21/04/2016 Comportamento

“Quem trabalha com moda é burra”

Por Renata Poskus Vaz

Em qualquer discussão política ou social de que eu faça parte nas redes sociais, sofro tentativas de silenciamento vindas de outras mulheres: “vai, falar de moda, que é a única coisa que você sabe fazer“, “você é burra, vai estudar ou volta pra moda“, “quem trabalha com moda é burra“.

Frustradas, diante de uma mulher que pensa, que as contraria, logo tentam me desqualificar como interlocutora, como se o fato de trabalhar com moda me fizesse menos mulher, menos sábia, menos cidadã. Nada diferente do que homens a vida inteira costumam fazer conosco: “lugar de mulher é na cozinha“, “volta para o tanque“, “mulher só entende de serviço doméstico, deixe a política para nós, homens!“.

Dói. Dói muito. Mulheres reproduzindo machismo.

Gorda para ser levada à sério

Em minhas autoanálises cheguei à conclusão de que meu excesso de peso também foi uma saída que encontrei, mesmo que não de forma consciente, de me fazer ser ouvida. Cresci tendo minha inteligência questionada por ser uma menina e, posteriormente, mulher bonita. Como na minha cabeça, na época, ser gorda era horrível, engordei.

Na faculdade, por exemplo, ao ser coordenada em minha monografia por uma professora que nunca havia me dado aula antes, tive que ouvir que havia fraudado a primeira parte de minha monografia. E ouvi, com todas as letras que: “você vive bronzeada, mal aparece aqui, quer que eu acredite que você fez este trabalho?”. Alunos homens bronzeados não levantavam a mesma suspeita.

Fui indignada à diretoria. Fui defendida por alunos, professores e até pela própria coordenadora do curso, que já me conhecia. Mas doeu. Formei-me com honra ao mérito, com uma monografia que fiz com os pés nas costas, por ter uma facilidade imensa para escrever. Uma monografia que minha banca avaliadora garantiu status de dissertação de mestrado. Antes disso, já havia sido aprovada em Filosofia pela Universidade de São Paulo, embora tenha estudado jornalismo como bolsista em uma faculdade particular.

Cresci em um lar em que éramos (eu e meus irmãos) estimulados à leitura e à arte. Somos livres pensadores e donos de nossas próprias convicções. Escrevi meu primeiro livro aos 6 anos. “Ah, mas você não o publicou!”. Foda-se, eu o escrevi e o tenho até hoje, guardado. Nunca fui forçada a escrevê-lo e talvez seja por isso que hoje eu ame tanto escrever.

Tínhamos uma coleção dos pensadores em casa, mas li com gosto meu primeiro livro de filosofia aos 14 anos, que me foi dado pelo Padre Armênio, aqui do nosso bairro (sou espírita, mas éramos amigos). Víamos documentários, visitávamos museus. Pesquisávamos e líamos o que queríamos, não seguindo o que a escola mandava.

Na fase adulta, consegui um emprego de redatora Júnior, ganhando 40% menos que um redator Pleno, também recém-formado e cujos textos eu era obrigada a revisar, porque ele escrevia muito mal. E mesmo quando eu exercia a minha função, a dele e mais a função de roteirista, ainda assim não recebia aumento com o pretexto de que: “quem essa menina bonitinha pensa que é?”

Gorda, assédios diminuíam e minha inteligência era levada muito mais a sério.

E é revoltante ter que escrever tudo isso aqui. “Ah, mas se você fosse realmente inteligente não estaria se justificando”. Estou escrevendo não para provar minha inteligência, mas para deixar claro que assim como estão sendo escrotas comigo, também estão sendo com inúmeras outras mulheres. Faço isso pela legião de estudantes, produtoras, fotógrafas, designers, blogueiras, jornalistas, modelos, estilistas, modelistas, costureiras, diretoras de estilo e marketing que trabalham com moda. 

Vocês estão reproduzindo o machismo. Duelando, desqualificando e se pudesse matando uma outra mulher porque você apoia alho e ela bugalho.

Moda é coisa de mulher burra!

Antes de trabalhar com moda pensei em fazer mestrado ou uma segunda graduação. Lembro, inclusive, de uma conversa com meu psicanalista em que eu dizia querer cursar história ou filosofia, para ser levada a sério. Ele então me disse: “você não precisa de outro diploma para ser levada a sério”.  E deixei para o futuro, estudar por prazer no ambiente acadêmico (pois continuo estudando em casa), para aprender mais, mas não para ter um atestado de: “hey, gente, sou gostosa, loira, trabalho com moda, mas não sou burra”. 

O que essas mulheres preconceituosas ignoram é que todas nós somos protagonistas da moda. Veja bem, protagonistas e não vítimas.

Vá em uma manifestação de mulheres negras. Lá estarão muitas mulheres exibindo seus turbantes e cabelo blackpower, sinônimo de empoderamento e resgate cultural. Moda não é apenas roupa, é uma comunhão de pensamento, modo de vestir, agir e viver.

Quando nós, gordas, invadimos as praias de fio dental, estamos criando moda. Desconstruindo mitos com relação às roupas de banho, exibindo nossos corpos, nos orgulhando deles e com essa moda quebrando preconceitos.

Quando entro na UNESP, universidade em que minha irmã estuda Arte e Teatro, vejo dezenas de mulheres com cabeça raspada, roupas largas e confortáveis, todas muito parecidas. Isso também é moda! Não é falta de opinião ou inteligência, mas pessoas com interesses em comum que encontram uma forma estética de se expressarem ou se identificarem dentro de um grupo.

Enxergo a moda plus size como um importante instrumento de resgate de autoestima e de inclusão da mulher gorda na sociedade. Todos querem que a mulher gorda emagreça “pelo bem da sua saúde”, mas como ela fará isso sem roupas de ginástica e academias adaptadas para ela? A mulher gorda perde emprego muitas vezes por não se vestir adequadamente com a roupa que aquele cargo pretendido lhe exige. A mulher gorda não sai para se divertir porque não tem uma roupa em que se sinta fabulosa para ir à balada. A mulher gorda não transa porque nem ela consegue se sentir gostosa usando calcinha bege da vovó.

A democratização da moda plus size, a qual eu defendo, tira mulheres da marginalidade. Faz com que se sintam bonitas, especiais e que deixem de ser massa de manobra. Se consideram uma mulher  burra  por ela não ser mais massa de manobra e não ter medo de contrariar uma ou outra, por não dizer mais amém por medo de ser a gordinha rejeitada, muito prazer, pode me chamar de burra. (yes, estou sendo irônica, se não queremos ser chamadas de piranha, vaca, cadela, também não devemos chamar outras mulheres de burras. Deixemos os animais no zoológico!)

Meu trabalho

Enquanto entro aqui no Blog Mulherão para alavancar a autoestima de mulheres plus size, também estou pensando nos negócios que alimentam famílias e mais famílias. Eu me obrigo a entender de economia, previdência social, de política, de sociedade… Não sou uma consultora de moda (se fosse apenas isso, ainda assim merecia respeito!), sou uma consultora de moda e de negócios da moda. Negócios da moda envolvem empresários, trabalhadores, criadores, prestadores de serviço, movimenta a economia, gera trabalho, gera renda. Movimenta uma cadeia, desde quem produz o tecido, até quem o embala, quem o transporta, quem o armazena, quem o compra, quem o revende, quem o transforma em uma ideia, quem o modela, quem o costura, quem o vende agora em forma de roupa, quem o compra, quem o usa.

Oh, gorda capitalista! Sou sim. Amo dinheiro, o que o dinheiro compra e espero ganhar muito dinheiro ainda, fazendo muita gente enriquecer comigo também.

Sim, eu vivo da moda plus size, como você vive de fazer faxina, ou de salvar vidas, ou de curar dentes, ou de educar filhos alheios ou de administrar seus negócios ou negócios alheios. É o meu trabalho,  é um trabalho que amo, que me dá tesão, que me dá orgulho e tá pra nascer invejosa, opressora para desqualificá-lo.

Você pode não concordar comigo, com meus ideais, com minha visão política. Pode me achar burguesinha, coxinha (com catupiry, por favor!), mesmo eu tendo nascido na periferia, da periferia, da periferia da Freguesia do Ó e trabalhar há mais de 20 anos, desde meus 11 anos, mas faça um favor para si mesma, não questione minha inteligência por eu ser mulher ou  trabalhar com moda.

O que você veste é moda. O que você fala é moda. O que você é é moda. Pense nisso. Respeito é bom e eu gosto. ♥

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