04/05/2022 Bullying e Preconceito

Nutricionista gorda: minha vida como nutri acima do peso

Bom, primeiramente eu gostaria de me apresentar à vocês: meu nome é Emili, sou nutricionista especialista em saúde da mulher e durante toda a minha vida eu “briguei” com balança.

Vou contar um pouco da minha história. Para vocês terem ideia, minha primeira dieta foi com 11 anos de idade e até mesmo antes disso, eu sempre ouvia coisas do tipo: “Você precisa emagrecer”! Ou: “Homem não gosta de mulher gordinha”.

Fora todas as outras coisas que eu era obrigada a escutar ainda criança, tudo que uma menina não quer.

A partir daí a guerra de fato começou. Era um sobe e desce de peso e me lembro que cheguei a fazer uma dieta extremamente restritiva (com 11 anos de idade, gente!), perdi muito peso, muito mesmo! Mas a consequência foi o reganho assim que eu parei de fazer essa tal dieta milagrosa e maluca.

Contrariando os preconceituosos de plantão que julgam que gordos são sempre preguiçosos, eu sempre fui muito ativa. Ainda criança já fazia natação, jogava basquete e mais tarde comecei com o Muay Thay. O peso nunca me atrapalhou para fazer coisas que eu gostava de fazer. Mas isso não impedia que as pessoas dissessem constantemente que eu precisava emagrecer.

Quando estava no colegial eu descobri a nutrição e comecei a pesquisar mais sobre o assunto. O que de fato era a nutrição.

Foi quando eu decidi que iria fazer nutrição na faculdade. E confesso que o meu principal objetivo ao escolher o curso era me emagrecer. Nesse ponto eu pensava que a solução de todos os meus problemas aconteceria se eu simplesmente entrasse na faculdade, aprendesse a fazer dieta do jeito certo e conseguisse emagrecer.

Com isso em mente, entrei na faculdade com 18 anos e de imediato me apaixonei pela área. Naquela época, a nutrição ainda era bem quadrada e nem se falava sobre coisas como comportamento alimentar. Passei os 4 anos na faculdade, com o meu já conhecido sobe e desce de peso, sempre imaginando o que poderia estar dando errado e me arrependendo.

Afinal, quem iria contratar uma nutricionista gorda, não é verdade?

Antes do meu primeiro emprego, fiz mais uma dessas dietas da moda em que ficamos sem comer. Emagreci novamente, porém com piora nos meus exames de sangue. Mas, eu sentia que de alguma forma seria aceita pela sociedade. Foi então que consegui meu primeiro trabalho. Uhuuull! Vitória!

Passei a trabalhar em uma cozinha hospitalar e adivinhem: ganhei todo o peso novamente.

Fiquei um bom tempo como nutri hospitalar. Nessa época, eu conheci um cidadão (o qual tivemos um relacionamento) que dizia que me aceitava como eu era, mas logo depois começou a tentar me mudar dizendo que eu precisava emagrecer. Com o passar do tempo, eu levei aquele belo pé na bunda.

Talvez ele tivesse vergonha de mim… E aquilo de fato acabou comigo e com a minha autoestima. Então decidi que tomaria remédios para emagrecer.

Minha autoestima nunca tinha sido boa, mas nessa época estava muito pior. Eu me achava um horror e usava roupas largas e moletons para me esconder. Simplesmente odiava o que via no espelho e na minha cabeça passava: como alguém conseguiria de fato me amar sendo gorda?

Tomei os tais dos remédios e mais uma vez, perdi muito peso. Só que eu tinha expectativas para quando emagrecesse. E essa expectativa não foi atingida, afinal eu não me sentia segura ou poderosa, e para completar continuava com vergonha de mim, mesmo magra.

Comecei em outro emprego em outro hospital. Aqui, mais magra, eu trabalhava diretamente com os pacientes. Muitas coisas aconteceram na época: eu perdi meu pai, tive crises de ansiedade fortíssimas e decidi por me demitir.

Então veio a pandemia. Eu frequentava a academia todos os dias e tinha uma rotina de treinos bem bacana e que me ajudava muito, pois na verdade eu adoro movimentar o corpo. Mas com o fechamento das academias o meu peso aumentou significativamente e eu me vi desesperada ao engordar novamente!

Bem no meio da pandemia por covid 19, eu resolvi começar a atender em consultório. Estudei bastante para me atualizar até que conheci a nutrição comportamental e me apaixonei por essa área. Com isso, pude entender muitas coisas a respeito do meu próprio comportamento alimentar.

Mas, quando comecei a atender no consultório, eu tinha muito medo, pavor do que as pessoas poderiam pensar de mim!

“Nossa! Uma nutri acima do peso?” Pois é, foi um trabalho árduo de autoconhecimento e aceitação. Até que entendi que histórias como a minha e experiência de vida podem ajudar outras mulheres.

Isso me fez virar a chavinha, e comecei a me aceitar.

Mas não pense que foi fácil. Algumas pessoas me olham torto quando digo que sou nutricionista. Algumas, tecem comentários maldosos a meu respeito. Mas o importante é que entendi que na vida sempre existirão pessoas dispostas a nos criticar. E isso, diz mais sobre elas do que de mim.

A minha forma física, meu peso ou o meu manequim não diz nada sobre a minha capacidade de ajudar mulheres a recuperarem a sua autoestima e saúde.

Recentemente uma paciente me perguntou: “Mas você é uma nutricionista gorda. Por que não consegue emagrecer? ” A resposta é simples: porque hoje eu não quero! Pela primeira vez na minha vida me aceitei e amo ser quem eu sou. Agora convivo bem comigo mesma e não faz sentido mudar por conta da opinião de outras pessoas, ou para agradar essas pessoas.

Sigo fazendo atividade física e sendo uma nutricionista gorda. Isso só me faz ser mais feliz com a mulher que eu batalhei para ser.

Agora eu quero saber de vocês, já sentiram olhares tortos ou ouviram comentários maldosos no trabalho por serem diferente dos padrões impostos? Conte nos comentários como foi isso para você.

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Imagem Freepik

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