não gostaria de ter um gato inteligente, sensível, e que com apenas 21 anos de idade dá um show de maturidade em muito marmanjo por ai? Até quem é mais bobinha iria querer.

Estudante de jornalismo em Salvador, sua terra natal (uii, será que o moço além de tudo ainda tem gingado??), Rafael Requião adora cinema, música, teatro, internet, sair pra barzinhos, ou seja, ele é um jovem normal, mas que nos encantou quando lemos um trabalho que ele desenvolveu para a facul. Na hora quisemos publicar, porque não é em qualquer lugar que conseguimos alguém da sua idade que…bom, vamos deixar vocês tirarem suas próprias conclusões. Dá só uma olhadinha no que te espera “…realmente queremos viver opiniões pre-fabricadas e lotadas de preconceito e rótulos que a sociedade nos vende em liquidações de personalidade, ou se lutaremos para vencer essa visão distorcida do que é considerado “beleza” e finalmente construiremos um mundo um pouco mais justo?”

 Ahh, esquecemos de contar que a Gelma já ocupa o posto de primeira dama na vida do gato ali de cima, portanto, meninas, acalmem os ânimos.

  Rompendo os padrões de beleza

Ao pensar como começaria a escrever este texto, imaginei diversas alternativas possíveis. Algumas me animaram mais, pareciam chocantes, ousadas, como um soco imaginário que vai de encontro às concepções industrializadas de grande parte das pessoas. Isso, no entanto, se mostrou inviável devido à complexidade do conteúdo. Como romper com uma ideologia construída ao longo da vida de uma pessoa logo no primeiro parágrafo? Como diria o famoso Pe. Quevedo “esto no existe”. As definições e descrições devem vir “diluídas” ao longo do texto, preferencialmente em alguma bebida alcóolica. A essa altura o leitor já deve estar mais preparado para o que está por vir. Ou ao menos entediado, o que resulta na mesma coisa, no fim das contas.

Taís Domitilio é uma garota comum. Garota, pois apesar dos seus 24 anos, o rosto não demonstra mais que 19 ou 20. Gosta de sair com as amigas, frequentar bares e casas de show, prefere vestidos e música pop.  Recém graduada em psicologia, ainda tendo todas as dificuldades de se inserir no mercado de trabalho. Ela tem 1,68 metros de altura, cabelos castanhos médio, olhos esverdeados, dona de beleza estonteante, gorda. Sim, gorda. Expressões como cheinha, ossos largos ou fofa nada mais são além de eufemismo, não servem para nada além de mascarar o problema, ou torná-lo menos sério. O problema que me refiro não é a gordura, longe disso. O problema está na concepção das pessoas e no estigma que um simples adjetivo (nada mais que uma característica, assim como qualquer outra) pode sofrer na sociedade.

Apesar de ser muito expontânea e brincalhona (ou talvez justamente por isso), Taís diz que não se considera uma mulher confiante: “dependendo do dia, do acontecimento, da situação, da taxa hormonal, enfim! Vez ou outra acordo de bem comigo mesma e sinto me confiante. O prazo de validade dessa confiança é de, no máximo, um dia!”. A psicóloga conta que sempre foi gordinha, desde os 10 anos, entretanto, até o final da adolescencia seu sobrepeso era pequeno. Foi pouco antes de entrar na faculdade que essa diferença aumentou mais um pouco, hoje ela tem 86 quilos. Taís também afirma que não se recorda de alguma situação de preconceito, salvo aos 11 anos de idade, quando um colega tentou apelidá-la de “gorda” e “bola”, mas a brincadeira não pegou. Infelizmente isso não acontece sempre, e muitas mulheres acima do peso sofrem preconceito, mesmo que velado.

Taís conta com humor das dietas que já fez para tentar perder peso: “Dietas é comigo mesma! Conheço vááárias! Cheguei a fazer uma muito radical. A dieta prometia emagrecer 7 kg por semana, imagine! Era a dieta da proteína. Na verdade era a dieta da proteína e de rara comida”. A “dieta” cumpriu o que prometeu… Até certo ponto: “bastou um prato de macarronada numa viagem com meus pai e todos aqueles quilos voltaram e ainda trouxeram uns amiguinhos”. Para ela, ser confiante é estar bem consigo mesma, com sua aparência. Ela vem aprendendo a dar mais valor a sua própria opinião e seu bem estar, apesar de ainda se importar com o que os outros pensam a seu respeito.

Essa jovem faz parte da última estatística do IGBE, quando foi constatado que 46,6% de toda a população do Brasil está com excesso de peso, e 13,9% são considerados obesos. Minoria? Longe disso. Todavia, esse é o tratamento dispensado a essa parcela da população. Não é necessário ir muito longe para destacar o preconceito e a exclusão das pessoas acima do peso em nossa sociedade. Nem sequer é preciso sair de casa. Basta ligar a televisão em qualquer canal e lá irão aparecer mulheres moajoritariamente magras, esbeltas, de cabelos lisos e toneladas de maquiagem. A programação do momento pouco faz diferença neste caso, seja teledramartugia, filmes, programas de auditório ou principalmente publicidade. Até hoje nunca houve uma protagonista de novela gorda, a esse tipo de ator são reservados os papéis de humor, ou secundários. Foi até mesmo uma surpresa quando a Rede Globo protagonizou Taís Araújo, uma atriz negra! Algo que já deveria ser muito mais comum há anos, e que só agora está sendo construído.

Esse é o reflexo da sociedade capitalista em que vivemos. Bombardeados por mídia de todos os lados que nos ensina subjetivamente todos os dias que “ser gordo é ser feio” ou é ter uma saúde debilitada. Todas as indústrias lucram com essa política de exclusão. A moda lucra com vendas roupas de números de manequim discrepantes com a média social, publicidade, desfiles e outros, sempre estruturados sobre a imagem de uma personalidade. A música lucra com a venda das imagens dos artistas (imagem, pois a música vem quase sempre em segundo plano), produtos associados e propaganda. Artistas que, se fogem a esse “padrão social”, devem ser devidamente enquadrados, como podemos observar os exemplos das cantoras estadunidenses Kelly Clarkson e Beyoncé. A indústira farmacêutica lucra com cosméticos, remédios para queima de gordura e dietas. O único objetivo das indústrias é lucrar, não importando se tiverem que “atropelar” e afetar negativamente a auto-estima e a saúde de bilhões de pessoas no mundo inteiro.

As consequências psicológicas dessa opressão podem ser graves, desde a perda da auto-estima até stress e depressão, como explica a psicóloga comportamental Maiana Moraes: “As consequências podem ser várias. Vão desde baixa auto-estima, dificuldades de relacionamento, de encaixar-se, inabilidades sociais diversas até quadros psicossocias mais sérios como depressão, ansiedade patológica e outras. Além disso eu acrescentaria que hé uma consequência para a própria sociedade. Cada vez se pressiona por mais um “ideal” inalcançável de peso, mais se alimenta a idéia por trás de uma indústria que vive ao redor dessa questão medica séria, que é a obesidade”. Maiana afirma também que isso varia a cada pessoa, a depender do contexto de criação e da personalidade de cada um. A questão da mídia ainda está diretamente ligada ao bem estar da mulher com o próprio corpo. Muitas vezes é difícil se aceitar quando as pessoas ao seu redor constumam aceitar a magreza como “padrão”, continua a psicóloga: “O papel da midia e da industria da beleza é no sentido de pressionar a mulher para que ela seja como a maioria das pessoas acredita que é o mais bonito, mais normal (…) nós seres humanos somos seres em relação, a relação com outros é crucial, ser aceito é imperativo para o bem estar psicosocial de qualquer ser humano”. Muitos dos problemas psicológicos atuais estão relacionados com o tipo de sociaedade em que vivemos, que prega o individualismo, a busca por bens materiais e por adequação.

Entretanto, existem situações em que o  o argumento da beleza falha, e a indústria encontra novos métodos para desvalorizar as pessoas acima do peso, a questão da saúde. De acordo com a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a obesidade é classificada como uma doença: “Devemos estimular o tratamento e a prevenção da obesidade por se tratar de uma doença envolvida em diversas complicações e comorbidades que elevam a morbimortalidade dos pacientes obesos”. Mas devemos esclarecer que nem todas as pessoas acima do peso têm problemas de saúde, é o que esclarece a médica Bárbara Vidal: “O que acontece é que, com o aumento progressivo do peso, acima do desejável, aumenta-se a possibilidade de associação a sérios  problemas de saúde como diabetes, hipertensão, alteração do perfil lipídico (colesterol, triglicérides elevados) ou das complicações decorrentes da associação, com infarto agudo do miocárdio”. Essas possibilidades não garantem o aparecimento do problema, e manter uma vida saudável não está estritamente relacionado ao peso. Não é necessário mencionar também que pessoas magras também estão sujeitas aos mesmos problemas. O que pode acontecer com as pessoas mais gordinhas é que a distribuição do peso no corpo pode não ser ideal, mas não é o que acontece sempre.

Numa corrente oposta ao que o poder constituinte quer nos convencer, está o movimento conhecido como “body acceptance”, ou “aceitação do corpo”. Não há registros de quando surgiu, mas atualmente existem diversas páginas na internet completamente voltadas para a valorização da auto-estima da mulher acima do peso. Alguns focam na moda, outros na ideologia em si, mas todos contribuem para mostrar que nós podemos sim construir nossas próprias opiniões acerca do assunto. No Brasil, existe o blog “Mulherão”, o mais famoso do assunto, com muito conteúdo de comportamento e moda e que ainda promove a Fashion Weekend Plus Size, uma versão mais “voluptuosa” do São Paulo Fashion Week, além de fazerem participações em outros eventos de moda. Nos EUA, país em que a pressão social é por vezes até maior, os Tumblrs (uma espécie de microblog) fazem sucesso e tem milhares de visitantes, como o “Fuck Yeah Chubby Girls” ou o “BBWPrincess”, que misturam moda, fotos de visitantes e ativismo político.

Todas essas questões devem nos fazer refletir se realmente queremos viver opiniões pre-fabricadas e lotadas de preconceito e rótulos que a sociedade nos vende em liquidações de personalidade, ou se lutaremos para vencer essa visão distorcida do que é considerado “beleza” e finalmente construiremos um mundo um pouco mais justo? Só o tempo nos dirá. Mas enquanto isso, cada um pode e deve fazer a sua parte, sempre se informando, sempre questionando o que está escrito, falado ou exposto. Questionar é o princípio da descoberta, é quando novas opções que antes pareciam invisíveis finalmente se mostram. Queremos realmente viver num mundo que discrimina pessoas simplesmente por sua aparência? Como diriam os Tumblrs americanos: “Be brave! Join the revolution!” (Seja bravo! Una-se à Revolução).

 

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