10/03/2022 Comportamento

O que a morte de Generosa me ensinou

Os últimos dias não estão sendo fáceis. Nunca imaginei que ficaria tão sentida pela partida de uma tia avó, de 82 anos. A gente sempre espera que os idosos um dia partam, mas Genorosa não era qualquer uma. E só descobri isso após perdê-la.

Lourdes Carvalho era a caçula de 4 irmãos. Pequenina, de cabelos crespos. Não aparentava a idade que tinha. Aliás, era a sensação do bairro.

Morava em um quarto e cozinha nos fundos da casinha de minha avó. Ela, sempre sorridente, ajudava a todos, sem pestanejar. Daí o apelido “Generosa”. Cuidou de sua mãe a vida toda, até que essa completou mais de 90 anos e partiu.

Por mais uma década cuidou do sobrinho esquizofrênico, como uma verdadeira mãe. Foram anos de sofrimento vendo aquele que amava perdendo a batalha para essa doença mental incurável. Mas nunca reclamou. Nunca desistiu. E sofreu a partida dele como quem perde um filho de sangue.

Também cuidou de sua irmã, que sofria de Alzheimer. E foi só com a partida dessa irmã que percebemos que Generosa também não estava bem.

Foi no dia do falecimento da irmã que passei por mais de uma hora conversando com Generosa, sem que ela reconhecesse que eu sou sua sobrinha neta. E sinais de que sua mente não andavam bem brotaram dia a dia.

Ela teimava que a irmã não estava morta, porque a via todos os dias em sua casinha. Sou espírita, e até cheguei a acreditar que talvez o espírito da irmã ainda estava por lá, mas também se somavam os esquecimentos diários como perda das chaves, do dinheiro e de atividades rotineiras, como esquecer panelas no fogo aceso.

Minha prima levou Generosa à neurologista. O tratamento foi iniciado, mas percebemos que talvez ela não pudesse mais ficar sozinha.

Passei a visitá-la com mais frequência, e a conversar com ela como jamais fiz. Percebia seu sorriso cada vez que me via. Ela já não se esquecia mais de mim. Mas todas as vezes que me encontrava repetia: “é verdade que minha irmã morreu?”.

Numa dessas conversas Generosa me contou sobre o quanto estava ansiosa para se mudar para seu primeiro apartamento. A primeira casinha que conseguiu comprar em sua vida, com a ajuda de uma associação de sem-tetos, pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Eu não dizia que ela jamais poderia realizar esse sonho. Limitava-me a dizer que assim que ela estivesse bem, se mudaria.

Nas salas da casa de minha avó, por anos, Generosa estocou seu enxoval de princesa com colchas vermelhas, inúmeras panelas e roupas. Havia também um fogão moderno e uma geladeira enorme, que ela nunca usou, esperando estrear na casa nova. Eram anos de sonhos em pequenas caixas.

Certa vez, perguntei se Generosa tinha um namorado. E ela me respondeu que não achou a pessoa certa ainda, mas que ainda sonhava em se casar. E completou: “mas tem que ter aquela química, sabe? se não, não dá certo”.

Ela nunca me contou, mas eu sabia que ela havia sido noiva e completamente apaixonada por um japonês. Generosa não era santa, mas fez questão de me falar: “não pense você que sou desfrutável, eu sou mulher direita”.

Mas Generosa não teve tempo de encontrar aquele príncipe encantado que lhe daria um frio na barriga. Nem de se mudar para o apartamento que já era seu.

Em um sábado, enquanto eu e minha prima pesquisávamos uma casa de repouso para Genorosa, recebemos uma ligação dizendo que ela estava mal.

Chegamos em minutos, e lá estava aquela mulher forte, mas de mente confusa, deitadinha em seu sofá, em meio à bagunça, dizendo que nada doía, mas que estava se sentindo estranha.

Generosa morreu naquele mesmo dia, de enfarto.

Pensei que eu não me abalaria tanto, mas a dor em meu coração não passa. Talvez porque eu enxergue em Generosa um pouco de mim. Aquela que cuida de todos e, às vezes, esquece de cuidar de si mesma. Aquela que não tem tempo de realizar seus próprios sonhos, que espera o príncipe encantado e que estoca sonhos em caixas.

Quando varro o quintal da casa de minha avó, assim como Generosa fazia, escuto seu riso. Outro dia sonhei que estava em seu apartamento e dizia para ela: “poxa, tia, que pena que você não teve tempo de aproveitar”. E ela me sorria dizendo: “está tudo bem, está tudo bem”.

O que aprendi com sua partida é que devo cuidar de mim mesma, me amar como amo os outros. E sempre viver o hoje. Chega de planejar tanto, de guardar o melhor para depois! O depois, sempre acaba.

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